Archive for março, 2010


As Várias Faces do Feminino

Fabrício Fonseca Moraes

Quando conhecemos bem uma mulher, nós percebemos que ela não é apenas uma, mas, muitas. Esse é um dos mistérios que envolvem as mulheres. Mas, como entendê-lo? Como compreender que em uma mesma mulher pode existir uma mãe dedicada, uma guerreira ou amazona implacável, uma jovem ingênua, uma amante sedutora, uma sacerdotisa sábia, uma bruxa vingativa ou uma vidente intuitiva?

A multiplicidade do feminino em todos os tempos sempre atemorizou os homens e fascinou os poetas. Uma possibilidade de compreensão dessa multiplicidade do feminino reside no fato dos seres humanos herdarem todo o potencial de nossa espécie. Assim, em nosso caso, cada mulher traz em si as possibilidades do feminino ou possibilidades de ser mulher que nossa espécie reuniu através dos tempos. Essas possibilidades de organização psíquica, C. G. Jung chamou de arquétipos.

Como possibilidades de organização, os arquétipos podem ou não se manifestar, dependendo das necessidades da vida de cada um. Alguns arquétipos que regem o feminino são mais freqüentes e por isso deixaram suas marcas também na cultura, através das narrativas míticas. Assim, na mitologia, os mitos nos revelam as características fundamentais dos arquétipos nas diferentes culturas.

Uma das faces do feminino mais conhecida é a grande mãe, que na mitologia grega podemos reconhecer na deusa Deméter, cuja vida e razão de ser era sua filha. No mito, Deméter, uma mãe super protetora, fez toda humanidade sofrer com uma grande seca quando sua filha foi seqüestrada (casou-se) com Hades. A terra só voltou a florescer quando a filha foi obrigada a passar seis meses com o marido e seis meses com mãe.  E, quantas mães não são assim, se tornam duras (às vezes, depressivas) quando os filhos saem de casa? E, quantas mães não tentam prender seus filhos, rivalizando-se com os genros e noras? Numa variação do mito de Demeter, temos que ela tenta adotar outra criança, substituindo a filha perdida. E, certamente, conhecemos muitas mulheres também que se vêem presas nessa função de mãe e logo “adotam” outros filhos, mesmo que parentes adoecidos ou animais de estimação.

Outra face do feminino que muito comum em nossos dias, é a guerreira, a mulher que pelo estudo, trabalho e competência luta por seu espaço e reconhecimento na sociedade. Na mitologia grega, Atena era deusa da guerra justa e da sabedoria. Era filha de Zeus, nasceu sem mãe, gerada da cabeça de seu pai. Atena era a deusa que ia ao campo de batalha, um local próprio dos homens, e carregava com ela Niké, a vitória. Atena foi uma deusa que não se casou, pois caso se casasse teria que deixar sua vida guerreira em prol do lar. Não seria esse também drama que inúmeras mulheres vivem? A vida profissional versus a pessoal? Algumas fazem como as amazonas, que cortavam o seio direito para melhor atirar suas flechas, e na guerra do dia a dia sacrificam o feminino em si mesmas.

Um terceiro exemplo, que podemos observar em nosso cotidiano são as mulheres sedutoras.  Na mitologia, nós temos como referencia Afrodite, que era a deusa da beleza e do amor, uma deusa com episódios de relacionamentos extra-conjugais, que se conduzia pelos desejos sexuais e inspirava de forma arrebatadora o mesmo desejo em homens e mulheres. Percebemos Afrodite de duas formas bem distintas, ou pelo uso da beleza, da sexualidade de forma explicita, gerando um culto a sua imagem – são as “mulheres fruta” – ou, por outro lado,  mulheres belas, ou não tão belas, que possuem uma sensualidade natural, um carisma que atraem os homens, criando muitas vezes situações constrangedoras. São mulheres que muitas vezes são desacreditadas em suas competências profissionais pelo seu “algo a mais”.

