Arquivo para janeiro, 2010


HATHA YOGA

YOGA

O que é yoga

A palavra yoga deriva do radical sânscrito yuj , que quer dizer fusão ou união. O propósito de toda yoga é juntar o homem, o mortal, o infinito, a luz, a verdade, a consciência universal, Deus, ou o nome com que se prefira designar o ente supremo. O yoga é como se diz na índia o matrimônio do espírito com a matéria. (Indra Devi,1962) .

Definimos o yoga como muito mais que uma ginástica para manter a saúde, apesar dos efeitos benéficos do yoga sobre o psiquismo de indivíduos que levam uma vida sedentária, submetidos a tantas tensões nervosas, podemos dizer que é uma ciência da união, da interação humana.

Todas as espécies de yoga têm o mesmo fim. O que determina e qualifica as diferentes técnicas não é o seu objetivo, mas seus meios, os instrumentos e mecanismos que empregam, de maneira predominante, caracterizando cada uma de suas escolas. As principais classes ou sistemas do yoga podem servir a diferentes tipos de pessoas, daseguinte maneira:

1. O mais disposto fisicamente se sentirá atraído para o HATHA- yoga, que utiliza o domínio externo e interno do corpo como ponto de partida e como meio para chegar à sua integração. Ela proporciona ao corpo o vigor e a força necessários para se poder suportar as Hatha Yoga

Ha, quer dizer sol e tha, lua. A tradução literal de Hatha yoga seria a união desses dois princípios o yoga solar e lunar, símbolo dos dois polos, pelo equilíbrio e interação dos quais o universo se mantém. Estes dois polos estão presentes em todo o universo, desde a mais grandiosa galáxia à menor das bactérias. Estão presentes num gesto, numa flor, enfim, em qualquer forma de matéria, de energia. São respectivamente, o pólo positivo e negativo, a luz e as trevas, o quente e o frio, a atividade e a passividade, o princípio masculino e o feminino, a atração e a repulsão, o dia e a noite, a vida e a morte, o yin e o yang (do taoísmo chinês) estão em toda parte realizando o milagre do dois em um. A palavra Hatha também é conceituada como “domínio, poder, esforço, presumindo que é necessário um esforço psicofísico extraordinário para atingir seus objetivos.

Funções do Hatha yoga: Lavar a alma das enfermidades e fraquezas , para que o diamante do espírito reflita o “sol infinito”.

Efeitos: A prática do yoga, logo nos seus primeiros dias, já produz efeitos sensíveis, que se traduzem por uma mudança de atitude e uma disposição mais ampla e mais equilibrada para todas as coisas. Tais efeitos, entretanto, são apenas consequência da liberação da agitação e da remoção da camada mais superficial de nossos hábitos e atitudes que se foram cristalizando no decorrer do tempo.

As Doenças e o yoga

As duas forças quando se mantêm equilibradas geram o cosmo, a ordem em desequilíbrio, criam o caos, ou a desordem. Diz-se que reina a saúde quando elas se mantêm equilibradas. Então, o corpo em si é um cosmo. Da mesma forma, a enfermidade surge quando uma delas predomina, quanto reina o caos orgânico. Esta linha do yoga (Hatha) é portanto, uma forma de terapia para se alcançar um equilíbrio psicorgânico, pois introduz a ordem onde a desarmonia imperava. O yoga nada cura, na verdade, o tratamento é feito pela natureza. Os exercícios do yoga ajudam a remover impurezas e obstruções, abrindo caminho e facilitando a tarefa da natureza.

O Que o Yoguie Deve Procurar no yoga?

O Hatha yoguie procura, portanto, dominar perfeitamente o corpo físico para que ele não represente um obstáculo a seus esforços de ativar o poder transcendente em si mesmo. Aprendendo com o yoga a vencer a fome, a sede e o sono; como vencer os efeitos do calor e do frio; como alcançar perfeita saúde e curar as doenças sem emprego de drogas;como impedir a decadência prematura do corpo, proveniente do gasto da energia vital. Afetando energicamente o sistema nervoso e o sistema endócrino, vitalizando as vísceras e estimulando os tecidos, ele deve buscar uma verdadeira medicina natural. Deve buscar acima de tudo a liberação de si mesmo, entendida como sua compreenção do eu, através da saúde e resistência do corpo, permitindo se colocar em sintonia com planos mais sutis do universo, superando suas debilidades físicas e mentais.

Elementos Formais do Hatha yoga

Em todo exercício do Hatha yoga devem intervir estes quatro elementos:

1) âsana (postura)

2) Pranayama (respiração)

3) Relaxamento

4) Atitude mental

Vamos analizar cada um em separado:

Âsanas (posturas): De acordo com a tradição indiana, o deus Shiva, num gesto de bondade, ensinou à sua esposa, a deusa Parvati, o Hatha yoga, incluindo as âsanas em número igual ao de todas as espécies de seres vivos que existem na terra. O principiante deve aprender gradualmente as diferentes posturas do corpo e dos membros, chamadas de Âsanas. Supõe-se que haja milhares de posturas, mas somente 8.400 são mantidas pela tradição. Mas somente 84 clássicas da modalidade Hatha yoga.

O homem moderno , leva uma vida bastante sedentária, apesar de suas múltiplas atividades. Um ciclo vicioso de casa-trabalho-rua, que reduz muito seus movimentos e posturas corporais. As âsanas mexem todos os músculos e articulações assim como órgãos que não se movimentam normalmente. Algumas âsanas pressionam um conjunto de vísceras, provocando massagens naturais; outros, flexionando o que normalmente é rígido, constituem uma verdadeira fonte de prazer. Os âsanas são uma espécie de espreguiçamento, de liberação profunda.

Efeitos: Melhora a flexibilidade corporal; exercendo uma mecânica sobre diversas vísceras e glândulas, estimulando-os naturalmente; favorece a atividade de diversos nervos e plexos nervosos produzindo além dos seu efeito físico uma alteração e amplitude da sensibilidade interna. Podendo mudar a circulação sanguínea em todo ou parte do corpo. Do ponto-de-vista oriental, as âsanas afastam o elemento tamas que dá peso ao corpo e libera o corpo dos efeitos do frio, catarro, reumatismo e muitas doenças. E desenvolve a circulação energética ativando e desenvolvendo os chacras ,modifcando nosso fluxo de energias dentro do organismo, alterando sensivelmente o nosso psiquismo.

A prática das âsanas: O Iniciante deve ter em mente que os âsanas não são simples exercícios, mas modelos sistemáticos, constantes, de postura. Eles se distinguem dos outros exercícios nos seguintes aspectos: Na permanência progressivamente prolongada em determinadas posturas, são executadas uma única vez, na maioria das vezes e o tempo de duração irá aumentando à medida que progredimos na sua prática.

A extrema lentidão nos exercícios ajuda a coordenar, de maneira cada vez mais consciente, a mente com a musculatura empregada, beneficiando o sistema nervoso. A execução dos âsanas geralmente é suave, com o discípulo evitando o esforço. Mesmo em algumas âsanas mais dinâmicas, os movimentos devem ser lentos e uniformes.

O iniciante, no início terá de fazer um esforço maior, com o tempo, alcançará uma flexibilidade e liberdade tal que o surpreenderá. Por isso, nunca force o corpo em momento algum e pare o movimento se sentir uma sensação de dor, mesmo que ligeira, respire sempre, com suavidade e profundamente, somente pelas narinas. Se for iniciante, mantenha-se na postura sempre entre um a três minutos no máximo, até dominá-la bem e após esta fase, quanto tempo quiser. Mas , caso você se identifique com as posturas desde o início, poderá praticá-las por quanto tempo quiser em relação ao tempo de permanência. Para completar, mantenha estas instruções também no cotidiano, a qualquer instante em qualquer lugar ou situação.

Devemos começar as posturas do yoga pelas mais simples, passando para as mais difíceis, à medida que seus músculos e junturas se tornem mais ágeis. Não deixe que o medo e as dificuldades iniciais o desanimem. Lembre-se que elas não são acrobacias, que não estará competindo com ninguém e que nenhum dos exercícios exige força.

Ao iniciar as práticas dizemos sempre: Namaste !!! (quer dizer,”Santo Deus em mim, e saúdo Deus em ti”)

Posturas (Âsanas) – Alguns exemplos:

Baddha konasana

Esta postura serve especialmente para o início das práticas, trazendo-nos tranquilidade corporal e acomodação mental, pois sem estas o resultado das práticas serão nulos.

Bhujangasana – postura da cobra

Esta postura é uma das mais completas e eficientes, tem inúmeras finalidades. Atua especialmente sobre a coluna vertebral, toda a musculatura frontal sobre a interligação cérebro-espinhal e o cóccix, fortalecendo braços e ombros assim como quadris, pernas e abdômen. Recomendada para diminuir dores nas costas, gases intestinais e inflamações uterinas.

Chaturanga dandasana

Este exercício fortalece os braços e pernas, desenvolve peitorais, braços e panturrilhas.

Esta é uma postura adiantada e que só deverá ser praticada por aqueles que já têm um certo grau de domínio sobre o corpo físico e a mente, ou seja, o possuidor de equilíbrio interno e externo e de poder de concentração. É evidente que seus efeitos são muito amplos.

Paripurna navasana

Ótima para fortalecer o abdômen e melhorar prisões-de-ventre.

“Ponte”

Uma das posturas de caráter recuperador, é das mais completas para a harmonização da coluna vertebral. Atua sobre a tireóide e leva profunda irrigação ao cérebro, ativando as glândulas endócrinas situadas na hipófise e a pineal.

Swandasana

Age sobre a espinha , a região pélvica e o pulso.

Utthita trikonasana

Esta é uma das posturas que serve especialmente para desenvolver e dar flexibilidade à estrutura lateral do corpo em todos os sentidos. Não é postura difícil mas requer prática constante.

Vrksasana

É uma postura que requer muito equilíbrio e concentração. Proporciona disciplina física e mental com efeitos profundos nestes níveis. impostas pelos estágios mais avançados do treinamento.

2. O de talento meditativo tirará muitos benefícios do RAJA-yoga, que utiliza o domínio interno dos mecanismos da atividade mental, é a mais alta forma, a yoga da consciência, é iniciada com a prática da Hatha yoga .

3.O que se preocupa com a ética, procurará o KARMA-yoga, que emprega a atividade externa, a vida ativa, com renúncia progressiva ao objeto da ação, é atingida com o trabalho e com a ação;

4. O tipo emocional deve provavelmente sentir-se atraído pelo BHAKTI-yoga, que é a prática do amor e devoção a Deus, a serviço do próximo, atinge-se pela devoção e desprendimento;

5. O de espírito intelectual e filosófico identificar-se-á com o JNANA-yoga, que emprega o discernimento e conhecimento abstrato, atinge-se através do estudo e sabedoria;

6. Aquele que se identifica com os sons internos e externos tenderá para o MANTRA-yoga, que usa o domínio do som, e a aplicação do ritmo a determinadas combinações de sons, atinge-se através de invocações e sons .

7. O ser voltado para o domínio das energias sutis, com certeza, será encaminhado para a prática do TANTRA-yoga, que emprega o exercício as energias psíquicas e fisiológicas.

Todas estas formas de yoga tiveram destaque na espiritualidade indiana.

” Infinita energia está à disposição do homem se ele souber como

despertá-la; fazê-lo é parte da ciência do yoga.” Adams Back

5 Pontos Principais do yoga

Existem centenas ou mais técnicas de yoga mas com o objetivo de simplificar Swami Vishnu-devananda resumiu a ciência yoga em 5 princípios fáceis de entender e adaptar na vida diária:

* Exercitar-se adequadamente;

* Controle da respiração;

* Relaxamento ;

* Dieta alimentar;

* Meditação.

Diferença entre o yoga e a Ginástica

As asanas yogas são uma arte aplicada à anatomia do corpo como um todo, ao passo que as outras ginásticas são uma forma de desenvolver o corpo em si. A meta do yoga não é superficial direcionada somente ao desenvolvimento corporal. As posturas procuram normalizar as funções de todo o organismo, regularizando o processo respiratório, metabólico, circulatório, digestivo e eliminatório. Agem sobre todo o sistema glandular e orgânico, assim como sobre os nervos e o cérebro. Isto é conseguido fazendo-se respiração profunda durante as diferentes posturas. Cada uma delas tem determinado efeito sobre o comportamento do organismo. Dessa maneira, o yoga se faz sentir de forma física, mental e espiritual. Praticando-a, sentimos um despertar de forças que nós ignoramos possuir. Através desses exercícios, muitos dos quais copiam os movimentos de animais, as capacidades físicas são aumentadas, gozando-se uma sensação de equilíbrio e vitalidade. No yoga, o relaxamento é ensinado como arte, a respiração como ciência e o controle mental do corpo como um meio de harmonizá-lo com a mente e o espírito.

Histórico do yoga

O yoga é o resultado do desenvolvimento de muitas épocas. Suas origens mais primitivas estão perdidas na obscuridade da história antiga. Existem provas decisivas de que o yoga não é apenas um produto do último período das Upanishad, mas remonta ao Rgveda. De acordo com os estudiosos contemporâneos, entre os quais o proeminente professor Mircea Eliade, traços de uma antiga forma de yoga podem ser percebidos já na civilização do Indu, que floreceu nos segundo e terceiro milênios anteriores à Era cristã. O mais significativo testemunho dessa civilização é, sem dúvida, o conjunto de livros denominado “Rgvda” (coleção com mais de 1000 hinos compostos há 2000 anos a.C. . Através de estudos sabemos que Patanjali, que viveu 200 anos antes de cristo, é chamado de pai do yoga, por ter sido o primeiro a escrever o que antes era passado oralmente de mestre, guru, a discípulo, chela. Foi ele quem editou os aforismos do yoga, que constituem o manual do Raja yoga.

Podemos dizer que o yoga iniciou-se na índia há milhares de anos. De acordo com o professor alemão Max Mueller, ela existe há 6000 anos, outras fontes sugerem que seria muito mais antiga. Historicamente , o mais precioso de todos os tipos e yoga é o sistema clássico de Patanjali , que representa o resumo de muits gerações de cultura yóguica , que apesar de ser um tratado básico do Raja-yoga, constitui uma espécie de sintese, integrando tudo numa unidade orgânica. Além desta escola, tida como um dos seis sistemas ortodoxos do Hinduísmo, existem numerosas outros yogas não-sistemáticas, frequentemente misturadas com conceitos populares. Há também alguns yogas nas esferas dos ensinamentos budistas e jainistas.

Qual é a religião do yoguie ? Pode um católico fazer yoga?

Um yoguie pode pertencer a qualquer ou a nenhuma religião . Ele fará sua própria relação com o infinito, pois estará mais próximo dele. O yoga não é religião. Foi formada, nos anos 60 (citado por Indra Devi) , uma associação católica em bangalore, na índia, com o fito de introduzir e integrar o uso do yoga na vida de jovens católicos.

Qual é a Idade Limite para Estudar o yoga?

Normalmente, não se deve começar antes dos seis e depois de sessenta e cinco anos de idade, ainda que existam pessoas que o iniciaram mais tarde e tiveram bons resultados. O yoga foi feita para toda vida.

Obs: esta afirmação foi feita em 1962, por Indra Devi, podemos considerar que hoje a longevidade tem avançado muito dando uma margem maior de sobrevivência e juventude para os indivíduos.

Hatha Yoga

Ha, quer dizer sol e tha, lua. A tradução literal de Hatha yoga seria a união desses dois princípios o yoga solar e lunar, símbolo dos dois polos, pelo equilíbrio e interação dos quais o universo se mantém. Estes dois polos estão presentes em todo o universo, desde a mais grandiosa galáxia à menor das bactérias. Estão presentes num gesto, numa flor, enfim, em qualquer forma de matéria, de energia. São respectivamente, o pólo positivo e negativo, a luz e as trevas, o quente e o frio, a atividade e a passividade, o princípio masculino e o feminino, a atração e a repulsão, o dia e a noite, a vida e a morte, o yin e o yang (do taoísmo chinês) estão em toda parte realizando o milagre do dois em um. A palavra Hatha também é conceituada como “domínio, poder, esforço, presumindo que é necessário um esforço psicofísico extraordinário para atingir seus objetivos.

Funções do Hatha yoga: Lavar a alma das enfermidades e fraquezas , para que o diamante do espírito reflita o “sol infinito”.

Efeitos: A prática do yoga, logo nos seus primeiros dias, já produz efeitos sensíveis, que se traduzem por uma mudança de atitude e uma disposição mais ampla e mais equilibrada para todas as coisas. Tais efeitos, entretanto, são apenas consequência da liberação da agitação e da remoção da camada mais superficial de nossos hábitos e atitudes que se foram cristalizando no decorrer do tempo.

As Doenças e o yoga

As duas forças quando se mantêm equilibradas geram o cosmo, a ordem em desequilíbrio, criam o caos, ou a desordem. Diz-se que reina a saúde quando elas se mantêm equilibradas. Então, o corpo em si é um cosmo. Da mesma forma, a enfermidade surge quando uma delas predomina, quanto reina o caos orgânico. Esta linha do yoga (Hatha) é portanto, uma forma de terapia para se alcançar um equilíbrio psicorgânico, pois introduz a ordem onde a desarmonia imperava. O yoga nada cura, na verdade, o tratamento é feito pela natureza. Os exercícios do yoga ajudam a remover impurezas e obstruções, abrindo caminho e facilitando a tarefa da natureza.

O Que o Yoguie Deve Procurar no yoga?