Esses três exemplos de faces do feminino podem ser tanto benéficos quanto maléficos as mulheres. A questão está na identificação ou em “ficar presa” a uma dessas dinâmicas. Uma mulher que é “só mãe” ou “só guerreira” ou “só sedutora” não vivenciará a riqueza desses outros aspectos. Quando uma mulher está consciente de sua feminilidade, ela pode integrar e desenvolver essas diferentes faces – de forma criativa. Ela vai perceber até onde ela deve ser mãe de seus filhos, sem esquecer o seu papel de esposa. Ela vai ter clareza em não misturar a sedutora, no ambiente de trabalho, próprio da guerreira.

A vivência saudável das várias faces do feminino consiste basicamente em consciência e flexibilidade.  Uma mulher que conhece o seu próprio feminino e consegue circular em sua varias faces, tem a chave que abre o caminho para seu desenvolvimento interior.

Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257) é Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Psicologia Clínica e da Família; Especialista em Teoria e Prática Junguiana, membro-fundador e atual vice-presidente da Associação Junguiana do Espirito Santo.



Que entre As Várias Faces do Feminino, que é o tema central desta semana, se encontra a tendência de algumas mulheres decidirem viver “só”?

Este é o resultado de um estudo, apresentado na Unicamp como tese de doutorado por Eliane Gonçalves, intitulado “Vidas no singular: noções sobre “mulheres sós” no Brasil contemporâneo”.

Foram analisadas informações da mídia impressa brasileira, além de dados da Associação Brasileira dos Estudos de População (Abep) e do instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Algumas mulheres hoje, em função de não escolherem perpetuar o papel de “cuidadoras” dentro da família, tendo um “homem como provedor”, dedicam-se mais à sua carreira, buscando maior remuneração, deixando assim de investir num casamento e, conseqüentemente, estabelecendo uma vida “só”.

A estimativa, com base nos dados do IBGE, é que o numero de domicílios brasileiros ocupados por uma única pessoa subiu de 9% para 11% desde o ano 2000.

O estudo, que também contou com a narrativa de 12 mulheres de classe média, residentes na cidade de Goiânia, com idades entre 29 e 53 anos, descreveu a importância do dinheiro, advindo do trabalho formal para as entrevistadas, nesta escolha de morar só. As mulheres entrevistadas associam a independência financeira à sensação de terem “destino em suas mãos”. Ao não colocar o casamento em primeiro plano as entrevistadas voltam-se para o enfrentamento do mundo do trabalho e para o aproveitamento de diversas experiências.

Segundo a Pesquisadora, o fato dessas mulheres morarem sozinhas não determinou um sentido negativo de solidão para as entrevistadas. Mas ao contrário, evidenciou um sinal de status proporcionando maior grau de mobilidade social. Esse estilo de vida as distingue socialmente como mulheres autônomas e senhoras de si.

Apesar de vermos, seja nas propagandas de televisão, ou revistas de celebridades, que o casamento pressupõe uma condição privilegiada de saúde e felicidade, e as mulheres solteiras são percebidas como solitárias e insatisfeitas. Essa informação não foi detectada segundo o estudo apresentado.


A pintora surrealista Remedios Varo nasceu em 1908, na Espanha. Sua obra – que pode ser vista no vídeo acima – é marcada por uma atmosfera de sonho e fantasia, e promove um curioso encontro de imagens inspiradas em conceitos científicos, psicológicos, místicos e artísticos.

Remedios Varo recebeu forte influência de seu pai, que era engenheiro e a iniciou no mundo das idéias científicas. O encantamento pela ciência aparece em suas pinturas por meio de referências à física e à matemática. A vida de Remédios Varo foi também marcada por muitos momentos difíceis, sendo o exílio um destes. As várias mudanças que a pintora teve de fazer, em decorrência da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Civil Espanhola, levaram-na, por fim, a fixar residência no México onde viveu até a morte precoce, aos 55 anos de idade.

As inúmeras perdas pelas quais Remédios Varo passou, porém, foram a semente da face mística e psicológica da sua pintura. O exílio levou a pintora a mergulhar no seu mundo interior, iniciando uma jornada psíquica que culminaria com a criação de uma arte única. A arte inconfundível de Varo emerge em pinturas que combinam elementos da própria história da pintora, imagens de natureza, alquimia, arquitetura e artefatos mecânicos. Tudo isso resume a sua crença de que o equilíbrio entre o mundo material e espiritual, entre ciência e natureza, poderia conduzir à iluminação e à transformação da consciência.

Remedios Varo foi uma mulher única! Numa época em que os homens dominavam a cena artística e intelectual, ela não apenas se sobressaiu como uma pintora extremamente talentosa e de estilo único mas também como uma pensadora singular da condição humana.



Será que… toda loira é realmente burra?

Obviamente que não! Mas dados interessantes de uma pesquisa conduzida pelo psicólogo social Thierry Meyer, da universidade de Paris – X Naterre, mostrou que homens quando expostos à fotografias de mulheres loiras apresentam uma baixa no desempenho intelectual.

A pesquisa aconteceu da seguinte maneira: foram realizados testes de conhecimento geral com alguns homens em duas ocasiões. A primeira foi realizada apenas com a aplicação dos testes de maneira formal, onde os participantes preencheram alguns questionários, na segunda etapa todos os homens observaram fotos de diferentes tipos de mulher, o que causou estranhamento foram os resultados dos homens que observaram fotos de mulheres loiras.

Acredita-se que os resultados não se devem apenas a desatenção, mas sim a um componente muito disseminando que é o estereótipo da “loira burra”. Segundo Meyer, isso provaria que os estereótipos influenciam o comportamento humano, e neste caso a imagem preconceituosa de que as loiras são mais desfavorecidas intelectualmente faria com que os homens diminuíssem seu nível intelectual afim de se aproximar desse tipo de mulher. São preconceitos como esse que atrapalham a vida de muitas mulheres, que sempre são vistas através de imagens preconceituosas e disfuncionais.



Porque as mulheres preferem a cor rosa?

Segundo um estudo realizado pela pesquisadora Yazhu-Ling e pela psicóloga Anya Hurlbert, ambas da Newcastle University, Inglaterra, as mulheres preferem mesmo a cor rosa e a violeta. Já o azul agrada aos dois sexos, homens e mulheres.

As pesquisadoras contaram com 208 voluntários, sendo 98 homens e 110 mulheres. Os participantes foram submetidos a testes de computador onde deveriam escolher entre dois retângulos de cores diferentes.

Segundo a explicação das responsáveis existe uma relação entre as preferências das cores e nossa história biológica. A cor do céu, azul, representa o tempo bom, além de o azul claro significar água limpa, sinais muito importantes numa época em que os homens viviam da caça.

No caso da cor rosa e violeta, escolhida pelas mulheres, a preferência remete a mesma época, quando as mulheres eram coletoras e tinham a incumbência de colher frutos. A opção pelo vermelho pode ter beneficiado a coleta de alimento e dado as fêmeas uma vantagem evolucionária. De alguma forma isso ficou registrado na  memória biológica feminina e continua até hoje influenciando a preferência pelas cores.



A vida como mulher, mãe, esposa e profissionais nos dias atuais requer esforço para que se possa dar conta de todas essas tarefas que elas precisam desempenhar no dia-a-dia.

É complicado tentar vivenciar todas essas coisas sem de vez em quando não parar e pensar: não vou conseguir!

A questão é que diariamente se vai, como que correndo atrás do tempo para desempenhar todos esses papéis. Com isso, muitas vezes é esquecido o cuidar de si, no sentido da alimentação, da prática de um exercício físico, de parar e ouvir uma musica, de ler um livro, ou de fazer algo que se queira fazer. Essas atitudes certamente dariam uma condição física/mental melhor para viver os dias.

Quando não se dedica tempo a estes cuidados diários, o stress e desânimo começam a fazer parte da vida. É importante partir da necessidade de se organizar, buscando identificar quais são as atividades realizadas rotineiramente, as esporádicas, e também deixar um espaço para os imprevistos. Alem de começar a eleger prioridades.

Quando se coloca no papel e visualiza-se como tem sido gasto seu tempo, você começa a perceber onde está sendo desperdiçada a atenção, energia e saúde.

Essa atitude inicial de reorganizar-se pode vir a ser a chave para que, diante de tantos papéis a desempenhar, não seja um simples acordar, correr de um lado ao outro e chegar ao final de um dia sem ânimo sequer tomar um bom banho relaxante.

NOTA:

O Papeando Com a Psicologia é um grupo de divulgação do conhecimento psicológico, sediado em Vitoria/ES. o Grupo Papeando é formado pelos acadêmicos de Psicologia Marcela Pimenta, Lenita Noé e Felipe Salles, sendo coordenado pela Psicóloga e Professora MSc. Angelita Scardua .