O Hatha yoguie procura, portanto, dominar perfeitamente o corpo físico para que ele não represente um obstáculo a seus esforços de ativar o poder transcendente em si mesmo. Aprendendo com o yoga a vencer a fome, a sede e o sono; como vencer os efeitos do calor e do frio; como alcançar perfeita saúde e curar as doenças sem emprego de drogas;como impedir a decadência prematura do corpo, proveniente do gasto da energia vital. Afetando energicamente o sistema nervoso e o sistema endócrino, vitalizando as vísceras e estimulando os tecidos, ele deve buscar uma verdadeira medicina natural. Deve buscar acima de tudo a liberação de si mesmo, entendida como sua compreenção do eu, através da saúde e resistência do corpo, permitindo se colocar em sintonia com planos mais sutis do universo, superando suas debilidades físicas e mentais.

Elementos Formais do Hatha yoga

Em todo exercício do Hatha yoga devem intervir estes quatro elementos:

1) âsana (postura)

2) Pranayama (respiração)

3) Relaxamento

4) Atitude mental

Vamos analizar cada um em separado:

Âsanas (posturas): De acordo com a tradição indiana, o deus Shiva, num gesto de bondade, ensinou à sua esposa, a deusa Parvati, o Hatha yoga, incluindo as âsanas em número igual ao de todas as espécies de seres vivos que existem na terra. O principiante deve aprender gradualmente as diferentes posturas do corpo e dos membros, chamadas de Âsanas. Supõe-se que haja milhares de posturas, mas somente 8.400 são mantidas pela tradição. Mas somente 84 clássicas da modalidade Hatha yoga.

O homem moderno , leva uma vida bastante sedentária, apesar de suas múltiplas atividades. Um ciclo vicioso de casa-trabalho-rua, que reduz muito seus movimentos e posturas corporais. As âsanas mexem todos os músculos e articulações assim como órgãos que não se movimentam normalmente. Algumas âsanas pressionam um conjunto de vísceras, provocando massagens naturais; outros, flexionando o que normalmente é rígido, constituem uma verdadeira fonte de prazer. Os âsanas são uma espécie de espreguiçamento, de liberação profunda.

Efeitos: Melhora a flexibilidade corporal; exercendo uma mecânica sobre diversas vísceras e glândulas, estimulando-os naturalmente; favorece a atividade de diversos nervos e plexos nervosos produzindo além dos seu efeito físico uma alteração e amplitude da sensibilidade interna. Podendo mudar a circulação sanguínea em todo ou parte do corpo. Do ponto-de-vista oriental, as âsanas afastam o elemento tamas que dá peso ao corpo e libera o corpo dos efeitos do frio, catarro, reumatismo e muitas doenças. E desenvolve a circulação energética ativando e desenvolvendo os chacras , modifcando nosso fluxo de energias dentro do organismo, alterando sensivelmente o nosso psiquismo.

A prática das âsanas: O Iniciante deve ter em mente que os âsanas não são simples exercícios, mas modelos sistemáticos, constantes, de postura. Eles se distinguem dos outros exercícios nos seguintes aspectos: Na permanência progressivamente prolongada em determinadas posturas, são executadas uma única vez, na maioria das vezes e o tempo de duração irá aumentando à medida que progredimos na sua prática.

A extrema lentidão nos exercícios ajuda a coordenar, de maneira cada vez mais consciente, a mente com a musculatura empregada, beneficiando o sistema nervoso. A execução dos âsanas geralmente é suave, com o discípulo evitando o esforço. Mesmo em algumas âsanas mais dinâmicas, os movimentos devem ser lentos e uniformes.

O iniciante, no início terá de fazer um esforço maior, com o tempo, alcançará uma flexibilidade e liberdade tal que o surpreenderá. Por isso, nunca force o corpo em momento algum e pare o movimento se sentir uma sensação de dor, mesmo que ligeira, respire sempre, com suavidade e profundamente, somente pelas narinas. Se for iniciante, mantenha-se na postura sempre entre um a três minutos no máximo, até dominá-la bem e após esta fase, quanto tempo quiser. Mas , caso você se identifique com as posturas desde o início, poderá praticá-las por quanto tempo quiser em relação ao tempo de permanência. Para completar, mantenha estas instruções também no cotidiano, a qualquer instante em qualquer lugar ou situação.

Devemos começar as posturas do yoga pelas mais simples, passando para as mais difíceis, à medida que seus músculos e junturas se tornem mais ágeis. Não deixe que o medo e as dificuldades iniciais o desanimem. Lembre-se que elas não são acrobacias, que não estará competindo com ninguém e que nenhum dos exercícios exige força.

Não quero dar qualquer outra prova da verdade que não esteja apoiada na experiência pessoal. Quanto mais alguém a pratica [a técnica de Kriya Yoga] com paciência e regularidade, tanto mais sente, intensa e  demoradamente, que está fixo na Bem-aventurança ou Deus.

Devido à persistência de maus hábitos, a consciência da existência corporal, com todas as suas lembranças, revive ocasionalmente e combate essa tranqüilidade. Se, porém, qualquer um praticar este método regularmente e por períodos prolongados, pode ter a certeza de que, em tempo, encontrar-se-á em elevado estado supramental de Bem-aventurança.

Não devemos, todavia, com exagero, imaginar antecipadamente os resultados possíveis a que este processo pode conduzir e, então, parar de praticá-la após curta tentativa. Para fazer real progresso, são necessários os seguintes fatores: primeiro, dedicada atenção ao assunto que vai ser aprendido; segundo, o desejo de aprender e um espírito sério de investigação; terceiro, firmeza até o objetivo colimado ser alcançado.

Se apenas trabalharmos parcialmente e depois de uma prática limitada a interrompemos, o resultado almejado não virá. Um neófito em práticas espirituais, que tenta prejulgar a experiência dos peritos – os mestres e profetas de todos os tempos – assemelha-se à criança que procura imaginar a que se assemelham os cursos de pós-graduação.

É grande pena que os homens despendam seu tempo e seus melhores esforços para conseguir o que é necessário à existência mundana, ou em controvérsias intelectuais acerca de teorias. Parece que raramente pensam valer a pena perceber e pacientemente experimentar na vida as verdades que não só vivificam, como também conferem significação à existência. Esforços mal orientados prendem a atenção dessas pessoas durante mais tempo do que as iniciativas bem conduzidas.

Eu venho praticando o método mencionado por muitos anos e, quanto mais o pratico, tanto mais sinto a alegria de um estado de Bem-aventurança permanente e infalível.”

Paramahansa Yogananda

The Science of Religion, pág.62

Kriya Yoga é um método simples, psicofisiológico, pelo qual o sangue humano se descarboniza e volta a oxigenar-se. Os átomos deste extra-oxigênio transmutam-se em corrente vital para rejuvenescer o cérebro e os centros da espinha. Sustando a acumulação de sangue venoso, o iogue pode diminuir ou evitar a degeneração dos tecidos. O iogue adiantado transmuta suas células em energia.

Elias, Jesus, Kabir e outros profetas foram, no passado, mestres no uso de Kriya ou de uma técnica similar, pela qual eles materializavam ou desmaterializavam seus corpos à vontade.

Kriya é uma ciência antiqüíssima. Láhiri Mahásaya recebeu-a de seu grande guru, Bábají, que redescobriu e purificou esta técnica depois da Idade Média, época em que esteve perdida. Bábají batizou-a de novo, simplesmente, de Kriya Yoga.

Esta antiga técnica iogue converte a respiração em substância mental. O adiantamento espiritual permite ao devoto conhecer a respiração como um conceito, um ato da mente: ela é, pois, uma respiração de sonho.

Kriya Yoga é o verdadeiro “rito do fogo”, muitas vezes enaltecido no Gíta. O iogue arroja seus anseios humanos numa fogueira monoteísta consagrada ao Deus incomparável. Nesta autêntica cerimônia do fogo, todos os desejos passados e presentes são o combustível consumido pelo amor divino. A Flama Última recebe em holocausto a derradeira loucura humana e o homem se vê livre de escórias. Seus ossos metafóricos despojados de toda carne sensual, seu esqueleto cármico branqueado pelos sóis anti-sépticos da sabedoria, sem ofensas ao homem e ao Criador, ele se encontra – finalmente – limpo.

Paramahansa Yogananda

Autobiografia de Um Iogue, capítulo 26

http://www.almasdivinas.com.br/vida/beneficios_krya.htm

http://www.hariharanandakriyayoga.org/port/p_pdf/Levante%20e%20Brilhe!_Vol1No1-2005.pdf

Paramahansa Yogananda (5 de janeiro de 18937 de março de 1952), foi um iogueguru indiano. É considerado um dos maiores emissários da antiga filosofia da Índia para o Ocidente. Através da Self-Realization Fellowship (SRF), a organização que fundou ao chegar aos Estados Unidos, foi pioneiro ao promover a prática da meditação por meio das lições que os estudantes recebiam em casa, pelo correio, para cumprir a sua missão mundial de difundir as técnicas de Kriya Yoga. Paramahansa Yogananda teve sua singular história de vida imortalizada no best-seller Autobiografia de um Iogue.

Biografia

Infância, Juventude e Busca Espiritual

Conforme contado por seu irmão, Sananda Lal Ghosh,[1] Paramahansa Yogananda nasceu com o nome Mukunda Lal Ghosh no dia 5 de Janeiro de 1893, na cidade de GorakhpurÍndia, numa devota e abastada família Bengali. Desde os primeiros anos, sua consciência e experiências espirituais já eram reconhecidas por todos ao seu redor como muito além do comum, passando por lembranças de suas vidas passadas, brincadeiras em que voluntáriamente suspendia a vida do seu corpo deixando todos alarmados, à tentativas de fugas ao Himalaya, interrompidas por seus familiares.

A morte da mãe, à quem amava intensamente, foi comunicada a ele por uma aparição mística e intensificou sua busca pessoal por Deus. Ansiando encontrar um mestre iluminado para guiá-lo em sua busca espiritual, durante a juventude Yogananda procurou a presença de muitos sábios e santos da Índia que sempre lhe diziam para aguardar o momento certo, quando seu guru, apontado por Deus, surgiria.

Em 1910, com a idade de 17 anos, finalmente sua busca pelo mestre cessou diante do encontro com Swami Sri Yuktéswar. Segundo suas próprias narrativas, foi no eremitério de Sri Yuktéswar que passou a melhor parte do 10 anos seguintes, recebendo disciplina rígida, porém amorosa, enquanto adquiria sobejas experiências da realidade do espírito.[2]

Após formar-se na Universidade de Calcutá em 1915, ele fez os votos formais e entrou na Ordem monástica dos Swamis, ocasião em que recebeu o nome Yogananda (que significa bem-aventurança, ananda, através da união divina, yoga).[3]

Pre-destinado à uma Missão Mundial

Além do que é relatado na Autobiografia, de acordo com diversos livros de amigos e familiares,[1][4][5] várias ocorrências invulgares desde o nascimento de Yogananda, já anunciavam que à ele era destinada uma missão mundial. A sua trajetória estava intimamente entrelaçada com a de tres seres, cuja sabedoria e singularidade, Yogananda viria exaltar ao mundo:Mahavatar Bábaji, intitulado o Cristo Yogue da India Moderna e guru de Lahiri Mahasaya. Lahiri, guru de seus pais e de Swami Sri Yuktéswar. E seu próprio mestre, Sri Yukteswar, que o preparou à pedido de Bábajipara difundir a Kriya no Ocidente.

Prenúncios por Lahiri Mahasaya

Quando era um bebê, sua mãe levou-o numa visita à Lahiri Mahasaya. Apesar de oculta entre a multidão de discípulos, o guru a chamou e fez a profecia:

“Mãezinha, seu filho será um iogue. Semelhante a um motor espiritual, ele conduzirá muitas almas ao reino de Deus.”[6] Nota: Yogananda conta na Autobiografia, que aos 8 anos foi curado do cólera, pelo auxílio invisível de Lahiri Mahasaya.

Por volta de 13 anos de idade, certo dia desobedeu instruções paternas de ir da escola direto para casa e rumou com o irmão mais novo para a “boca do rio”, perto do Porto. No caminho distrairam-se em traquinagens infantis colhendo frutas, e já estava anoitecendo, quando alguém chamou pelo nome de “Mukunda” (Yogananda).

Os dois garotos aproximaram-se do desconhecido notando a estranheza de uma luz que se despreendia dele. Yogananda, num gesto de respeito inclinou-se tocando os pés do homem, que o abraçou e beijou na cabeça dizendo:

“Mukunda, é desejo de Deus que hoje eu venha a ti. Lembra o que te digo. Vieste à terra como representante de Deus para cumprir seus desejos. Teu corpo é Seu templo, santificado pela oração e a meditação. Não corras atrás dos prazeres ou satisfações materiais. Tu mostrarás o caminho que conduz à felicidade verdadeira, e mediante teus conhecimentos espirituais libertarás aos que estão sofrendo, sumidos na ignorância. Nunca esqueças que és um com Maha Purusha, a quem somente alcançam aqueles que são supremamente realizados na meditação. Teu corpo, tua mente e tua vida jamais deverão desviar-se de pensar em Deus, nem sequer por um momento. As bênçãos do Pai Infinito estão sobre ti. Tua fé Nele deve ser absoluta. Ele te protegerá de todos os perigos. Somente Ele é eterno neste mundo, tudo o mais é efêmero e incerto. Um dia, teus ideais yóguicos inspirarão a toda humanidade. Mukunda, continua avançando!”[1]

Ao chegarem em casa, Yogananda conduziu o irmão até a foto de Lahiri Mahasaya, mostrando que misterioso santo que lhes aparecera, era o guru de seus pais, falecido há 11 anos.

Prenúncios por Sri Yuktéwsar sobre a SRF

No cap. 12 da Autobiografia, Yogananda relata um episódio profético, quando Sri Yukteswar estava estava interpretando as escrituras e interrompeu-se para chamar sua atenção, advertindo-o que seus pensamentos deveriam concentrar-se integralmente nas explicações. Diante da réplica de Yogananda afirmando estar atento, seu guru respondeu:

“Sua objeção me obriga a declarar que, nas profundezas de sua mente, você criava três instituições. Uma era um retiro em meio aos bosques de uma planície, outra no cimo de um monte, e a terceira junto ao oceano.”

- Aqueles pensamentos vagamente formulados haviam se apresentado, de fato, quase subconscientemente. Olhei-o com ar de desculpa.

“Seus sonhos arquiteturais se materializarão mais tarde. Agora é tempo de estudar”!

- Assim, incidentalmente, em seu estilo simples, meu Mestre revelou conhecer o advento de três importantes acontecimentos em minha vida. Desde o alvorecer de minha juventude, eu tivera vislumbres enigmáticos de três edifícios, cada um em paisagem diferente. Na seqüência exata em que Sri Yuktéswar os mencionou, estas visões acabaram por se concretizar. Em primeiro lugar, veio a fundação de minha escola de ioga para meninos numa planície em Ranchi; depois, a sede americana no cimo de um monte em Los Angeles; e afinal, o retiro de Encinitas, na Califórnia, defronte ao vasto Pacífico.

Assumindo compromisso com organizações

Um dia Sri Yuktéswar questionou porque Yogananda se opunha à idéia de organizações. (Yogananda argumentava que elas se assemelhavam à “caixas de marimbonbos”). Sri Yuktéswarreplicou:

“Poderia você, ou alguém, atingir a comunhão com Deus através da ioga, se uma linhagem de mestres de coração generoso não tivesse condescendido em transmitir seu conhecimento aos outros? Deus é o Mel, as organizações são as colmeias; ambos são necessários. Qualquer forma é inútil, naturalmente, sem o espírito, mas por que você não dá início a colmeias operosas, repletas de néctar espiritual?”

Foi a partir desse diálogo que Yogananda decidiu que compartilharia com quantos fosse possível, as “verdade libertárias” que aprendera junto ao seu guru, iniciando em seguida, a fundação de uma escola na India e a Self-Realization Fellowship SRF nos EUA.[7]

Prenuncios por Bábaji

Sri Yuktéswar conta sobre seu primeiro encontro com Bábaji, ocasião em que este lhe revelou a missão de Yogananda:

“Percebi que você está tão interessado no Ocidente quanto no Oriente. Senti as angústias de seu coração, amplo bastante para pulsar por todos os homens. Foi por isso que o chamei aqui.”

“Oriente e Ocidente devem marchar por uma mesma estrada de atividade e espiritualidade combinadas. A India tem muito a aprender do Ocidente quanto ao desenvolvimento material; em troca, a India pode ensinar os métodos universais que possibilitarão ao Ocidente basear suas crenças religiosas nos alicerces inabaláveis da ciência da ioga.”

“Você, Swâmijí, tem um papel a desempenhar no intercâmbio harmonioso que se efetuará entre o Oriente e o Ocidente. Daqui a alguns anos, vou lhe enviar um discípulo que você treinará para a disseminação da ioga no Ocidente. As vibrações de muitas almas, sedentas de espiritualidade, chegam de lá até mim, como um dilúvio. Percebo santos potenciais na América e na Europa, esperando ser despertados.”

Neste ponto de sua história, Sri Yuktéswar mergulhou seu olhar inteiramente no meu. “Meu filho” – disse ele, sorrindo sob o resplandecente luar – “é você o discípulo que, há anos atrás, Bábají prometeu me enviar.”[8]

Pouco antes de partir para a América, Yogananda relata seu próprio encontro com Bábaji, quando sentia muita apreensão diante da súbita mudança:

Naquele momento, ouvi uma batida na porta de minha casa de Gurpar Road. Atendendo ao chamado, vi um jovem vestido com o traje escasso do homem de renúncia. Ele entrou.

“Deve ser Bábají!” – pensei, ofuscado, porque o homem diante de mim tinha o aspecto de um jovem Láhiri Mahásaya. Ele respondeu ao meu pensamento:

Sim, sou Bábají. Nosso Pai Celestial ouviu sua prece. Ele me ordena que lhe diga: “Obedeça a seu guru e vá à América. Nada receie: será protegido.

Eu o escolhi para difundir a mensagem de Kriya Yoga no Ocidente. Há tempos atrás encontrei seu guru Yuktéswar numa Khumba Mela e lhe disse que enviaria um discípulo ao seu áshram para receber treinamento com esse fim. Kriya Yoga, a técnica científica para alcançar consciência de Deus, terminará por difundir-se em todas as terras e ajudará a harmonizar as nações através da percepção pessoal e transcendente que, do Pai Infinito, o homem alcançará.[9]

]Concretizando a Missão Mundial

  • A Escola de Ranchi

Yogananda começou a missão de sua vida com a fundação, em 1917, de uma escola do “Saber Viver” (Yogoda Satsanga em Ranchi) para meninos, na qual os modernos métodos educacionais eram combinados com treinamento em yoga e nos ideais espirituais, além de manter um serviço médico ao ar livre de ajuda medicinal e cirúrgica para atendimento à pobres de todas as regiões. Em uma visita à escola em 1925, Mahatma Gandhi escreveu no livro destinado aos visitantes: “Essa instituição deixou uma profunda impressão em minha mente”.[5][10][11]

  • Ida para os Estados Unidos

Em 1920, foi convidado para participar como representante da Índia em um Congresso de líderes religiosos que aconteceu em Boston. Inseguro porque não falava bem o inglês, Yogananda perguntou a Sri Yuktéswar se deveria ir.

“Todas as portas estão abertas para você. É agora ou nunca!”

Chegando à América, seu discurso com o tema “A Ciência da Religião”, foi recebido com tanto entusiasmo que ele foi convidado a dar uma série de outras palestras em diversas cidades americanas.[5][9]

  • Fundando a Self-Realization

Ainda em 1920, Yogananda fundou sua organização que chamou de Self-Realization Fellowship SRF (Fraternidade da Auto-Realização), destinada a representá-lo, disseminar seus ensinamentos e a filosofia do ioga para o mundo. Atraiu em torno de si discípulos que dedicaram-se ao monatério na SRF e desempenhariam importante papel no auxílio de seus ideais de difusão de Kriya Yoga. Nota: muitos desses primeiros discípulos permaneceram até o fim de suas vidas na Self-Realization Fellowship SRF e alguns ainda são vivos e atuantes no Conselho da organização.[12][13]

  • Difusão dos ensinamentos

Pelos próximos anos Yogananda viajou extensivamente e fez inúmeras palestras para auditórios super lotados. O Los Angeles Times registrou: “O Philharmonic Auditorium apresentou uma lotação espetacular com milhares de pessoas, muitos ficaram de fora sem conseguir entrada já uma hora antes do início da palestra, com os 3 mil lugares do teatro cheios até o limite de sua capacidade”.[14][15]

Em 1924, embarcou em uma viagem transcontinental que o levou até o Alasca, para divulgar sua mensagem e ao retornar estabeleceu a sede central da Self-Realization Fellowship em Los Angeles, que se tornou o centro espiritual e administrativo de seu trabalho até os dias de hoje.

Visita à India (1935-1936)

Em 1935, Yogananda partiu em uma viagem de dezoito meses pela Europa, Palestina e Índia. Ocasião em que encontrou-se com diversas personalidades reconhecidas e relatadas em sua Autobiografia.

Nesse mesmo ano seu guru Sri Yukteswar lhe conferiu o mais elevado título espiritual da índia: Paramahansa (Supremo Cisne) que significa “aquele que manifesta o estado maior de comunhão ininterrupta com Deus”. E em 1936, enquanto Yogananda percorria outras cidades, Sri Yukteswar faleceu em Puri.[20]

Durante essa viagem Yogananda também visitou discípulos de Lahiri Mahasaya, sua esposa e familiares, levantando dados para escrever sobre a vida dele, que alguns anos depois o tornaria largamente conhecido no mundo, cumprindo mais uma profecia citada por por Láhiri antes ainda do nascimento de Yogananda: “Aproximadamente cinqüenta anos após a minha morte, escrever-se-á um relato de minha vida, em virtude do grande interesse que, pela Ioga, há de nascer no Ocidente. A mensagem da Ioga circundará o globo. Ajudará a estabelecer a fraternidade e a unidade dos homens, com base na percepção direta que terão do Pai único.” A morte de Láhiri ocorreu em 1895. Em 1945, exatamente 50 anos depois, Yogananda lhe rendia destacada homenagem na Autobiografia de um Iogue.[21]

Um balanço da Missão Mundial

Visão parcial do Santurário do Lago – SRF Lake Shrine.

Em 1923, três anos depois de chegar aos Estados Unidos, Paramahansa Yogananda publicou um livro chamado Praecepta, sobre o sistema psico-físico denominado Yogoda que ele descobriu e passou a ensinar aos seus discípulos, tanto nos Estados Unidos como na Índia. Ele afirmava que eram essas as técnincas mais elevadas de concentração para se alcançar a a perfeição física pelo poder da vontade. Ao regressar de sua viagem à India, Paramahansa Yogananda solidificou os alicerces para seu trabalho humanitário e espiritual na Self-Realization Fellowship, e concluiu uma abrangente série de Lições para serem estudadas em casa, com a técnica de Kriya Yoga. Retirou-se gradualmente das atividades públicas para escrever os livros que iriam preservar seus ensinamentos para as gerações futuras. Em 1946 lançou sua Autobiografia de um Iogue com expressivo sucesso e, em 1951, publicou uma edição atualizada com novas narrativas, incluindo um detalhado relato sobre a Self-Realization Fellowship. Essa edição, a última publicada enquanto Yogananda estava vivo, acrescentou o capítulo 49 ao livro, que foi re-editado pela SRF após a morte de Yogananda. O texto original do capítulo 49 publicado em 1951 encontra-se disponível no Wikisource.

Mahasamadhi (Morte)

Conforme relado por vários de seus discípulos, em diversas ocasiões pouco antes da sua morte, Yogananda deu uma série de indicações que havia chegado o tempo de deixar o mundo, mas nenhum deles compreendeu na época. E nos dias que antecederam sua partida, realizou uma detalhada agenda de visitas, cartas, contatos e instruções pessoais, numa clara alusão de despedida como se verificou depois.[22]

Em 7 de março de 1952, Yogananda participou de um jantar homenageando a visita ao embaixador indiano os E.U.A Binay Ranjan Sen e sua esposa no Biltmore Hotel, em Los Angeles. Duzentos e quarenta convidados estavam presentes, incluindo-se 35 estudantes da SRF, vindos de Los Angeles e cidades vizinhas. Após a conclusão do banquete, Yogananda falou a respeito da Self-Realization Fellowship e sua influência sobre a paz e a boa vontade entre as nações, sobre as contribuições da Índia e da América para a solidariedade mundial e o progresso humano, expressando sua esperança de um “Mundo Unido”, “um lar espiritual de Deus”. Concluiu seu discurso com a leitura de seu poema “Minha Índia” e caiu ao chão com um sorriso no rosto.[22]

Incorruptibilidade corporal

Na revista Time Magazine, em 4 de Agosto de 1952, foi publicado o depoimento do sr. Harry T. Rewe, diretor do Cemitério de Forest Lawn de Los Angeles, que descreveu em uma carta enviada à SRF, sua experiência inusitada com a incorruptibilidade do corpo de Yogananda, conforme trecho abaixo:

“A ausência de quaisquer sinais visíveis de decomposição no cadáver de Paramahansa Yogananda constitui o mais extraordinário caso de nossa experiência … Nenhuma desintegração física era visível no corpo, mesmo vinte dias após a morte … Nenhum indício de bolor revelava-se em sua pele e nenhum dessecamento (secagem) ocorreu nos tecidos orgânicos. Tal estado de preservação perfeita de um corpo, até onde vão nossos conhecimentos dos anais mortuários, é algo sem paralelo …Nenhum odor de decomposição emanou de seu corpo em qualquer tempo … A aparência física de Yogananda em 27 de março, pouco antes de colocar-se a tampa de bronze no ataúde, era a mesma de 7 de março. Ele parecia, em 27 de março, tão cheio de frescor e intocado pela corrupção, como na noite de sua morte.”[22][23]


Ensinamentos e Kriya Yoga

Yogananda ensinou a unidade da religiões e a reverência por todos os seres elevados que estiveram na Terra para resgatar a essência da divindade no homem. Ele declarava a necessidade da experiência direta da verdade em oposição à  cega: “A verdadeira base da religião não é a fé, mas a experiência intuitiva. A intuição é a força da alma no conhecimento de Deus. Para conhecer profundamente a religião, é necessário conhecer Deus.”[24]

Em ressonância ao tradicional ensinamento hindu, argumentava que todo o universo é um filme cósmico de Deus, e que os indivíduos são meros atores do drama divino, a desempenhar papéis que mudam através da reencarnação. Que o profundo sofrimento da humanidade está enraizado na identificação estreita com a representação dos papéis, e o sofrimento cessa pela identificação com o diretor do filme, ou Deus.

Para isso, promoveu o ensino da meditação em Kriya Yoga, como um meio para auxiliar as pessoas a alcançar esse entendimento, que ele definiu como auto-realização:

  • “O mistério da vida e da morte, cuja solução é o único objetivo da passagem do homem pela Terra, está intimamente entrelaçado com a respiração. Um ser humano identifica-se falsamente com sua forma física porque as correntes vitais da alma são transportadas pela respiração para o interior da carne, com tamanha intensidde, que o homem toma o efeito pela causa, e supõe, idolatramente, que o corpo tem vida própria.”

  • “Para despertar a memória de sua própria divindade, o homem comum de nada mais precisa que a técnica de Kriya Yoga, a observância diária dos preceitos morais e a aptidão de clamar sinceramente o anseio por conhecer a Deus. Usando a chave de Kriya, as pessoas que não podem crer na divindade de homem algum, contemplarão, por fim, a plena divindade de si mesmas”.

  • Deus é Amor; logo, Seu plano para a criação só pode ter raiz no amor. Não oferece este simples pensamento mais consolo ao coração humano que todos os raciocínios dos eruditos? Todo santo que penetrou no âmago da Realidade deu testemunho de que existe um planejamento divino do universo, pleno de beleza e de alegria.”


Conversar com Leonardo Boff é como a sensação de infância de cavar um túnel na areia da praia. Mãos que cavam uma de cada lado e que experimentam a alegria do encontro no meio do caminho. Não é a experiência comum de um católico e um judeu que fazem as diplomacias do século XX. É um encontro real no meio do caminho onde a linguagem pura das tradições não é uma concessão mas o próprio instrumento de estar-se junto. Combinação boa de pensamento e vivência, de poético e teórico, de idéia e engajamento. Leonardo é um homem do século XXI. Um mestre do mundo, profundamente brasileiro. Sua humanidade inteira representa aquilo que autoridade alguma desautoriza num padre, num rabino ou num ser humano. Nossa conversa é sobre estar autorizado. É um encontro de pessoas dispostas a arcar com os custos da desobediência por profundo respeito ao passado e compromisso com o futuro.

Conta uma história que dois rabinos de escolas diferentes caminhavam juntos quando se depararam com uma porta pela qual os dois não passavam ao mesmo tempo. Ofereceram um ao outro passar a frente, mas ambos recusaram. Um disse: “vamos alargar a porta.” O outro respondeu: “não, vamos atravessar pela parede.” Leonardo é destas pessoas que está fazendo a porta mais ampla para todos nós e quando não dá, tem a grandeza e o espírito de nos convidar a atravessar a parede.

Fiquei um pouco surpreso quando folhei seus livros pela proximidade com o meu pensamento. Esse último, A águia e a galinha reflete um pouco o meu livro A alma imoral. Nele, digo que o ser humano não precisa ser mais do que ele é. Ele não precisa ser santo. Mas ele tem que ser tudo o que ele é. E fazer tudo exige, em certos momentos, ser transgressor. Na imagem que você usa no livro, a águia como a missão e a galinha como acomodação, em que medida a águia é transgressora?

A águia e a galinha são dimensões do ser humano. A galinha, dimensão de enraizamento num lugar, numa profissão, numa família. Essa dimensão é irrenunciável. Mas o ser humano tem um fogo, um desejo sem limites, que é a dimensão da águia, que rompe tabus, viola fronteiras. Portanto, o ser humano é um ser de profundo desequilíbrio. Está sempre insatisfeito, é um eterno protestante, eterno erético, no sentido de romper as convenções, e é um judeu errante, sempre buscando novas terras.

O processo de mundialização, que parece estar gerando mais relações de interesse do que de direitos, pode fazer deste um mundo melhor?

A mundialização é um processo que tem a ver com a história da Terra e da humanidade. Estamos vivendo uma idade de ferro desse processo. Porque ele está se realizando pela via econômica, carregada de interesses privados, que é a forma de organização do capitalismo. Esse mercado não é inclusivo, não é solidário. É competitivo e por isso excludente. Mas tenho esperança de que triunfe aquele processo que fará da terra o sonho bíblico: a pátria comum de todos os seres vivos.

A possibilidade desse sonho vem de uma opção pelo pobre ou virá da consciência de que temos que salvar o planeta?

O grande sujeito desse processo é a Terra. A Terra está com medo de que um filho possa cometer um matricídio. Acredito que essa grande mãe Gaia sobreviverá a essa situação, mas vai passar por uma profunda crise. A médio prazo, teremos uma grande catástrofe, que pode ser econômica ou ecológica. A mais imediata é econômica porque o capital produtivo de 1970 era de 90%. Na década de 90, 90% do capital é especulativo. São quase US$ 100 trilhões que não existem. Essa mentira terá um fim. Chegará o momento da verdade que provocará uma restruturação da economia, mas também a dizimação de milhões de pessoas, que morrerão de fome. A partir daí, haverá um gerenciamento coletivo do planeta.

Você acha então que a mãe Terra vai intervir nesse processo?

Sim. Com o risco de que ela poderá eliminar esse ser chamado homo sapiens para continuar sua trajetória. Talvez daqui a alguns bilhões de anos, de algum escorpião, de alguma barata, que são seres que resistem à irradiação nuclear, nasça um novo ensaio do ser humano. Mas tanto eu como você, que viemos de uma tradição de profunda fé, em que a última palavra de Deus não é morte, mas é vida, não podemos acreditar nessa teoria. Creio que Deus não triunfa em cima de ruínas. Ele nos leva de glória em glória até irrompemos e explodirmos para dentro de nós.

O problema da espiritualidade hoje é que temos a resposta mas esquecemos da pergunta?

Creio que esse é o grande equívoco de grandes caminhos espirituais, que têm a arrogância de ter a solução final. A nossa tradição, a dos filhos de Abraão, judeus, cristãos e muçulmanos, freqüentemente incorre nesse risco porque cada família se considera o povo escolhido. No capítulo 12 do Gênesis verificamos que não é a história de Israel, dos muçulmanos e cristãos, que está retratada, mas a história da humanidade. Abraão é escolhido para ser um sinal para toda a humanidade.

Tenho um carinho especial por você, um teólogo cristão que resgata o Velho Testamento retirando-lhe o estigma de ultrapassado. A revitalização da mensagem libertadora do Êxodo, da missão coletiva não está na contramão de um mundo que supervaloriza o indivíduo?

Sim. O dado coletivo da tradição abraãnica é isso: universalizar essa experiência. E sentir que cada povo é filho de Deus. Isso vai ao encontro da tendência atual de exacerbar o máximo possível a propriedade privada, o individualismo, a pós-modernidade do vale-tudo. Perdemos o valor maior do universo, que não é o triunfo do mais forte, mas sim a sinergia, onde um depende do outro e ninguém existe fora do outro. Fiquei contente de ver como você escreve Deus. Você guarda a tradição hebraica de não falar em Deus. De falar por signo. O pecado maior é usar o nome de Deus em vão.

Você faz uma conexão importante entre ecologia e pobreza. Como seria mais saudável compreender esta questão: os problemas ecológicos como manifestação de um problema mais amplo de pobreza que tem a ver com exploração, ou a pobreza como vertente das questões do meio ambiente?

Estamos cansados do meio ambiente. Queremos o ambiente inteiro. E nele está o ser humano. A espécie humana persegue, maltrata e crucifica o próprio semelhante. Temos que nos abrir para a ecologia social, não só a ambiental. A injustiça social se transforma numa injustiça ecológica, isto é, numa agressão ao ser mais complexo da criação, que é o ser humano. Devemos fazer uma revolução social para conservar a natureza. Isso nos leva a uma visão mais completa de ecologia, que é como organizar a casa comum de tal maneira que possamos viver em paz num pacto de solidariedade sobre um grande arco-íris da graça de Deus. Vejo você como um pensador da grande tradição hebraica. Um pensador que se confronta com o pensamento contemporâneo. Isso é inovador. Qual é a recepção que a sua comunidade de fé tem com a sua posição teológica?

Às vezes, é tensa. Como o judaísmo não tem uma hierarquia de poder, as pessoas brigam, mas não existe uma sanção, desde que uma comunidade me legitime. Outro dia ouvi a fala de um rabino que respeito muito dizendo: se o seu trabalho não gera reação a sua volta então não vale a pena fazê-lo. Quando o trabalho traz algo importante, em algum lugar ele tem reação contrária, isso é parte do trabalho. Como é isso pra você?

Atualmente, não tenho nenhuma censura. Mas os teólogos cristãos são continuadamente vigiados pela Congregação para a Doutrina da Fé que é herdeira do Santo Ofício, que, por sua vez, é herdeira da Inquisição. São instâncias jurídicas rigorosas que zelam por cada teólogo para que ele se mantenha dentro da ortodoxia pontifícia, que não é a cristã. O cristianismo permite muitas tendências. Há papas de extrema capacidade mística e teológica que se dão conta que nenhuma linguagem aprisiona Deus e deixam a teologia ser criativa. Outros são quase burocratas do sagrado como este Papa atual, que vigia os teólogos e não permite desvios. Daí, vem a repressão. Fui vítima dessa estratégia. Fui proibido de tudo. Mas não deixei a comunidade cristã. Eu me sinto livre.