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Há pessoas que dizem sim à pergunta acima, e há outras que dizem não; seja como for, a beleza parece trazer vantagens à vida social para quem a tem. Um estudo da Universidade americana de Yale, por exemplo, apontou que as pessoas consideradas belas ganham em média 10% a mais do que as consideradas menos atraentes. Como pode-se ver, a beleza tem seu mérito e, ao que tudo indica, a humanidade sempre soube disso, em especial as mulheres. A aquisição e/ou manutenção da beleza, contudo, pode cobrar um preço alto e é o sexo feminino, também, que tem pagado a parcela mais cara desse investimento.

Ao longo da história humana, as mulheres buscaram a beleza com afinco. Essa busca representou, em muitos momentos, sacrifícios de todo tipo que quase sempre incluiu algum tipo de modificação corporal extrema. As chinesas por mais de 10 séculos tiveram seus pés deformados por ataduras a partir dos 3 anos de idade! O pé das meninas era mantido dobrado, imitando uma flor de lótus, fazendo com que esse membro tivesse no máximo 10 cm quando ela chegasse à puberdade. O propósito desse processo torturante? Pés bonitos, pois os chineses achavam feio uma mulher com um pé normal! Processo de modificação corporal extrema encontra-se também nos dias atuais entre as “mulheres-girafa”, que integram tribos da África e da Ásia. Essas mulheres usam argolas de metal no pescoço desde os cinco anos de idade para alongá-lo, até que ele atinja o tamanho de 30 a 40cm. Tal tradição, que é passada de mãe para filha, e cujo objetivo original é desconhecido, tem atualmente como único fim deixar a mulher mais bonita!

Os exemplos das “mulheres-girafa” e dos “pés de lótus” das antigas chinesas podem parecer estranhos para os nossos ouvidos; mas o que diriam essas mulheres sobre as nossas: as que pagam para que suguem a gordura de seus abdômens a fim de diminuí-los; ou que colocam “bolsas” cheias de um líquido viscoso sob os seios para aumentá-los; ou que deixam que lhes quebrem os ossos do nariz para refazê-lo menor e mais fino? Muito provavelmente, as mulheres desses outros povos achariam essas práticas, que são comuns para nós, sacrifícios absurdos em nome da beleza. Pensando dessa forma, parece, então, que o que é sacrifício para uma pessoa pode não ser para outra. Além disso, o que esses exemplos nos mostram é que aquilo que se considera belo não é igual para todos os povos nem em todas as épocas. Eles igualmente nos mostram que a beleza é importante para os seres humanos e que, de forma geral, as pessoas se dispõem a se sacrificar por ela. Mais ainda, esses exemplos nos fazem ver que as mulheres são a parte da humanidade mais disposta a se sacrificar pela beleza.

O que será que as mulheres acreditam que conquistarão se forem belas? Um salário maior, como indica o estudo da Universidade de Yale? Talvez…mas é pouco provável que uma mulher pense em ganhar mais quando fica horas sob o cheiro do formol e do calor escaldante da chapinha para obter cabelos lisos. O que soa mais convincente é que para muitas mulheres o investimento de dinheiro, tempo e energia para tornarem-se mais belas implica a crença de que a beleza fará com que sejam mais amadas. Tanto na cultura das antigas chinesas quanto na das “mulheres-girafa”, os atributos conquistados nos processos de modificação corporal eram tidos como garantia de casamento. Não seria muito estranho pensar que uma mulher na nossa sociedade realmente acredite que sua sorte no amor depende de ela ter os cabelos, os seios, o nariz e tudo o mais de uma determinada forma. Se os sacrifícios para tornar-se bela tem por objetivo fazer a mulher ser mais atraente, essa condição de “atrair mais” deve dirigir-se a algum alvo específico, que ao longo da história parece ter sido os homens.