As tradições bíblicas se preocupam com a ética. Isso é política, em algum lugar. Mas a atuação do religioso não é nas instituições do governo. Isso acontece em Israel e noto o quanto é prejudicial.

Devemos distinguir a política minúscula, que é partidária, da maiúscula, que é social: a busca da justiça, o combate à corrupção. A religião é política porque quer verdade, justiça, vida. Quando isso é colocado em risco, ela tem que intervir, fazendo a defesa dos sem-terra, dos meninos de rua. A religião não deve se meter em política partidária, mas cabe à ela fazer um juízo ético dos projetos políticos.

Como você vê a busca pela religiosidade no final do milênio?

Há uma crise em todas instâncias. Universidades, partidos, governos. Isso cria uma orfandade. Há uma crise de racionalidade. Essa razão se mostrou demente. Não montou sociedades igualitárias. Nos momentos de crise o ser humano volta à dimensão mais básica, que é a dimensão mística, religiosa. Por isso, hoje, há uma efervescência de tantos grupos religiosos. Porém, há um risco. Esse mercado tão vasto, às vezes, traz algumas manipulações e utilização de interesses financeiros. Por outro lado, a partir da crise, surge uma revitalização do cristianismo, do judaísmo. E também a possibilidade de emergirem novos caminhos espirituais adequados à nova consciência.

É muito bonito ouvir você falar. Principalmente quando você mergulha nessa linguagem cristã, destituída de policiamento ideológico. Como judeu é muito difícil ouvir a linguagem do cristianismo como uma linguagem que vem dessa pureza da fé, da espiritualidade.

O que une as religiões é a espiritualidade. O encontro com o absoluto, que não é um abismo aterrador, mas que é um grande útero que acolhe, um grande abraço. A religião remete a uma unidade de base onde todos bebem do mesmo poço, que é essa experiência do divino, do sagrado.

A tradição judaica tem o jeito de uma tradição sapiencial. O meu trabalho é de divulgação desse lado da tradição que muitas vezes é hermético. Escrevi meu primeiro livro há 12 anos. Já escrevi 11 livros. O livro me ajuda a saber aonde estou. Como é escrever pra você?

Tenho mais de 60 livros. Ser escritor é muito trabalhoso. Você está sempre atrasado, não tem fim de semana, não tem a hora do chope, dificilmente encontra os amigos. Mas é uma forma de falar pra mim mesmo quais são as minhas buscas. Também uma forma de entender o mundo. Os meus livros são demasiadamente teológicos, mas estou abandonando isso. Quero fazer uma literatura mais sapiencial. Que pega a sabedoria comum da humanidade e faz um discurso onde cada um possa se reencontrar e buscar o divino nele mesmo, nem tanto na Igreja.

Tem uma dimensão em escrever que é muito prazerosa. Mas o endeusamento incomoda. Sou um alfaiate. Pego um tecido de concepção sapiencial muito antiga e dou o caráter do lugar onde eu vivo. O prazeroso é essa comunhão com as pessoas. Falar uma linguagem que se aproxima delas.

Não ganhamos dinheiro com nossos livros. Mas há um divisão entre os mais conservadores, que dizem que estou fazendo do cristianismo algo mais digerido a qualquer estômago. Normalmente o clero entende meu trabalho como um momento da evangelização, mas alguns gostariam que eu fizesse algo mais oficialista, apresentando a Igreja. Mas esse é um mundo de letra morta. Como é visto seu trabalho na comunidade judaica?

Tem rabinos que criticam. Não há crítica em relação aos livros, mas à forma como vivencio o judaísmo. No Brasil, existe a palavra auto-ajuda como sendo uma coisa meio interesseira, meio marketing, meio receita. Mas as próprias tradições religiosas são um processo de auto-ajuda. E quanto mais você disseminar o conhecimento espiritual, melhor. É importante existirem as instituições, mas as pessoas saberem cuidar de sua própria realidade espiritual é importante também. O mundo de um futuro melhor é onde todas as pessoas poderão ser padres e rabinos.

Nós temos que resgatar o conceito positivo da auto-ajuda. Há uma auto-ajuda que é capítulo do marketing, que ajuda mais o auto do livro do que quem vai ler o livro, então é ganhar dinheiro. A auto-ajuda você procura ir ao encontro de uma pessoa e fazê-la descobrir o seu potencial de liberdade, de criatividade. Tem que assumir o risco da própria caminhada, caso contrário, nunca vai encontrar sua felicidade, seu perfil espiritual. Eu me dei conta disso quando uma revista fez uma reportagem dizendo que meu livro A águia e a galinha é de auto-ajuda. Fiquei assustado porque o livro tem um trabalho teórico complicado, da física quântica à mística… O me incomoda é o sucesso literário. Gostaria mais de aprender do que receber os louros. Mas me alegro porque sinto que há outros nessa busca, que há ressonância. Não estamos sós.

Você fez eu lembrar de uma frase que diz: “Nós somos todos ordinários. Quem é extraordinário é quem tem consciência disso.”

Não é por acaso que os 22 Arcanos Maiores do Tarô acham-se numerados. Suas cartas, perfiladas tal qual os capítulos de uma novela, retratam uma história verdadeira, a do ser humano em sua senda iniciática, repleta de experiências transcendentes e desafios que se nos apresentam como oportunidades para o autoconhecimento.

Desde a antigüidade, espalhados por distintas culturas, incontáveis são os mitos que abordam a imagem do homem colocado à prova, chamado a enfrentar perigos e resolver enigmas, a ultrapassar seus próprios limites e escolher o rumo certo nas encruzilhadas do caminho.

Foi o médico psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961), inicialmente seguidor de Freud, e que desenvolveu sua própria teoria para a compreensão do psiquismo, a psicologia analítica, quem cunhou o nome de “individuação” para esse processo ininterrupto de aprimoramento pessoal, destinado a orientar a personalidade para algo maior e transcendente, a cumprir psicologicamente o mesmo papel a que se destinavam os rituais de iniciação dos povos antigos.

A questão fulcral da psicologia junguiana esbarra num dos principais mistérios da existência, o da consciência em busca da fonte primordial, inconsciente em sua essência, de onde se desprendeu originalmente. Para Jung, o ego poderia ser comparado ao inconsciente na mesma proporção que uma ilha estaria para o oceano à sua volta. Outra analogia seria a do planeta Terra, pequenina morada da civilização humana (a consciência), comparado ao universo desconhecido no qual estamos inseridos (o inconsciente).

Jung chamou de ego o núcleo da consciência, sendo a individuação toda a busca empreendida por esta diminuta instância em direção ao presumido centro da totalidade psíquica, a abranger obviamente o mundo inconsciente. Ao ponto de fusão entre consciência e inconsciente, núcleo da personalidade total e ao mesmo tempo passagem para uma dimensão transcendente e coletiva, espécie de porta para o psiquismo universal, Jung denominou de Selbst, em inglês self, que em português melhor ainda se traduz por “si mesmo”.

O si mesmo seria o órgão regulador de todo o psiquismo, dotado de qualidades abissais que ultrapassam as dimensões do simples ego. Paradoxalmente, o si mesmo, ponto central da psique, preenche toda a sua circunferência, abarcando todos os fenômenos anímicos possíveis, a incluir portanto, os do próprio ego. Nicolau de Cusa, monge filósofo do século XV, já usara imagem semelhante ao referir-se à onisciência divina: “Deus é uma esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não se delimita em parte alguma”.

Como veremos, as alegorias dos 22 Arcanos Maiores, ainda que veladas por intrincado hermetismo, de caráter particularmente medieval no baralho de Marselha, representam nada mais que as situações comuns, reservadas a todos aqueles que se dediquem a explorar seu mundo psicológico mais profundo. Os que partem em busca de si mesmos em geral abrem suas vidas para o amadurecimento pessoal, e sofrem experiências consideradas arquetípicas, de cunho propriamente iniciático.

Aqui convém explicar, arquétipo é palavra de origem grega, primeiramente usada por Platão, a significar “padrões arcaicos” (arqui = antigo, arcaico + typos = padrão, matriz), e Jung se valeu do termo para denominar certos padrões registrados no comportamento da humanidade, que vêm sendo manifestos ao longo de sua história pelas mais diversas culturas. Embora semelhantes entre si, expressam-se pela variedade dos mitos, religiões, lendas ou folclore; e através de padrões também identificáveis em nosso mundo onírico, quer no cerne de nossos sonhos, quer sob a forma das fantasias.

O arquétipo serve, portanto, como matriz comportamental herdada por todo ser humano, como arcabouço capaz de selecionar nas experiências da vida os elementos significativos que estejam em sintonia com o processo inato da individuação. Os arquétipos, verdadeiras potências imateriais, surgem como entidades impalpáveis e incognoscíveis, mas se manifestam por meio de idéias e imagens, e vestem-se com as mais distintas roupagens de acordo com as culturas que os representam.

Neste sentido, o Tarô os simboliza amplamente, e um mergulho no mundo dos Arcanos permite-nos espelhar nossa alma. Por isso a “leitura” das cartas, quando contemplativa e dinâmica, bem pode transportar-nos para um mundo psicológico mais profundo. Percorramos juntos então, passo a passo, esta estrada pictográfica da individuação.

Comecemos pela especial figura do Louco que, exceção à regra, não se mostra numerada. O Louco, por não ter um número que lhe determine a posição, acha-se livre para ser notado em qualquer parte da jornada, podendo assumir diferentes valores em nossa vida; daí talvez ter sido preservado sob a efígie do curinga nos baralhos mais comuns. Preferencialmente o colocamos entre o tudo e o nada de Pascal, isto é, simultaneamente ocupando o início e o fim da jornada. Feito Jano dos romanos (a divindade de dois rostos que nunca se olham, voltados que estão para lados opostos), é O Louco quem sabe do porvir tão bem quanto do passado, já que se acha situado antes do primeiro Arcano, O Mago, ao mesmo que ocupa tempo posição após o último, O Mundo. O Louco confere assim ao conjunto um caráter rotativo e perene. Ao assumir duplo papel de fechar e (re)abrir o ciclo, promete a continuidade da individuação. Representa ainda uma força inconsciente, não personificada, por isso sem número, e a figura de bobo da corte expressa a ambivalência de sua função, já que os tais bobos medievais, antes de idiotas, eram sábios, quiçá os únicos capazes de falar verdades ao rei sem o risco de perder a cabeça.

O Louco nos prende assim em sua mágica, na paradoxal leitura de seu sentido. Se pode ser visto como um bobo que nada sabe sobre si, caminhando a esmo, por outro lado é ele o sábio que, tendo mergulhado no abismo de si mesmo, ressurge renascido, disposto a retomar sua senda. E não há monotonia nem repetição nesse processo; embora as experiências mais fortes sejam arquetípicas, elas são inusitadas no modo como acontecem e nos propiciam leituras sempre novas do livro da vida. Também os passos do Louco nunca são lineares, pois a individuação pressupõe voltas e rodeios até que nos aproximemos do si mesmo, ou até que tropecemos em algo e caiamos dentro dele.

A carta seguinte, O Mago, é a consciência personificada. Resulta da transformação do impulso inconsciente do Louco, agora direcionado conscientemente para o trabalho da individuação. Decididamente, O Mago é o grande herói desta jornada (ele é cada um de nós), pois a cada passo nos transformamos, conforme desfilamos pela “estrada real” dos Arcanos. Ele está em pé, é portanto ativo; e, feito aprendiz de feiticeiro opera na mesa à sua frente. Um de seus braços aponta para cima, o outro para baixo, como se nos lembrasse da primeira máxima de Hermes Trimegistrus, a ensinar que o nível humano da existência apenas reproduz o plano cósmico da vida; que somos sim manifestação da divindade, mas nem por isso privilégio algum da natureza. O homem precisa trabalhar com o que tem às suas mãos e intuir acerca do universo à sua volta para que venha a compreender-se.

Consoante os preceitos básicos da magia, O Mago posiciona-se como elo entre os planos humano e divino, surge como centro e medida de todas as coisas. Quatro objetos, dentre outros, despertam-nos a atenção. São eles a moeda e a baqueta que traz em suas mãos, além dos copos e da adaga postos sobre a mesa. Aludem claramente aos quatro naipes do baralho, ouros, paus, copas e espadas, que representam a inteireza do caminho ora descortinado. Isto porque o 4, assim como o 12, são números que por excelência expressam a totalidade, haja vista serem quatro as estações do ano e doze o número de seus meses, também as constelações do zodíaco por onde o sol passeia ao longo de um ciclo. Quatro e doze sempre nos dão a idéia de algo completo.

Jung escolheu as mandalas (nome sânscrito a designar “círculo mágico”) como símbolos da integridade psíquica, visto que são geralmente representadas por formas circulares (ou outras que insinuem a presença de um centro); de mesmo modo podemos perceber em cada um dos 22 Arcanos uma mandala oculta. No Mago ela se mostra tanto pelos instrumentos dos quatro naipes citados como pela mesa de três pés e quatro cantos, números estes cujo produto nos leva ao 12. É como se O Mago já tivesse diante de si o tesouro que deseja encontrar pelo caminho, o que, aliás, lhe permite seguir viagem mesmo que não saia do lugar onde se encontra, até porque a individuação é processo essencialmente espontâneo de nosso psiquismo.

Pois bem, tendo à frente uma senda que se desdobra em quatro caminhos, O Mago, resoluto, entende que precisa percorrer simultaneamente todos eles, sob pena de nunca alcançar a transcendência, razão pela qual se divide ele próprio no quatérnio que lhe sucede, formado pelos próximos quatro Arcanos, A Papisa, A Imperatriz, O Imperador e O Papa.

Estes representam uma diferenciação a mais da “ciência dos opostos”, já insinuada pelos braços do Mago que ligavam o em cima ao embaixo. Observemos que as quatro cartas se casam muito bem, são duas figuras femininas e duas masculinas; há da mesma forma uma dupla de imperadores e outra de sacerdotes; e é no equilíbrio de cores de suas vestes que o baralho de Marselha oculta outros mistérios. O detalhe mostra que as mulheres vestem mantos azuis sobre os vermelhos, ao passo que os homens trazem a composição contrária, com vestes vermelhas por cima das azuis. Aqui as cores também têm significado; o vermelho associa-se ao lado consciente, ao aspecto racional do psiquismo. O azul representa o inconsciente, a irracionalidade, os processos intuitivos de percepção.

Nas personagens femininas (A Papisa e A Imperatriz), a intuição prevalece sobre a razão; já na dupla masculina (O Imperador e O Papa), são os processos racionais que estão por cima. A psicologia analítica identifica, além disso, tanto o aspecto feminino no interior do psiquismo masculino, ao qual Jung batizou de anima (no caso, definido pela Papisa), bem como a relação contrária, a essência masculina no psiquismo feminino, denominada animus, no Tarô, melhor representado pelo Papa.

A Papisa é antes de tudo o complemento do Mago. Guarda tudo aquilo que lhe falta, sendo portanto o verdadeiro moto de sua busca. Se o mago é movimento, ela é repouso; se ele é ativo, ela é a receptividade em pessoa. Ele é ação; ela, reflexão. Em suma, todo o desenrolar do baralho a partir do Mago é a Papisa, pois tudo aquilo que estiver em seu caminho servir-lhe-á como complemento. A relação Mago-Papisa no Tarô é correlata do binômio Yang-Yin dos chineses; aliás não poderia faltar no esoterismo do Ocidente o arquétipo da “ciência dos opostos”.

Havendo o Mago experimentado das diferentes maneiras de perceber o mundo, e consciente da natureza interminável de seu caminho, pela primeira vez tem nítida noção das dificuldades que ainda enfrentará. Sua determinação estará sempre à prova.

Na situação arquetípica sucedânea, o herói depara-se com a encruzilhada do Enamorado, quando se encontra dividido entre duas mulheres que cobram dele uma escolha. A que está à sua direita, para a qual ele volta sua face, toca-lhe o ombro, e veste roupas predominantemente vermelhas. Representa a via racional. A outra moça, aparentemente mais jovem, vestindo principalmente o azul, toca-lhe o coração, como se quisesse despertar suas emoções, seu lado intuitivo. No alto, acima da cabeça do herói, em instância que transcende sua consciência, um anjo direciona sua seta para a via intuitiva, como se quisesse orientá-lo em sua escolha. Enfim, aí está representado o drama do livre arbítrio, capaz de atormentar a consciência com o conflito da eterna dúvida. O personagem acha-se cruelmente dividido entre o racional e o intuitivo, observe-se suas roupas listradas de azul e vermelho, além do amarelo, seu aspecto pessoal. Mas pouco importa por onde seguirá nosso herói, até porque razão e intuição encontram-se mescladas em todas as experiências da vida, apenas predominando ora esta, ora aquela. O principal é que o herói dê seu próximo passo, para que não reste estagnado em seu caminho. Siga por onde seguir, desembocará na tríade seguinte, O Carro, A Justiça, e O Eremita.

Decidindo prosseguir, O Mago experimenta a extroversão das conquistas rápidas, simbolizado pelo Arcano VII, O Carro. O primeiro terço das 21 cartas numeradas se completa. O Mago está emancipado. Destemido, deixa de ser mero neófito para amadurecer na senda, e mediado pelo senso da Justiça, virtude que será assimilada no Arcano subseqüente, chega à condição de maior introversão e capacidade introspectiva, quando descobre que há sabedoria em seu próprio poço, a ser buscada por um processo sereno e cuidadoso, como o faz o velho Eremita.

A carta X, A Roda da Fortuna, traz as vicissitudes da vida, com seus rodopios e reveses. O herói deve afinal saber tirar proveito do movimento do cosmos. “Há nas lides do homem uma maré que, se aproveitada enquanto cheia, o levará à fortuna”, diria Shakespeare.

No Arcano XI, A Força, alcançamos a metade do caminho, mas prosseguem as vicissitudes, até que O Mago perceba que, invariavelmente, ações sutis repercutem melhor do que as atitudes brutas, como nos mostra a figura intuitiva da vestal, que sob um manto azul, domina com suas delicadas mãos toda a brutalidade duma besta-fera, contendo-a pela mandíbula. A fera ocupa a metade inferior da carta, e não fosse sua cor distinta, estaria misturada ao hábito da personagem. Representa os processos instintivos, aspectos brutos que esperam ser dilapidados e transformados em algo mais sutil.

Os dois Arcanos seguintes nos trazem a experiência da morte. O Enforcado é ela própria, em seu sentido terminal. A lâmina mostra o herói dependurado, de cabeça para baixo, vendo a vida por seu outro ângulo, ou como se estivesse num ataúde, cercado por terra e troncos, os dois verticais com seus doze ramos podados, a representar o esgotamento da mandala, a morte aparente do dinamismo psíquico. Mas o herói, se sobrevive à força perturbadora deste arquétipo que dele exige sacrifícios, comunga pela primeira vez com o mundo transcendente, representado pelo Arcano XIII. Por ser o único sem nome, nem deveria ser chamado Morte. O esqueleto que ceifa sugere transformações substanciais, a troca do velho pelo novo. É um momento iniciático de fértil aprendizagem, representada pelos arbustos em quantidade que brotam neste novo campo da existência. Afinal, o 13 expressa o rompimento da mandala, a transposição da ordem; a soma de 1+3, entretanto, leva-nos de volta ao 4, à mandala de uma nova dimensão.

O Arcano XIV, A Temperança, é a terceira das quatro virtudes medievais a estar representada no Tarô. As outras três, já vistas, são a justiça (Arcano VIII), a prudência (Arcano IX), e a força (Arcano XI). Este tema é chave dos alquimistas, e o segundo terço se completa com o Mago promovido à esta condição. A Temperança se (re)vela no equilíbrio parcimonioso de seu movimento, e a figura feminina aqui traz azul e vermelho em iguais proporções.

Uma vez feito alquimista, pode agora nosso herói experimentar as provações mais duras, reservadas aos que penetram no Diabo, Arcano XV, ou na Casa de Deus, Arcano XVI.

Tais estações referem-se ao mundo sombrio, aos aspectos mais críticos de nossa personalidade, produtos que são de partes pouco exploradas ou desconhecidas de nós mesmos. O demônio nada mais faz do que escravizar a nossa consciência, prendendo-a em seu altar, exigindo de nós o auto sacrifício da extinção de nossas buscas. É por meio dele (o intelecto) que nos sentimos separados da fonte primordial. Por conta dessa mesma consciência é que podemos refletir acerca da única certeza que temos, a de nossa morte, de onde nasce uma natural angústia capaz de nos prender em temores pessoais. O Mago descobre que a única forma de evitar o demônio é enfrentá-lo! Se por um lado não devemos negar os méritos de nosso intelecto, por outro, de alguma forma, precisamos transcendê-lo.

A Casa de Deus é o arquétipo da destruição, das mudanças avassaladoras em nossas vidas. Por vezes, somente algo assim tem força capaz de nos arrastar para longe do Diabo que antes nos prendia. A Torre fulminada mostra o ego abalado pelo grito de um inconsciente incontido, simbolizado pela labareda de fogo que explode a cúpula da Torre, cuja forma lembra uma coroa, real adorno de uma consciência que se esquece muitas vezes de perceber a realidade por detrás da realeza.

O Arcano XVII, A Estrela, nos entrega à esperança. Revela à consciência libertada que a individuação continua a ser possível. Ao menos é o que representam as luzes que brilham no firmamento. A jovem desnuda não é outra senão o nosso herói, despido dos valores mundanos, a verter no rio do inconsciente coletivo suas próprias águas (azuis) de seu mundo intuitivo, de seu inconsciente pessoal. As estrelas no céu simbolizam as almas já individuadas. Pela primeira vez os 4 elementos se agrupam numa mesma lâmina: água, fogo, terra e ar estão aí representados, este último reafirmado pela presença do pássaro, símbolo da alma inclusive. De novo descobrimos a mandala disfarçada.

A Lua, Arcano XVIII, representa as trevas, os porões da alma; na psicologia junguiana será chamada de sombra. A sombra representa o lado oculto do psiquismo, fonte de inúmeros perigos e potenciais que jazem adormecidos. As trevas psicológicas apresentam sérios desafios à nossa frágil consciência, que precisará pedir ajuda à intuição para vencer a provação noturna. A Lua é receptiva, absorve a energia (as gotas) do sistema, e demarca a aproximação entre consciência e inconsciente, aqui representados pela duplicidade de símbolos, dois lobos a serem vencidos e dois templos a serem alcançados. Jung admitia que quando os símbolos se duplicavam em nossos sonhos, provavelmente estaria havendo a assimilação de valores inconscientes por uma consciência que se aprimora.

Vencida a noite negra, o Sol do Arcano XIX é quem traduz o momento áureo da jornada, quando a consciência comunga do si mesmo, inspirado instante em que ela se ilumina. A energia agora se espalha pelo sistema, e as duas crianças (consciência e inconsciente) que se tocam para cá do muro que antes as separava, descobrem-se idênticas, visto que nenhuma diferença deveria mesmo haver entre instâncias de um mesmo psiquismo. No contato mútuo das crianças, a ponte para o si mesmo se apresenta, e a iluminação preenche esta mandala.

Mas não por isso o caminho chega ao fim. Restam ainda a análise e a síntese alquímica do processo, previstos pelos últimos dois Arcanos, O Julgamento, XX, e O Mundo, XXI. Juntos simbolizam o ajuste da mandala pessoal, momento em que o herói procura reorganizar seu mundo psicológico, transformado que está por tudo aquilo que sofreu. No Mundo, a síntese (a mandala) se define claramente. O herói está liberto no núcleo da carta, em sintonia com o universo à sua volta. As figuras nos quatro cantos da carta são alusão aos quatro naipes em que se desdobra o baralho. Mas o Mundo é apenas o fechar de um ciclo. Serve para impulsionar o herói, nós mesmos, para frente. Afinal, somos sábios apenas em relação àquilo que vivemos, e completamente Loucos frente ao que nos é desconhecido.

Vamos dar outra volta?

“A Astrologia é o somatório de todo o conhecimento psicológico da Antigüidade e creio que deve ser aceita pela Psicologia sem maiores restrições”.

Carl Gustav JUNG, o grande psicanalista suíço, que usava mapas astrológicos no atendimento a seus clientes e que teve uma filha que se tornou a maior astróloga da Suíça em sua época.

A Astrologia é a ciência que correlaciona os ciclos cósmicos com os ciclos terrestres que interessam à vida humana. Não é uma “Arte” e há algum tempo deixou de ser uma “Ciência Oculta”, como costumava ser rotulada. Simplesmente reverteu à sua condição anterior, já multimilenar, de ser uma ciência ensinada e desenvolvida no meio acadêmico.

De fato, a Astrologia evoluiu, desde o nascedouro, como resultado das observações e cálculos matemáticos das mentes mais brilhantes e capacitadas de cada época. Cresceu tanto, que deu origem a um tipo especial de astrólogos, aqueles que passaram a se dedicar integralmente só ao trabalho de observar os céus, compilar tabelas astronômicas e desenvolver cálculos progressivamente mais complexos – e isso deu nascimento à ciência da Astronomia.

A Astrologia evoluiu sempre atrelada às maiores inteligências de sua época, posto que o astrólogo antigo tinha que ser um bom calculista (basicamente trigonometria esférica e geometria analítica, coisa que assusta muita gente até hoje) e um bom observador dos céus. Somente agora é que se pode dispor de um software para fazer instantaneamente cálculos que demandavam dias de trabalho e liberar gráficos de alta resolução, para serem impressos em segundos por poderosas impressoras a cor. Evidentemente isso provocou uma gigantesca revolução na Astrologia contemporânea.

Sempre encontramos brilhantes cientistas, conhecidos hoje como astrônomos ou físicos, ligados ao mesmo tempo à Astrologia. É o caso de Tycho Brahe, Copérnico, Kepler, Newton e Galileu. Todos eles, sem exceção, foram também astrólogos profissionais. Galileu, por exemplo, cobrava 70 liras-ouro por um mapa astrológico, como demonstra G. Favaro em seu livro “Galileu Astrólogo”, o equivalente hoje a 110 dólares! Esses homens, celebrados pela ciência atual como grandes gênios da humanidade, não podem, ao mesmo tempo, ser por ela considerados estúpidos por seu envolvimento com a Astrologia.

Sir Isaac Newton foi considerado o grande reformulador da física no seu tempo. Descobriu a Lei da Gravitação Universal e fez grandes estudos de ótica, entre outros feitos. Mas tinha uma substancial fonte de renda nos mapas astrológicos que calculava e interpretava.

Contudo, no século XVII, Colbert, ministro de Luiz XIII, por razões políticas, excluiu a Astrologia de seu ambiente mais nobre, a Universidade de Paris – Sorbonne. Progressivamente a Astrologia passou a ser desalojada das universidades, em parte por ser considerada uma ciência sem sentido, após a demonstração do triunfo da teoria heliocêntrica de Copérnico.

Kepler e Galileu, ambos astrólogos, lutaram pela triunfo dessa teoria, sem que vissem nisso qualquer problema para a Astrologia, em que pese o fato de os mapas astrológicos serem computados a partir da superfície da Terra, isto é geocentricamente, como fazemos até hoje. E isso funciona por uma simples e óbvia razão: NÃO EXISTE A “INFLUÊNCIA” DOS ASTROS.

A Astrologia sempre teve essa dignidade, em que pese a mácula que seu nome recebeu pelo acúmulo dos maus praticantes, astrólogos “soi-disant”. E agora, no início do séc. XXI, assistimos a um progressivo deslanche dos projetos de ensino superior de Astrologia, como as Faculdades de Astrologia de Londres ou de Seatlle, USA, Assim como a da Universidade Brás Cubas, de Mogi das Cruzes, SP, primeiro curso superior de Astrologia reconhecido pelo MEC no Brasil.

Esse movimento tem uma excelente perspectiva como resultado: a desmistificação da Astrologia. No amplo sentido da palavra: acabar com a mistificação. A mistificação dos “horóscopos” diários da mídia, dos pseudo-astrólogos que iludem ou se aproveitam da boa fé de seus clientes. E também, por outro lado, despir a roupagem de misticismo com que a Astrologia tem sido revestida. As pessoas podem ser místicas ou agnósticas, têm esse sagrado direito e devem ser respeitadas porque são místicas ou porque não são. O fato de as pessoas místicas gostarem mais facilmente da Astrologia é bem compreensível, pois, sem dúvida é possível associar o simbolismo da Astrologia com coisas espirituais. Tanto quanto é possível associar os mesmos símbolos da Astrologia com dados de fenômenos meteorológicos, sismológicos ou com as oscilações dos preços das ações nas bolsas e das commodities no mercado futuro.

Ou seja, a Astrologia em si não é mística ou não-mística. Na verdade, ela é uma linguagem básica, tanto quanto o é a Matemática. Um polinômio do 3º grau é impessoal. E inútil, enquanto não puder ser associado a alguma necessidade humana básica, seja na resolução de um problema técnico de engenharia, seja simplesmente para servir de tema a uma aula de Matemática de nível médio. Da mesma forma acontece com um mapa astrológico, que por si só é também impessoal; e igualmente inútil, enquanto não for associado a alguma necessidade humana básica, como descrever uma relação entre pessoas ou ajudar a antever uma situação particular em uma empresa.

Conceito Gnóstico de Karma

É preciso que as pessoas compreendam o que significa a palavra “Karma”.

A lei da balança, a lei do Karma rege toda a criação. Toda causa se transforma em efeito e todo efeito se transforma em causa novamente.

Foi nos dada liberdade e livre escolha e podemos fazer o que quisermos, porém é claro que temos que responder diante de Deus por todos nossos atos. Qualquer ato de nossa vida, bom ou mau, tem conseqüências. A lei de ação e reação governa o curso de nossas vidas, e cada nova existência é produto da vida anterior.

Compreender integramente as bases e o “Modus Operandi” da lei do Karma é indispensável para podermos conduzir o barco de nossa vida de forma positiva e digna através das diferentes escalas da vida.

O Karma é lei de compensação, não de vingança. Há quem confunda essa Lei Cósmica com “determinismo” ou com “fatalismo”, ao crer que tudo que nos acontece já está previamente determinado. É verdade que os atos humanos determinam nossa herança, a educação e o meio [em nascemos]. Mas também é verdade que o homem tem o livre arbítrio e pode modificar seus atos, educar seu caráter, formar hábitos superiores, combater debilidades e fortalecer virtudes.

O Karma é um remédio aplicado para nosso próprio bem. Infelizmente, as pessoas em vez de se inclinarem reverentemente diante do eterno Deus vivo, protestam, blasfemam, se justificam, se desculpam, lavam as mãos. Com tais protestos em nada modificam o Karma; ao contrário: torna-se ainda mais duro e severo.

Quando nascemos neste mundo trazemos nosso destino. Uns nascem em berço de ouro e outros na miséria. Se na passada existência matamos, agora nos matarão; se ferimos, agora nos ferirão; se roubamos, agora nos roubarão; e com a vara que medimos seremos medidos.

Felizmente, caros amigos, a Justiça e a Misericórdia são as duas colunas de sustentação da Grande Fraternidade Branca.

Justiça sem Misericórdia é tirania; Misericórdia sem Justiça é tolerância e complacência com o delito. O Karma é negociável. Isso pode surpreender muita gente de diversas escolas esotéricas tradicionais. Por certo alguns pseudo-esoteristas e pseudo-ocultistas tornaram-se muito pessimistas em relação à lei de causa e efeito. Supõem equivocadamente que esta se desenvolve em forma mecânica, automática e cruel. Os eruditos crêem que não é possível alterar essa lei, mas lamento sinceramente ter que discordar dessa forma de pensar.

Se a lei de ação e reação, se o Nêmesis da existência não fosse negociável, então onde ficaria a misericórdia divina? Francamente, não posso aceitar crueldade de parte da divindade. Brahman, Deus ou Deuses de forma alguma poderia ser algo sem misericórdia, algo cruel e tirânico. Por tudo isso repito em forma enfática: O Karma é negociável.

É possível modificar nosso próprio destino. Modificando-se a causa modifica-se o efeito. “O Leão da Lei se enfrenta com a Balança”. Se em um prato da Balança colocamos nossas boas obras e no outro as nossas obras negativas, ou teremos equilíbrio ou um dos pratos pesará mais que outro. Se o prato das más obras pesar mais devemos corrigir o desequilíbrio pondo mais boas obras no prato correspondente, para inclinarmos a Balança a nosso favor. Dessa forma pagamos Karma. Fazendo boas obras para pagar nossas dívidas. Lembremos que não se paga Karma somente com dor, também podemos pagar karma com boas obras.

Agora vocês podem compreender, queridos amigos, como é maravilhoso praticarmos o bem. Sem dúvida, o reto pensar, o reto sentir e o reto agir são o melhor negócio.

Nunca devemos protestar contra o Karma. O importante é saber negociar. Infelizmente, quando as pessoas se encontram em grandes amarguras o único que sabem fazer é lavar as mãos dizendo que nunca fizeram mal a ninguém, que não têm culpa de nada e que sempre foram pessoas justas e corretas.

Que me seja permitido dizer aos que estão na miséria que revisem sua conduta, que julguem a si mesmos, que se sentem no banco dos réus, mesmo que por alguns poucos momentos para fazer uma análise de si mesmos; depois, modifiquem sua conduta.

Se esses que estão sem trabalho se tornassem castos, caridosos, agradáveis, serviçais em cem por cento é claro que mudariam radicalmente a causa de sua desgraça e conseqüentemente, seus efeitos.

Não é possível modificar um efeito se antes não se modificou a causa que o gerou, porque, como dissemos: não existe efeito sem causa nem causa sem efeito.

Devemos trabalhar sempre de forma desinteressada e com infinito amor em favor da humanidade. Assim, mudaremos as causas negativas que geram os nefastos efeitos.

Sem dúvida, a miséria tem suas causas nas bebedeiras, na luxúria, na violência, no adultério, no desperdício, na avareza, etc.

Quer ser curado? Cure os outros. Tem familiares na prisão? Trabalhe pela liberação de outros. Está com fome? Divida teu [pedaço de] pão com quem está pior que você.

Muitas pessoas que sofrem só se lembram de suas amarguras, desejando remediá-las, mas não se lembram dos sofrimentos alheios, nem remotamente pensam em remediar os sofrimentos do próximo. Esse estado egoísta de sua existência não serve para nada. Assim, o único que conseguem realmente é agravar seus sofrimentos.

Se essas pessoas pensassem nos demais, em servir seus semelhantes, em dar de comer ao faminto, dar de beber ao sedento, em vestir o desnudo, em ensinar ao que não sabe, é claro que poriam boas obras no prato da balança cósmica para incliná-la a seu favor, e assim mudariam seu destino e viria a sorte a seu favor. Mas as pessoas são muito egoístas, e por isso sofrem. Ninguém se lembra de Deus nem de seus semelhantes se não quando estão em desespero, e isso é algo que todo mundo pode comprovar por si mesmo. Assim é a humanidade.