Os homens hoje, na nossa sociedade, estão tão apegados a um único tipo de corpo como os que cultuam os longilíneos pescoços das “mulheres-girafa” ou os que cultuavam os pequeninos pés deformados na antiga China? Difícil imaginar que sim. É só observamos que mulheres de todo tipo têm vida amorosa: altas, baixas, magras, gordas, loiras, morenas, mulatas, negras. Talvez nem todos os tipos de mulheres atraíam os olhares masculinos quando adentram um recinto ou passam pela rua, é verdade! Mas, das que atraem, quantas poderiam dizer que são verdadeiramente amadas por chamarem mais atenção? A idéia de que o fato de possuirmos uma qualidade qualquer nos garantirá uma vida satisfatória tende a ser ilusória. A vida é feita de muitas partes, nela cabe a beleza tanto quanto cabe o talento, a inteligência, a competência, a simpatia, a bondade e todas as outras qualidades humanas. Quando uma mulher se sacrifica pela beleza, acreditando que isso preencherá todas as necessidades dela, é possível que ela perca boas partes da vida que poderia viver.

A vantagem advinda da beleza não garante o melhor dos mundos para a pessoa bela. Há inúmeras histórias de mulheres lindíssimas que viveram mergulhadas na solidão e na amargura. O talento e a capacidade da pessoa em usufruir das vantagens obtidas com suas qualidades, incluindo a beleza, e de aproveitá-las para tornar-se um ser humano melhor é o que aparentemente leva a uma vida satisfatória. Numa época em que para as mulheres só restaria o casamento como oportunidade para ocuparem um lugar na sociedade e serem reconhecidas – como ocorria na antiga China – talvez o sacrifício pela beleza seja o único caminho possível para uma mulher tornar-se visível. Mas quando as mulheres podem exibir ao mundo tantos talentos e qualidades, como é possível em nossa sociedade, a beleza pode vir a ser apenas um aspecto da feminilidade e não seu único atributo. Nesse mundo, de feminino plural e mutlifacetado, tanto os homens quanto as mulheres podem aprender a amar todas as qualidades que uma mulher pode ter. Nesse mundo, quem sabe, o valor da beleza possa não ser o sacrifício de adequar-se a um único modelo estético mas o prazer de cuidar do que se é e do que se pode ser!



Que os ideais de beleza pelo mundo variam tanto que talvez pensemos que nascemos num pais errado…rs?

Na Mauritânia, localizada na África Ocidental, que é uma ex-colônia francesa, o ideal de beleza e status feminino está ligado a ser obesa! Lá existe o processo de engorda desde a infância para as meninas que muitas vezes são alimentadas á força com leite de camelo, rico em calorias.

A obesidade alem de beleza, confere a essas mulheres também status, demonstrando o dinheiro que a família tem para alimentá-la.

No Irã o ideal de beleza está ligado à obsessão por plásticas para redução do nariz, uma vez que esta é a única parte aparente do corpo feminino.

Na França a mulher mais madura é aceita como padrão de beleza, e alem disso, há no país uma valorização da magreza também.

Na índia, a preocupação feminina, é ligada aos cabelos serem brilhantes e sedosos.



À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Poema de Miguel Torga (1907-1955)



Muitas pessoas acreditam que mulheres sexualmente ativas tendem a ser magras, e que por outro lado, mulheres acima do peso tentem a ser infelizes ou solitárias e com uma vida sexual pouco ativa… Mas, isso é realmente verdade? O excesso de peso atrapalharia a vida sexual dessas mulheres?

Um estudo realizando em 2002 pela Universidade do Havaí, em conjunto com a Universidade do Oregon (EUA), investigou mais de 7 mil mulheres e mostrou que o peso não afeta o comportamento sexual destas.

A pesquisa visava investigar se o Índice de Massa Corporal (IMC) causaria alguma modificação no comportamento sexual das mulheres, e, ao que tudo indica, não existiriam muitas diferenças entre mulheres acima do peso e as de peso normal.

Esse trabalho ainda revelou que a maioria das mulheres acima do peso teria mais relações sexuais do que as magras.

Ou seja, as mulheres acima do peso tenderiam a ter uma vida sexual muito próxima ou até mesmo mais ativa do que as mulheres magras. Esse estudo também desconstruiu alguns estereótipos médicos, mostrando que 92% das mulheres acima do peso afirmariam ter um histórico de relações sexuais com parceiro fixo, contra 87% das mulheres magras.

Dessa maneira, o estudo sugere que os julgamentos feitos pela estética devem ser ao máximo evitados.