Infelizmente, esse ego que todos levamos dentro, faz tudo ao contrário do que estamos dizendo aqui. Por isso mesmo considero urgente, inadiável e irremediável reduzir o ego à poeira cósmica.

O único que é necessário fazer para ter direito à verdadeira felicidade é, antes de tudo, eliminar o ego. Certamente, quando não existirem mais egos dentro de nós, esses horríveis elementos que nos fazem tão perversos e malvados, não haveria mais Karma a ser pago e o resultado disso seria a felicidade.

A Lei do Karma, a Lei da Balança Cósmica não é uma lei cega. Também é possível pedir crédito aos Mestres do Karma, e isso é algo que muitos desconhecem. Contudo, é bom saber que todo crédito precisa ser pago com obras de caridade. Se não for pago, então a Lei cobrará com muito sofrimento.

Quem despertar a consciência poderá viajar com seu corpo astral plenamente consciente e estudar no Templo da Justiça seu próprio Livro do Destino. O Chefe dos Sacerdotes do Tribunal do Karma é o Grande Mestre Anúbis. O Templo de Anúbis, Supremo Regente do Karma, encontra-se no mundo molecular, chamado por muitos de Plano Astral.

No Tribunal da Justiça impera unicamente o amor e a justiça. Ali existe um livro com as colunas “Dever – Haver” para cada ser humano, onde diariamente se registra tudo que se faz de positivo e de negativo.

As boas ações são representadas por um tipo incomum de moeda que os Mestres acumulam em benefício daqueles que realizam boas obras. Nesse Tribunal também existem advogados defensores. Mas, paga-se por tudo. Nada nos é dado gratuitamente. Quem tem boas obras paga suas contas e se sai bem em seus negócios. Os créditos solicitados devem ser pagos com trabalhos desinteressados e inspirados no amor pelos que sofrem.

Negociar com os Senhores da Lei é possível por intermédio da Meditação: orai e meditai. Concentrai-vos em Anúbis, o Supremo Regente da Boa Lei.

Lembrem-se: Para o indigno todas as portas estão fechadas, menos uma: a do arrependimento. Pedi e vos será dado; batei e se vos abrirá.

(Por Samael Aun Weor, da obra Tarot y Kábala, capítulo 27)

É claro que temos que ir nos independizando cada vez mais da mente. A mente é um calabouço, um cárcere, onde todos nós estamos presos. Precisamos fugir desse cárcere, se é que realmente queremos saber que coisa é a liberdade; liberdade essa que não é do tempo, liberdade essa que não é da mente… Antes de tudo, devemos considerar a mente como algo que não é do Ser. Infelizmente, as pessoas identificadas com a mente dizem “estou pensando”, e se sentem como sendo a mente.

Há escolas que se dedicam a fortalecer a mente. Dão cursos por correspondência, ensinam a desenvolver a força mental, etc. Porém, tudo isso é absurdo! Fortificar os barrotes da prisão onde estamos metidos não é o indicado. O que precisamos é destruir esses barrotes para conhecer a verdadeira liberdade que, como já disse, não é do tempo. Enquanto estivermos no cárcere do intelecto, não seremos capazes de experimentar a verdadeira liberdade.

A mente em si mesma é um cárcere doloroso. Ninguém jamais foi feliz com a mente. Até hoje não se conheceu o primeiro homem que foi feliz com a mente. A mente torna todas as criaturas infelizes. Os momentos mais felizes que todos nós tivemos na vida ocorreram sempre na ausência da mente. Foi um instante, sim, mas que não o poderemos esquecer jamais na vida. Em tal segundo, soubemos o que é a felicidade, mas durou apenas um segundo. A mente não sabe que coisa é a felicidade, ela é um cárcere. Temos de aprender a dominar a mente, não a alheia, mas a nossa, se é que queremos ficar independentes dela. Faz-se indispensável aprender a olhar a mente como algo que devemos dominar, como algo que, digamos, precisamos amansar. Recordemos o divino Mestre Jesus entrando em Jerusalém no Domingo de Ramos, montado em seu burrico. Esse burrico é a mente que temos de submeter. Temos de montar no burrico e não permitir que ele monte em nós.

Infelizmente, as pessoas são vítimas da mente, posto que não sabem montar no burrico. A mente é um burrico muito estúpido, que tem de ser dominado, se é que verdadeiramente queremos montar nele. Durante a meditação, devemos dialogar com a mente. Se alguma dúvida surge, temos de fazer a dissecação dessa dúvida. Quando uma dúvida foi devidamente estudada, quando a dissecamos, não deixa em nossa memória rastro algum, desaparece. Mas quando uma dúvida persiste, quando pretendemos combatê-la incessantemente, forma-se o conflito. Toda dúvida é um obstáculo para a meditação. Mas não será rejeitando as dúvidas que iremos eliminá-las. Ao contrário, é fazendo a sua dissecação para ver o que é que escondem de real.

Qualquer dúvida que persiste na mente converte-se numa trava para a meditação. Temos que analisá-la, esquadrinhá-la, reduzi-la a pó… Não será combatendo-a, mas sim abrindo-a com o bisturi da autocrítica, fazendo uma rigorosa e implacável dissecação, que iremos descobrir o que havia nela de importante, o que havia nela de real e o que havia de irreal. Assim, as dúvidas, às vezes, servem para esclarecer conceitos. Quando alguém elimina uma dúvida mediante uma análise rigorosa, quando a disseca, descobre alguma verdade. De tal verdade vem algo mais profundo, mais sabedoria, mais experiência.

Elabora-se a sabedoria à base da experimentação direta, na própria experimentação, à base da meditação profunda. Há vezes em que precisamos, repito, dialogar com a mente, porque muitas vezes queremos que a mente fique quieta, fique em silêncio, e ela insiste em suas tolices, em seu palavrório inútil, em continuar a luta das antíteses. É quando se faz necessário interrogar a mente: Muito bem, mente, mas o que é que queres? Me responda! Se a meditação for profunda, poderá surgir em nós alguma representação. Nessa figura, nessa representação, nessa imagem, está a resposta. Temos então de dialogar com a mente e fazê-la ver a realidade das coisas, fazê-la ver que sua resposta está errada, fazê-la ver que suas preocupações são inúteis e que os motivos pelos quais se agita também são inúteis. Por fim, a mente fica quieta e em silêncio.

Mas se notamos que a iluminação ainda não surge, que ainda persiste em nós o estado caótico, a confusão incoerente do palavrório incessante com sua luta de opostos, temos que chamar de novo a atenção mente, interrogando-a: O que queres, mente? O que estás procurando? Por que não me deixas em paz? Há que falar claro e dialogar com a mente, como se ela fosse um sujeito estranho, já que ela não é o Ser. Temos de tratá-la como se fosse uma pessoa estranha. Temos de recriminá-la e de repreendê-la.

Os estudantes do zen avançado praticam o judô, mas o judô psicológico deles não foi compreendido pelos turistas que chegam ao Japão. Ver, por exemplo, os monges praticando o judô, lutando uns com os outros, pareceria um exercício meramente físico, mas não é. Quando estão praticando judô, realmente quase não estão se dando conta do corpo físico. Na realidade, sua luta tem como objetivo dominar a própria mente. No judô, o adversário que estão combatendo é a sua própria mente. De maneira que o judô psicológico tem por objetivo submeter a mente, tratá-la cientificamente, tecnicamente; o objetivo é submetê-la. Infelizmente, os ocidentais só vêem a casca do judô. Claro, como sempre, superficiais e néscios, tomaram o judô como luta de defesa pessoal e se esqueceram dos princípios do zen e do ch’an. Isso foi verdadeiramente lamentável. É algo bastante semelhante ao que aconteceu com o Tarô. Sabe-se que no Tarô está toda a sabedoria antiga e todas as leis cósmicas e da natureza.

Por exemplo, um indivíduo que fala contra a magia sexual está falando contra o Arcano IX do Tarô. Portanto, está jogando um carma horrível contra si. Um indivíduo que fale a favor do dogma da evolução, está quebrando a lei do Arcano X do Tarô, e assim sucessivamente.

O Tarô é um padrão de medidas para todos, como já disse em meu livro O Mistério do Áureo Florescer. Nele, termino dizendo que os autores são livres para escrever o que quiserem, mas que não deveriam se esquecer do padrão de medidas, que é o Tarô, o livro de ouro, a fim de não violar as leis cósmicas e cair sob a katância, que é o carma superior.

Depois desta pequena digressão, quero dizer que o Tarô, tão sagrado, tão sapiente, converteu-se em jogo de poquer e nesses outros jogos de cartas que servem para a diversão das pessoas, que se esqueceram de suas leis e de seus princípios. As piscinas sagradas dos antigos templos de Mistérios converteram-se hoje nos clubes de banhistas. A tauromaquia, a ciência profunda, a ciência taurina dos antigos mistérios de Netuno na Atlântida, perdeu seus princípios e converteu-se hoje no circo vulgar das touradas. Portanto, não é de se estranhar que o judô – zen e ch’an – que tem por objetivo precisamente submeter a própria mente através de seus movimentos e paradas, tenha degenerado, tenha perdido seus princípios, no mundo ocidental, e tenha se convertido em algo profano que só se usa hoje para a defesa pessoal.

Vejamos o aspecto psicológico do judô. No judô psicológico que a Revolução da Dialética ensina, é necessário dominar a mente, é preciso que a mente aprenda a obedecer, e exige-se uma forte recriminação para que ela obedeça. Isto, Krishnamurti não ensinou, tampouco o zen ou o ch’an. Isto que estou ensinando pertence à Segunda Jóia do Dragão Amarelo, à segunda jóia da sabedoria. Dentro da primeira jóia podemos incluir o zen, mas o zen não explica a segunda jóia, ainda que possua os prolegômenos em seu judô psicológico.

A segunda jóia implica disciplina da mente: dominando-a, açoitando-a, recriminando-a… A mente é um burrico insuportável que tem de ser amansado. Portanto, durante a meditação temos de contar com muitos fatores, se quisermos chegar à quietude e ao silêncio da mente. Precisamos estudar a desordem, porque só assim conseguiremos estabelecer a ordem. Temos de saber o que há em nós de atento e o que há em nós de desatento.

Sempre que entramos em meditação, nossa mente se divide em duas partes: a parte que atende e a parte que não atende. Não é na parte atenta que temos que por atenção, mas sim precisamente no que há de desatento em nós. Quando chegarmos a compreender profundamente o que há de desatento em nós, e soubermos como proceder para que o desatento se converta em atento, teremos conseguido a quietude e o silêncio da mente.

Porém, temos de ser judiciosos na meditação, julgando a nós mesmos e sabendo o que há de desatento em nós. Precisamos nos tornar conscientes daquilo que existe de desatento em nós.

Quando digo que devemos dominar a mente, entendam que quem deve dominá-la é a Essência, a consciência. Despertando a consciência, adquirimos mais poder sobre a mente e por fim nos tornamos conscientes do que há de inconsciente em nós. Faz-se urgente e improrrogável dominar a mente. Devemos dialogar com ela, recriminá-la, açoitá-la com o látego da vontade e fazê-la obedecer. Esta didática pertence à Segunda Jóia do Dragão Amarelo.

Meu real Ser, Samael Aun Weor, esteve reencarnado na antiga China e chamou-se Chou-Li. Fui iniciado na Ordem do Dragão Amarelo e tenho ordens de entregar as Sete Jóias do Dragão Amarelo a quem despertar a consciência, vivendo a Revolução da Dialética e conseguindo a Revolução Integral. Antes de tudo, não devemos nos identificar com a mente, se é que queremos tirar o melhor partido da segunda jóia. Se continuamos nos sentido mente, se dizemos “estou raciocinando, estou pensando”, estamos afirmando um despropósito e não estamos de acordo com a doutrina do Dragão Amarelo porque o Ser não precisa pensar e não precisa raciocinar.

Quem raciocina é a mente. O Ser é o Ser e a razão de ser do Ser é o próprio Ser. Ele é o que é, o que sempre foi e o que sempre será. O Ser é a vida que palpita em cada sol. O que pensa não é o Ser. Quem raciocina não é o Ser. Nós não temos encarnado todo o Ser, mas temos uma parte do Ser encarnada, que é a Essência, ou budhatta, isso que há de alma em nós, o anímico, o material psíquico. É necessário que esta essência vivente se imponha sobre a mente.

Aquilo que analisa em nós são os eus. Os eus nada mais são do que formas da mente, formas mentais que têm de ser desintegradas e reduzidas a poeira cósmica.

Estudemos neste momento algo muito especial. Poderia se dar o caso de que alguém dissolvesse os eus, os eliminasse. Poderia também se dar o caso de que esse alguém, além de dissolver os eus, fabricasse um corpo mental. Obviamente, teria adquirido individualidade intelectual. Mas teria que se libertar até mesmo desse corpo mental, porque por mais perfeito que ele fosse, também raciocinaria, também pensaria, e a forma mais elevada de pensar é não pensar. Quando pensamos, não estamos na forma mais elevada de pensar.

O Ser não precisa pensar. Ele é o que sempre foi e o que sempre será. Assim, em síntese, temos de submeter a mente, interrogá-la… Não precisamos submeter as mentes alheias porque isso é magia negra. Não precisamos dominar a mente de ninguém porque isso é bruxaria da pior espécie. O que precisamos é submeter a nossa própria mente, dominá-la…

Durante a meditação, repito, surgem duas partes: a que está atenta e a que está desatenta.

Precisamos nos tornar conscientes do que há de desatento em nós. Ao nos fazermos conscientes, poderemos evidenciar que o desatento tem muitos fatores. Dúvida, há muitas dúvidas. São muitas as dúvidas que existem na mente humana. De onde vêm essas dúvidas?

Vejamos, por exemplo, o ateísmo, o materialismo, o ceticismo… Se os desmembramos, vemos que existem muitas formas de ceticismo, muitas formas de ateísmo e muitas formas de materialismo. Há pessoas que se declaram materialistas e ateus e, no entanto, temem, por exemplo, as feitiçarias e as bruxarias. Respeitam a natureza, sabem ver Deus na natureza, mas a seu modo. Quando se lhes fala de assuntos espirituais ou religiosos, declaram-se ateus e materialistas. Seu ateísmo não passa de uma forma incipiente.

Há outro tipo de materialismo e ateísmo: o do sujeito marxista-leninista. Ele é incrédulo e cético. No fundo, esse ateu materialista busca algo: ele quer simplesmente desaparecer, não existir, aniquilar-se integralmente, não quer nada com a Mônada divina; a odeia. Obviamente, ao agir assim, se desintegrará como ele quer. Esta é sua vontade. Deixará de existir, descerá pelos mundos infernais até o centro de gravidade deste planeta. Esta é sua vontade, destruir a si mesmo. Perecerá, mas, no fundo, continuará. Sim, a Essência se libertará e voltará para novas evoluções. Passará por outras involuções, voltará uma e outra vez aos diferentes ciclos de manifestação, sempre caindo no mesmo ceticismo e materialismo. Ao longo do tempo virá o resultado. Qual? No dia em que todas as portas se fecham definitivamente, quando os 3.000 ciclos se esgotarem, essa Essência será absorvida pela Mônada que por sua vez entrará no seio do Espírito Universal da Vida, mas sem o mestrado.

O que é que quer realmente essa Essência? O que é que procura com seu ateísmo? Qual é seu desejo? Seu desejo é rejeitar o mestrado. No fundo, é isto que ela quer e consegue. Não se valoriza e, por fim, termina como uma chispa divina, mas sem o mestrado.

São várias as formas de ceticismo. Há gente que se diz católica apostólica romana e, no entanto, em suas exposições são cruamente materialistas e atéias. Contudo, vão à missa nos domingos, se confessam e comungam… Esta é outra forma de ceticismo!

Se analisamos todas as formas havidas e por haver de ceticismo e materialismo, descobrimos que não há só um tipo de materialismo ou de ceticismo. A realidade é que são milhares as formas de ceticismo e materialismo. Milhões, porque simplesmente são mentais, coisas da mente; isto é, o ceticismo e o materialismo são da mente e não do Ser. Quando alguém passa além da mente, torna-se consciente da verdade que não é do tempo. Obviamente, já não pode ser materialista nem ateísta. Aquele que alguma vez escutou o Verbo, está além do tempo e além da mente. O ateísmo é da mente e pertence à mente, que é como um leque. As formas de materialismo e de ateísmo são tantas que se assemelham a um grande leque. Tudo o que existe de real está além da mente. O ateu e o materialista são ignorantes. Jamais escutaram o Verbo, nunca conheceram a Palavra Divina e jamais entraram na corrente do som.

O ateísmo e o materialismo são gerados na mente. Ambos são formas da mente, formas ilusórias que não têm realidade alguma. O que verdadeiramente é real não pertence à mente. O que certamente é real está além da mente. É importante tornar-se independente da mente para conhecer o real: não para conhecê-lo intelectualmente, mas para experimentá-lo real e verdadeiramente. Ao pormos atenção no que está desatento, poderemos ver diferentes formas de ceticismo, de incredulidade, de dúvida, etc. Descobrindo qualquer dúvida, de qualquer tipo, temos de desmembrá-la, de dissecá-la, para saber o que ela quer de verdade. Uma vez que a tenhamos desmembrado totalmente, ela desaparece, não deixando na mente rastro algum, não deixando na memória nem o mais insignificante vestígio.

Quando observamos o que há de desatento em nós, vemos também a luta das antíteses na mente. Então, temos de desmembrar essas antíteses para ver o que têm de verdade. Também deverá ser feita a dissecação das recordações, desejos, emoções e preocupações que se ignoram, que não sabemos de onde vêm nem porque vêm.

Quando judiciosamente vemos que há necessidade de chamar a atenção da mente e chegamos ao ponto crítico em que já nos cansamos dela, porque não quer obedecer de forma alguma, não resta outro remédio que recriminá-la, falar duramente, enfrentá-la frente a frente, cara a cara, como a um sujeito estranho e inoportuno. Temos que açoitá-la com o látego da vontade e recriminá-la com palavras duras até que obedeça. Há que dialogar muitas vezes com a mente para que entenda. Se não entende, pois temos de chamá-la à ordem severamente.

É indispensável não se identificar com a mente. Há que açoitar a mente, subjugá-la. Se ela prossegue violenta, pois temos de voltar a açoitá-la. Assim, saímos da mente e chegamos à Verdade, Aquilo que certamente não é do tempo.

Quando conseguimos, atingimos isso que não é do tempo e experimentamos um elemento que transforma radicalmente. Existe um certo elemento transformador que não é do tempo e que somente se pode experimentar quando saímos da mente. Temos de lutar intensamente até conseguir sair da mente para conquistar a Auto-Realização Íntima do Ser.

Uma e outra vez precisamos nos tornar independentes da mente e entrar na corrente do som, o mundo da música, o mundo onde ressoa a palavra dos Elohim, onde a Verdade certamente reina. Enquanto estivermos engarrafados na mente, que poderemos saber da verdade? O que os outros dizem, mas o que sabemos nós? O importante não é o que os outros dizem e sim o que nós experimentamos por nós mesmos. Nosso problema é como sairmos da mente. Para isso, precisamos de uma ciência, de uma sabedoria que nos emancipe, e esta se acha na Gnose.

Quando julgamos que a mente está quieta, quando achamos que está em silêncio, e no entanto, não vem nenhuma experiência divina, é porque não está quieta nem em silêncio. No fundo ela continua lutando, no fundo ela está conversando… Então, através da meditação, temos de encará-la, dialogar com ela, recriminá-la e interrogá-la para saber o que quer.

Devemos dizer: Mente, porque não ficas quieta? Por que não me deixas em paz? A mente dará alguma resposta e nós responderemos com outra explicação, tratando de convencê-la.

Se não quiser se convencer, não restará outro remédio que submetê-la por meio de recriminações e usando o látego da vontade.

O domínio da mente vai além da meditação nos opostos. Assim que, por exemplo, nos assalta um pensamento de ódio, uma lembrança malvada, temos de tratar de compreendê-lo, tratar de ver sua antítese: o amor. Se há amor, para que esse ódio? Com que objetivo?

Surge, por exemplo, a lembrança de um ato luxurioso. Temos de passar pela mente o cálice sagrado e a santa lança, dizendo: “Porque hei de profanar o sagrado com meus pensamentos doentios”?

Se surgir a imagem de uma pessoa alta, devemos vê-la baixinha e isso seria correto, posto que na síntese está a chave. Saber buscar sempre a síntese é benéfico, porque da tese se passa para a antítese, porém a verdade não se encontra na tese nem na antítese. Na tese e na antítese há discussão e isso é realmente o que se quer: afirmação, negação, discussão e solução. Afirmação de um mau pensamento e negação do mesmo mediante a compreensão de seu oposto. Discussão: temos de discutir para ver o que há de real num e noutro até chegar à sabedoria e deixar a mente quieta e em silêncio. Assim é como se deve praticar.

Tudo isso faz parte das práticas conscientes da observação do que há de desatento. Se dissermos simplesmente: é a lembrança de uma pessoa alta e lhe antepormos uma pessoa baixinha e pronto, isso não estará certo. O correto seria dizer: o alto e o baixo não são senão dois aspectos de uma mesma coisa, o que importa não é o alto nem o baixo e sim o que há de verdade por trás de tudo isto. O alto e o baixo são dois fenômenos ilusórios da mente. Assim é como se chega à síntese e à solução.

O desatento em alguém é o que está formado pelo subconsciente, pelo incoerente, pela quantidade de recordações que surgem na mente, pelas memórias do passado que assaltam uma e outra vez, pelos resíduos da memória, etc. Não temos que rechaçar, nem aceitar os elementos que constituem o subconsciente. Simplesmente, temos de nos tornar conscientes do que há de desatento, ficando assim o desatento, atento. De forma espontânea e natural o desatento fica atento. Há que fazer da vida comum uma contínua meditação. Não somente é meditação aquela ação de aquietar a mente quando estamos em casa ou nos Lumisiais, mas também aquela que transcorre no viver diário. Assim, nossa vida se converte de fato numa constante meditação. Eis como nos chega realmente a verdade.

A mente em si é o Ego. É urgente a destruição do Ego para que a substância mental fique livre e com a qual se poderá fabricar o corpo mental. Porém, no final, sempre restará a mente. O importante é livrar-se da mente. Ficando livres dela, deveremos aprender a nos desenvolver no mundo do Espírito Puro sem ela. Há que saber viver nessa corrente do som que está além da mente e que não é do tempo.

Na mente, o que há é ignorância. A sabedoria real não está na mente, está além da mente. A mente é ignorante e por isso cai e cai em tantos erros graves. Quão néscios são aqueles que fazem propagandas mentalistas! Aqueles que prometem poderes mentais, que ensinam os outros a dominar a mente alheia, etc. A mente não fez feliz a ninguém. A verdadeira felicidade está muito além da mente. Ninguém pode chegar a conhecer a felicidade até que se torne independente da mente.

Os sonhos são próprios da inconsciência. Quando alguém desperta a consciência, deixa os sonhos. Os sonhos nada mais são do que projeções da mente. Lembro-me de certo caso vivido por mim nos mundos superiores. Foi somente um instante de descuido, mas vi como me saiu da mente um sonho. Já ia começar a sonhar, quando reagi dentre o sonho que me escapara por um segundo. Como me dei conta do processo, rapidamente me afastei daquela forma petrificada que escapara da minha própria mente. E se tivesse ficado adormecido? Teria ficado enredado naquela forma mental. Quando alguém está desperto, sabe naturalmente que de um momento de desatenção pode escapar um sonho e nele ficará enredado toda noite até o amanhecer.

O que importa é despertar a consciência para deixar de sonhar, para deixar de pensar. Este pensar, que é matéria cósmica, é a mente. Até o próprio astral não é mais do que cristalização da matéria mental e o nosso mundo físico também é mente condensada. Assim, pois, a mente é matéria e bem grosseira, seja no estado físico ou no estado chamado astral, manásico, como dizem os hindus. De qualquer forma, a mente é grosseira e material, tanto no astral como no físico.

A mente é matéria física ou metafísica, porém matéria. Portanto, não pode nos fazer felizes. Para conhecer a autêntica felicidade, a verdadeira sabedoria, devemos sair da mente e viver no mundo do Ser. Isto é o importante! Não negamos o poder criador da mente. Claro que tudo que existe é mente condensada. Porém, que ganhamos com isso? Por acaso a mente nos deu felicidade? Podemos fazer maravilhas com a mente, podemos criar muitas coisas na vida, os grandes inventos são mente condensada, mas esse tipo de criações não nos fez felizes.

O que precisamos é de independência, temos de sair desse calabouço de matéria, porquanto a mente é matéria. Temos de sair da matéria e viver em função do espírito como seres, como criaturas felizes, além da matéria. A matéria não fez ninguém feliz, porque a matéria é sempre grosseira, ainda que possa assumir formas bonitas.

Se estamos buscando a autêntica felicidade, não a encontraremos na matéria e sim no espírito. Precisamos nos libertar da mente. A verdadeira felicidade vem a nós quando saímos do calabouço da mente. Não negamos que a mente possa ser criadora de coisas, de inventos, de maravilhas e de prodígios, porém, por acaso, isso nos torna felizes? Quem de nós é feliz?

Se a mente não nos trouxe a felicidade, temos de sair da mente e buscá-la em outro lugar.

Obviamente, a encontraremos no mundo do espírito. Mas temos de saber como é que escaparemos da mente, como é que nos libertaremos da mente. Pois este é o objetivo de nossas práticas e estudos, que entregamos nos livros gnósticos e neste tratado da Revolução da Dialética.

Em nós há apenas uns 3% de consciência e uns 97% de subconsciência. O que temos de consciente deve dirigir-se ao que temos de inconsciente ou subconsciente a fim de recriminar a fazer ver que tem de tornar-se consciente. É necessário que a parte consciente recrimine a parte subconsciente. Isto de que a parte consciente se dirija à parte subconsciente é um exercício psicológico muito importante que se pode praticar na aurora.

Assim, as partes inconscientes vão pouco a pouco se tornando conscientes.

(Texto tirado do capítulo 16 da obra A Revolução da Dialética, de Samael Aun Weor)


Atualmente a ciência materialista considera o homem apenas em seu aspecto físico, sem levar em conta a

existência dos mundos supra-físicos. Outros crêem que somos duais, que temos corpo e alma. Há outros ainda, que admitem a existência do corpo da alma, e do espírito.

Estes corpos são invisíveis para a maioria dos homens pelo fato de estarem adormecidos os sentidos sutis e elevados que poderiam servir para demonstrar a sua realidade. Em relação aos mundos supra-físicos, a maioria dos homens se encontra em circunstâncias análogas a de um homem nascido cego neste mundo dos sentidos.

Embora esteja envolvido pela luz e pela cor, é incapaz de aperceber-se delas. Para ele, não existe e são incompreensíveis, simplesmente porque lhe falta o sentido da visão que lhe permitiria velas. Objetos ele pode sentir, parece-lhe reais, mas a luz e a cor estão fora de seu alcance.

Assim acontece com a maior parte da humanidade. Sentem e vêem objetos e ouvem sons do mundo físico, mas outros reinos e planos que o clarividente chama “mundo superior” são para a humanidade tão incompreensíveis como a luz e a cor para os cegos.

Porém, porque o homem cego não pode ver nem a luz nem a cor, isto não é argumento plausível contra a sua existência e realidade. Tão pouco teria significação o argumento de que pelo fato da maioria das pessoas não poder ver os mundos supra-físicos ninguém os possa ver. Se o cego adquirir a visão, verá a luz e a cor. Se os sentidos superiores dos que atualmente estão cegos para o mundo supra-físico forem despertados pelos meios apropriados, eles também poderão ver estes mundos que presentemente lhe são ocultos.

Um estudo de anatomia, para que seja completo, tem que abarcar em seu conjunto os sete corpos do

homem, em toda suas interrelações.

Através do segundo fator, a magia sexual, teremos que construir os corpos existências do Ser, tal como para nascer no mundo físico, para criar nosso corpo físico é necessária a união sexual, assim também, para a criação dos corpos em outras dimensões, será também necessário a energia sexual, pois tudo nasce da união dos opostos, do positivo e do negativo, isto ocorre na criação de todos os Universos, do maior (os Cosmos) até os menores (o Ser Humano é um microcosmos), na tabela abaixo observamos os corpos e percebemos que é necessário um corpo para cada dimensão, a situação é a inicial, ou seja, antes de começarmos a trabalhar com a construção dos corpos:

CORPOS DIMENSÃO SITUAÇÃO INICIAL

1º – corpo Físico mundo tridimensional, físico nós o temos, mas está

desequilibrado

2º – corpo Vital mundo vital também o temos

3º – corpo Astral mundo astral (5º dimensão) temos apenas uma forma lunar,

temos que construí-lo

4º – corpo Mental mundo mental (5º dimensão) temos apenas uma forma lunar, idem

5º – corpo Causal ou da Vontade mundo causal (6º dimensão) também não possuímos, está em

embrião

6º – corpo Búdico ou da

Consciência mundo búdico (6º dimensão) já construído, mas pertence ao

Íntimo

7º – corpo Átmico ou Íntimo 7º dimensão já construído, idem ao anterior

Salienta-se que esta divisão não é arbitrária mas necessária e isto porque a substância de cada um destes

corpos está sujeita a leis que, praticamente, não atuam nos outros. Além disso, a matéria desses corpos varia de densidade, sendo o corpo físico o mais denso de todos.

1º – O Corpo Físico

Serve para nos manifestarmos no plano tridimensional, chamado comumente plano denso, que é onde a

matéria tem sua completa manifestação. É claro que este veículo adaptado para esta zona física não serva para nos manifestarmos em outros planos onde a matéria é mais sutil. Para estas dimensões necessitamos de um veículo apropriado, com as características indispensáveis e acondicionadas às leis que regem estas dimensões.

Ele é o laboratório, através dele poderemos trabalhar e construir os demais corpos.

2º – Corpo Etérico ou Vital

No organismo humano existe um corpo bioeletromagnético. Este é o corpo vital ou assento vital, chamado também corpo etérico. É o assento da vida orgânica. Nenhum organismo poderia viver sem o corpo vital. Cada átomo do corpo vital penetra dentro de cada átomo do corpo físico para fazê-lo vibrar intensamente.

Ambos os corpos se penetram e compenetram sem, porém, confundir-se. Todos os fenômenos químico, fisiológicos e biológicos, todo fenômeno de percepção, todo processo metabólico toda ação das calorias, etc.; tem sua base no corpo vital. Este tem mais realidade que o corpo físico. Sabemos muito bem que a cada sete anos muda totalmente o físico devido a renovação constante das células.

Ao cabo deste tempo não fica um só átomo antigo em dito corpo. No entanto, o corpo vital não muda. Nele estão contidos todos os átomos da infância, adolescência juventude e ainda idade adulta e velhice. O corpo físico pertence ao mundo de três dimensões, ao passo que o vital é um corpo da quarta dimensão durante os desdobramentos astrais, o acento vital aproveita para repor ao corpo físico as energias perdidas durante o dia. Quando o paciente dorme, o médico se tranqüiliza porque sabe que despertará melhor.

Esta recuperação é devida ao assento vital que está realizando seu trabalho. Na verdade, o corpo vital jamais abandona o físico, salvo no último instante da vida.

O corpo vital está constituído por quatro éteres : a) éter químico , b) de vida , c) luminoso e d) refletor.

a ) Éter Químico:

As forças que produzem a assimilação e a excreção trabalham por meio dele. A assimilação é o processo

pela qual os diferentes elementos nutritivos do alimento se incorporam ao corpo da planta, do animal e do homem. Estas forças não atuam cega nem mecanicamente, mas de uma forma seletiva, realizando assim a sua finalidade que é o crescimento e a manutenção do corpo.

A excreção é efetuada por forças da mesma índole, por meio das quais são expulsos os materiais contidos

nos alimentos que são impróprias para o corpo, ou são expulsos os que já prestaram toda sua utilidade possível e que portanto, devem ser eliminados do sistema. Estes processos, como todos os demais que são independentes da vontade do homem, são sábios, seletivos e não puramente mecânicos em sua atuação.

b ) Éter de Vida:

Assim como o éter químico é o condutor ou meio de atuação das forças que têm como finalidade a

manutenção da forma individual, o éter de vida é o meio de operação das forças que tem como finalidade a manutenção das espécies, a força de propagação. O éter de vida tem pólos positivos e negativos. As forças que trabalham através do pólo positivo são as que atuam na fêmea durante o período de gestação tornando-a assim capaz de efetuar o trabalho ativo e positivo de formar um novo ser. Por outro lado as forças que trabalham pelo pólo negativo do éter de vida, tornam o macho capaz de produzir o sêmen.

c ) Éter luminoso:

Este éter é também positivo e negativo e as forças que atuam pelo seu pólo positivo são as que geram o

calor do sangue doas animais superiores e do homem, as que os convertem em fontes individuais de calor. As forças que atuam pelo pólo negativo do éter luminoso são as que operam através dos sentidos manifestando-se como função passiva da visão, audição, tato, olfato e paladar. São também os que constroem os olhos e os conservam.

Nas plantas, as forças que atuam pelo pólo positivo do éter luminoso produzem a circulação da seiva. No

inverno, quando o éter luminoso não está carregado de luz solar como no verão, a seiva deixa de correr até o estil. As forças que atuam pelo pólo negativo do éter luminoso depositam a clorofila – substância verde das plantas – e dão cor às flores.

d) Éter Refletor

A imagem mental de uma casa, gerada pela mente do arquiteto, pode ser recuperada, tomando-a da memória da natureza, ainda mesmo depois de falecido o arquiteto. É que todo conhecimento deixa após se uma destrutível imagem neste éter refletor. Assim como as samambaias gigantescas da infância da terra deixaram sua marca no carvão petrificado, assim como a marcha dos glaciais que podem ser observadas pelos sinais que deixa nas roxas assim os pensamentos e atos dos homens ficam gravados indelevelmente pela natureza no éter refletor no qual o clarividente treinado pode ler sua história ou uma exatidão proporcional a sua habilidade.

O éter refletor é assim denominado por mais uma razão : as recordações ou imagem que nele se encontram

são apenas reflexos da memória da natureza. A memória da natureza encontra-se em um reino muito mais elevado. Nenhum clarividente desenvolvido dá importância à leitura deste éter, porquanto as imagens que ele apresenta são obscuras e vagas comparadas com as que encontram no reino superior.

Lêem neste éter os que geralmente não podem fazer outra coisa ou que na realidade não sabem onde estão lendo.

Em geral, os psicômetras e os médiuns obtêm neste éter as suas informações. Até certo tempo, também os

estudantes das escolas ocultistas, nos primeiros passos do caminho do desenvolvimento, observa este éter refletor, mas sempre o seu instrutor o previne da influência deste éter como meio de adquirir informações exatas, evitando assim que venha atirar conclusões errôneas.

Este éter é o agente pelo qual o pensamento faz impressão sobre o cérebro humano.

Em determinado ponto do processo iniciático, o estudante aprende a liberar os éteres superiores para viajar com eles distante do corpo físico. Inquestionavelmente, as percepções claravidentes e clariaudientes se intensificam extraordinariamente quando observemos em nosso corpo os dois éteres. Tais éteres permitem ao estudante trazer a seu cérebro físico a totalidade das recordações supra-sensíveis.

3º – Corpo Astral ou Corpo de Desejos:

Este veículo é um corpo mais sutil que o etérico e nele tem sua vivenda os sentimentos e as emoções. Nas

horas de vigília, envolve completamente o corpo denso, tendo a aparência de um ovóide luminoso; quando projetado para fora do corpo físico, assume a mesma forma destes.

Durante o sono normalmente abandonamos temporariamente a parte densa do corpo físico utilizando-nos do corpo astral como veículo. Porém o homem comum e corrente não é consciente do que lhe sucede no mundo astral enquanto dorme em seu corpo físico. Muitas vezes recorda-se parcialmente e dirá que sonhou.

O Homem que deixa o corpo físico pelo exercício de sua própria vontade, o deixa com plena consciência e conhece por conseguinte tudo o que o rodeia no mundo astral. Então utiliza o corpo astral por veículo, como utiliza o corpo físico, tornando-se capaz de estudar os fenômenos do mundo astral tão claramente como quando em seu corpo de carne e osso estuda os fenômenos do mundo físico.

Diz-se que o homem está desperto no mundo astral quando é capaz de valer-se de seu corpo astral como

veículo operante de sua consciência, quando observa e discerne os fenômenos astrais como qualquer um de nós pode observar e discernir os fenômenos do mundo físico.

Neste corpo existe certo número de centros sensoriais que na maioria das pessoas se encontra em estado latente. Na grande maioria das pessoas estes chacras são simples redemoinhos e não tem qualquer atividade como meio de percepção. Todavia, é possível despertá-los em todas as pessoas mas, conforme forem os métodos utilizados, assim serão os resultados. Na clarividente involuntário, desenvolvido no sentido negativo e impróprio, estes vórtices de energia giram na direção oposta a dos ponteiros do relógio. No corpo de desejos de um clarividente voluntário, devidamente desenvolvido, giram na mesma direção dos ponteiros do relógio. Esta é uma das diferenças fundamentais entre um médium e um clarividente devidamente desenvolvidos. Diferenças que trazem implicações sérias do ponto de vista evolutivo do ser humano.

No ser humano comum e corrente, o corpo de desejos e quase que completamente desorganizado, sombrio e de natureza lunar, impossibilitando o indivíduo de usufruir de uma série de experiências conscientes. Num ser completamente desenvolvido, este corpo é de natureza solar, eletrônica, tendo sido elaborado de forma consciente, através de grandes esforços. Tal corpo lhe possibilitara experiências transcendentais como a saída consciente em corpo astral.

4º – Corpo Mental:

Aqueles que supõe que a mente é o cérebro totalmente equivocados. A mente é energética, pode independizar-se da matéria densa, pois é um corpo aparte, constituído de matéria mental. A mente elabora os pensamentos que se expressam por meio de cérebro. Pensamentos, mente e cérebro são três coisas totalmente distintas. Temos que aprender a dominar a mente, submetendo-a à vontade do ser.

A razão divide a mente entre o batalhar das antíteses; os conceitos antitéticos convertem a mente num campo de batalha. O processo de racionabilidade extremada rompe as delicadas membranas do corpo mental. O pensamento deve fluir silencioso sereno e integralmente, sem o batalhar das antíteses.

O corpo mental pode viajar através do tempo e do espaço, independentemente do cérebro físico. Neste determinado processo do estudo esotérico, o discípulo aprende a se desdobrar em corpo astral. Já em corpo astral, aprende a abandonar este corpo e a ficar no corpo mental. O corpo mental da raça humana encontra-se até agora na aurora de sua evolução, estando quase que completamente desorganizado (corpo mental lunar).

5º – Corpo Causal ou da Vontade

O corpo causal vem a ser o veículo da alma humana. No ser humano comum e corrente, este corpo ainda não está formado, tendo encarnado dentro de si mesmo apenas uma fração da alma humana. Tal fração é denominada essência e no zen budismo japonês “Budhata”.

Podemos e devemos estabelecer diferença entre o seu corpo da vontade de seres humanos comuns e correntes, do tipo lunar e o corpo da vontade consciente de um mestre. O legítimo corpo da vontade permite ao adepto realizar ações nascidas da vontade consciente e determinar circunstâncias.

Normalmente, pensamos que temos força de vontade, para realizar tal ou qual coisa ou projeto porém, na

verdade, o que temos é desejo concentrado e, de acordo com este desejo, efetuamos sacrifícios afim de lograr, triunfar.

6º – Corpo Búdico ou da Consciência:

Também chamado de ” Budhi ” ou Alma Divina. É um corpo totalmente radiante que todo ser humano

possui, porém, ao qual ainda não está intimamente ligado.

7º – Corpo Átmico ou Íntimo:

Chamado também de o Deus interno, o real ser, o íntimo de cada um.

Atman, em si mesmo é o ser inefável, o que está além do tempo e da eternidade. Não morre e nem se reencarna, é absolutamente perfeito. Atmanse desdobra na alma espiritual, esta se desdobrando na alma humana, a alma humana se desdobra na essência e essa essência se encarna em seus quatro veículos ( corpo físico, etérico, astral e mental ), se veste com eles.

Devemos trabalhar intensamente para construir ou nos ligar aos corpos existenciais do Ser, para podermos ir despertando e vivendo nestas dimensões superiores.

por Sérgio Pereira Alves

Um dos pontos centrais da teoria Junguiana é o processo de individuação, e quando é citado sempre surgem algumas questões a respeito de aspectos negativos presentes neste processo os quais eu gostaria de evidenciar no momento.

O processo de individuação ou de transformação interna nos leva sempre a um questionamento e conseqüente conscientização de determinadas partes escondidas de nossa psique assim como nos aproxima mais de nossa verdadeira essência. Isso o transforma numa grandeza imensurável cujo contato se faz difícil e na maioria das vezes muito doloroso de se enfrentar.

O auto-conhecimento que nos conduz à profundezas inesperadas e a um reconhecimento de nosso lado sombrio tem força suficiente para desencadear perturbações geradoras de problemas e conseqüente mudanças de personalidade que jamais poderíamos prever. O confronto com situações conflituosas provenientes do inconsciente requer intencionalidade e inteireza no propósito, pois simplesmente não podemos amenizar o sofrimento deste contato com desculpas ilusórias ou explicações cômodas. Desta forma só estaríamos ampliando, em muito, as possibilidades destrutivas existentes.

O inconsciente é de natureza amoral, e é dele que se apresenta o que for necessário para nos desapegarmos dos agregados ilusórios do ego, resultando em um crescimento em direção à uma consciência mais ampla. E isto não é tarefa fácil, pois dificilmente abriremos mão do que somos, de nossas identificações, para aceitarmos uma posição, uma perspectiva ou um jeito novo que em geral nos é totalmente desconhecido e oposto a nós.

Daí surge a necessidade de um trabalho psicoterapêutico onde a análise junguiana se caracteriza pelo confronto dialético entre consciência e inconsciente. E nossa individuação se faz percebida pela tomada de consciência de componentes de nossa personalidade, que originariamente apresenta sintomas negativos, aos quais Jung denominou de sombra.

Quando damos uma atenção especial às nossas questões internas, vamos de encontro a esta personalidade inferior, onde está contido tudo que não se encaixa, que não procede. Tudo que não se ajusta às leis e regras de nossa vida consciente. Na realidade, tudo que é esquecido ou rejeitado não só por motivos de ordem moral como também por conveniências inconseqüentes. Em resumo, todas aquelas pequenas e insignificantes imposições as quais somos condicionados deste pequenos, tais como: ‘mamãe não gosta’ ou ‘papai do céu acha feio’ ; e todas as demais características que somos levados a nos identificar para melhor sermos aceitos no meio onde crescemos.

Na verdade todo o nosso inconsciente é a nossa própria sombra quando o contrapomos à consciência representada pela luz, ou ainda, quando tomamos uma postura de distanciamento, rejeição ou medo, em relação aos conteúdos desse inconsciente, ou melhor dizendo, de nós mesmos.

O que caracteriza alguma coisa como pertencente à sombra é exatamente a nossa postura em relação à ela ou a forma como reagimos à estes conteúdos. As diferentes perspectivas, pelas quais vemos determinados conflitos internos, surgem a partir de influências de nossas próprias emoções que nos farão lidar com tais conflitos de maneira agradável e simples, ou desagradável e autodestrutiva.

Normalmente nos livramos dos aspectos desta metade obscura de nossa alma usando de artifícios onde atribuímos aos outros o que é feio, preconceituoso e esquisito. Ou às vezes, para nos sentirmos salvos ou isentos de pecados, os transferimos para um mediador divino através de um ato de arrependimento. Jung dizia que sem pecado não há arrependimento, e sem arrependimento não há o ato de redenção. Somente através de uma análise profunda é que podemos nos confrontar com esta metade obscura da personalidade, pois uma vez iniciado o processo, torna-se inevitável esse contato e na maioria das vezes, muito doloroso.

Este é um momento psicológico onde não há outra alternativa; somos expulsos do paraíso. Nos restando apenas suportar com paciência, coragem e confiança até que ocorra uma solução, uma mudança de paradigma, no devido momento. Nem antes e nem depois.

E quando nos aventuramos por um passeio por este inferno dantesco, i.e., quando tentamos entender o que nosso inconsciente produz, o caminho mais direto e natural seria permitir à nossa alma um curso livre, através de um recuo de nossas projeções internas, sem interferências do ego. Modelando a realidade que nos circunda com uma concepção mais realista da vida e, livre de ilusões. Agindo dentro do que é certo, em cada momento, de acordo com o que temos disponível, com o que somos, para que não se permita que forças maléficas se tornem explicitamente excessivas.

Uma vez que corrigimos estas projeções, ou seja, que separamos a realidade, das camadas de ilusão que a envolvem, nos aproximamos de limites perigosos onde ultrapassá-los significaria um empreendimento muito difícil, Pois estes limites representam verdades específicas de um momento psicológico que normalmente preferimos evitar. Se obstáculos existem, é porque eles devem ter alguma serventia, e talvez encubram algum recanto delicado com uma escuridão que às vezes é salutar. Determinados aspectos que talvez fosse muito mais tranqüilo que jamais viessem à luz.

Estas mudanças decorrentes desta experiência interna são tão profundas que possuem um caráter numinoso, i.e., somos compelidos a achar que elas representam uma vontade de Deus. Isto é devido ao caráter autônomo dos símbolos que surgem, pois o caminho ou a solução para os conflitos se apresenta com um impacto tão grande que nos fazem entender esta força resultante desta maneira.

Estes símbolos, que possuem os opostos representados em si, são manifestações de um ponto central que representa a totalidade, o Uno e acabam funcionando como um Senhor do Mundo Interior, portando em sua estrutura, luz e trevas.

Os primitivos talvez tivessem alguma percepção desta grandeza, pois em seus rituais representavam o sol como Deus-Pai. Fecundador e criador, fonte de toda energia do mundo. O sol não só é benfazejo como também destruidor com seu calor abrasador. Ele brilha igualmente para todos, bons e maus. E faz crescer tanto vidas úteis quanto nefastas. Todas estas características o tornam adequado para representar o Deus visível deste mundo, nossa força propulsora, a libido cuja essência é produzir a nossa realidade.

Em culturas diferentes, existem infinitas outras representações para simbolizar este arquétipo central da totalidade portador do bem e do mal. Na mitologia hindu encontramos Shiva que dispôs de uma metade de seu corpo para servir de morada para sua consorte, Parvati. Esta é uma magnífica representação deste mistério da união de opostos que simboliza a essência da iluminação. Neste padrão hindu de Deus-Shiva e sua Shakti se encontra o poder procriador da substância imortal, fonte de toda a vida.

Na iconografia Tibetana encontramos a mesma representação na imagem de Vajradhara e sua contraparte feminina, estreitamente abraçados numa formação conhecida como ‘yab-yum’. Aqui as duas figuras se fundem uma na outra em suprema concentração à absorção. Sentados num trono de Lotus que simboliza o Portal do Universo, em régia atitude de calma imortal. As imagens de Shiva-Shakti simbolizam a vida universal e individual como uma incessante interação de opostos cooperantes.

Uma outra representação de Shiva relativa a um outro par de opostos começou a surgir na Índia com a invasão dos povos árias do norte. Eles possuíam uma coletânea de hinos chamados RigVedas, em sanscrito primitivo, usado quando se ofereciam os sacrifícios Arianos. Ali, Shiva conhecido como Rudra, O Terrífico, era uma divindade menor a qual os devotos se dirigiam em apenas três hinos. Sob o nome de Shiva, mais tarde, esta divindade vem a se transformar em um dos três principais Deuses do panteão hindu, depois de absorver algumas características de um Deus da Fertilidade indígena. Neste momento se configurou a trindade constituída por Vishnu, significando existência, luz, concentração e preservação. Shiva como representante de aniquilamento, trevas, dispersão e destruição. E Brahma , no centro, com eixo de equilíbrio.

Shiva depois de passar, como Rudra, por características sinistras, misteriosas e associadas às funções destrutivas, se apresenta plenamente desenvolvido, combinando características contrastantes . Como Mahakala ele é o grande deus do tempo infinito, que tudo destroi. Com um aspecto oposto, ele é Pashupati, o senhor de toda a criação. Contam que a terra estava ficando desolada e foram pedir a Vishnu que despejasse sobre a terra o rio cósmico Ganga, para restaurar toda a vida do planeta. Acontece que este rio tinha uma força torrencial que se caísse sobre a terra, destruiria tudo, a faria em pedaços. Shiva, ao saber, amparou o rio em sua cabeça, e pela água que lhe escorriam pelo seus longos cabelos negros surgiram os veios que deram origem ao Rio Ganga (Ganges) que possui exatamente esta função restauradora e purificadora.

Shiva é ainda Nilakanta , O Garganta Azul. Dizem que a serpente Vasuki espalhou sobre o universo um veneno que o ameaçava de destruição. Os Devas e Asuras que não podiam lidar com tamanho problema, recorreram a Shiva que bebeu o veneno livrando todo o universo de ser destruído.

Já como Nataraja – O Senhor da Dança, Shiva possui os dois aspectos: destruidor e criador. Na reclusão de sua morada, no alto do Monte Kailasa nos Himalaias, Shiva dança. E ao executar este ritual ele revolve toda a neve sob seus pés, e à sua volta. Assim enquanto dança ele destroi o universo. Mas a neve remexida pela dança se derrete e começa a formar um pequeno filete de água que desce as montanhas formando pequenos veios que mais abaixo se transforma numa volumosa fonte de vida que é o Rio Ganga.

Shiva é ainda Ashutosha – ‘Aquele que se basta’, o Senhor do Desapego. Aceita de bom grado o que lhe é oferecido valorizando desse modo, mais a intenção do que o objeto oferecido.

Como uma lembrança do que é impermanente ou da constante mudança, Shiva é Akasha – o éter, o sem forma. Os fiéis de Shiva neste estado o veneram em ritos usando uma pedra normalmente colhida no Rio Ganga ou no Rio Gandaki no Nepal, para representar a sua imagem sem forma. E transcendendo o estado de Akasha encontramos a ‘consciência pura’.

Com todas estas manifestações através das formas e da não-forma, de sua dança através dos tempos, encontramos nos Svetasvattara Upanishads uma menção sobre “este Deus (que) é o artesão do Universo, o Ser Supremo. (Ele) mora eternamente no coração das criaturas”. E ainda é dito que “quando não há trevas, não há nem dia nem noite, nem ser nem não-ser, então (este) é Shiva , o Absoluto, é o Imperecível”.

Para que os devotos lidem com todas estas representações, é pedido a eles que adorem não os nomes e as formas, mas o dinamismo, a torrencial corrente cósmica de fugazes evoluções, que continuamente produz e aniquila as existências individuais; como gotas de uma poderosa queda d’água. O indivíduo passa a ter uma atitude, identificando sua mente com o princípio que lhe dá existência. Que o lança para dentro de um processo de crescimento, eliminando as contradições existentes em seu caminho. Assim ele se sente como parte desta força suprema. Tanto os pesares quanto as alegrias são transcendidas na entrada em um estado puro, livre de opostos.

Assim como em todo este simbolismo védico, as estruturas psicológicas contém secretamente o seu oposto, ou está de alguma forma ligado à ele. E não existe nenhum ritual, ou momento psicológico, que não se converta em seu oposto quando se toma uma posição extrema. Quanto mais tomamos uma atitude unilateral, tanto mais podemos esperar sua reversão para o seu contrário. Isto é chamado enantiodromia.

Portanto todas as nossas qualidades e características das quais mais gostamos e defendemos são as mais ameaçadas com certa perversão diabólica. Pois são exatamente elas que mais reprimem o mal.

O autoconhecimento é uma aventura que nos conduz a amplidões e profundezas inesperadas, sendo sempre muito doloroso desencadearmos perturbações difíceis de se administrar. Nossa existência individual se caracteriza por uma relação entre a alma livre, pura e perfeita, e as ilusões do mundo exterior. Mas sempre poderemos transcender à estes obstáculos temporais e a todos os nossos apegos para conseguirmos discernir a realidade aparte das camadas de ilusão que a envolvem.

Para a psicologia moderna, com este empreendimento estaremos sempre lidando com a vida e a morte da consciência comum, para dar lugar ao surgimento de uma consciência superior. Num confronto com a sombra, que apesar de sinistro e inevitável, é o que nos projeta para a individuação.

E, sempre que olho para lugares ermos do inconsciente, vejo Shiva. No topo do Monte Kailasa. Pronto para começar a sua dança.

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