Insatisfação Corporal

Quantas pessoas hoje se olham no espelho e estão satisfeitas com o que vêm? Muitos gostariam de mudar algo em seu corpo, diminuir o nariz, aumentar os seios, rejuvenescer a pele. A constante insatisfação com a própria imagem cada vez mais se torna habitual no dia a dia. Afinal, como isso se constrói?

Pesquisas, como a realizada pela pediatra Ana Elisa Ribeiro Fernandes, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), indicam que a insatisfação com o próprio corpo começa desde cedo.

O estudo analisou 1.183 alunos de 6 a 18 anos, matriculados no ensino fundamental e médio de 20 escolas de Belo Horizonte. O resultado mostrou que 62,6% dos entrevistados não estavam felizes com o próprio corpo apesar de mais de 80% do total estarem dentro do peso normal.

Uma das principais causas dessa insatisfação precoce está na família. Os pais têm um papel fundamental na relação que a criança estabelece com o seu corpo, pois ate o inicio da adolescência a criança é bastante influenciada pelas opiniões e valores dos pais.

Quando os cuidadores desvalorizam a criança por conta do peso ou a comparam com outros amiguinhos mais magros, ela pode internalizar esses julgamentos e relacionar sua imagem a um sentimento de inadequação. Esse processo prejudica a auto estima do sujeito e pode levar a inúmeros prejuízos futuros como distúrbios alimentares (anorexia, bulimia e outros), consumo de tabaco, álcool e drogas.

A questão do peso deve ser abordada pela família no âmbito da saúde. Comportamentos saudáveis são bons para o bem estar físico e emocional, não para um resultado meramente vinculado ao corpo e estética.

A infância é marcada por um período de situações novas e descobertas, o individuo também está exposto a cobranças externas do meio, da escola, dos colegas, tendo que se adequar às circunstâncias diferentes, tudo isso gera ansiedade. Nesse contexto é importante que a criança se sinta protegida, apoiada e orientada dentro de casa. Quando a família cumpre este papel mostra para o pequeno que o valor dele esta muito além da imagem corporal, e as chances dele desenvolver uma relação saudável com seu corpo e imagem aumentam bastante.



Sabe aqueles dias em que você acorda e lamenta não ter esse ou aquele tipo de beleza que diariamente é retratado nas peças publicitárias, na TV e em outros meios de comunicação, e por conta disso se sente inferiorizada e não adequada a um padrão de beleza acreditando perder oportunidades seja no trabalho, amor ou amizades? Pois bem, estes dias podem estar contados. Vamos falar em estratégias e atitudes que cooperem para você não se perceber somente por padrões pré-estabelecidos.

1- No trabalho use sua simpatia, naturalidade e, sobretudo, competência. À primeira vista, a aparência pode ser o cartão de entrada, mas o que fica realmente em longo prazo é a conduta no dia a dia, que demonstrará quem é você no seu modo de lidar com questões diárias e em como você as soluciona. Porque para se fazer isso é preciso mais do que um rosto bonito.

2- No amor, a beleza como fator principal para começar um relacionamento pode ter importância se para você isso for algo do qual não se deve abrir mão. Se você não pensa assim, então, reflita que todos nós, de uma forma ou de outra, temos defeitos e pontos fraco. É preciso reconhecer também os seus limites e pontos fortes, considerar o que tem em você que te faz especial e aceitar-se. Essa atitude refletirá no seu cotidiano e a deixará mais livre para começar e vivenciar um relacionamento a dois de um modo especial.

3- Agora se na busca da beleza você concluir que vale a pena tentar se aproximar do padrão estético dominante; pense isso de fato a tornará mais feliz? Se sim, então mãos a obra! Não se limite, planeje-se, organize-se e vá atrás do seu sonho, apenas observe-se para que esse movimento feito em prol do seu objetivo não se torne algo obsessivo ou doentio, mas apenas uma preocupação com a aparência física de forma saudável.

Alguns evolucionistas propagam a idéia de que a busca pelo maior número de parceiras sexuais seria inerente à biologia masculina; afinal quanto mais parceiras maiores as chances de transmitir os próprios genes. Isso parece aceitável quando pensamos num homem dominado pelos instintos básicos de sobrevivência, um homem atrelado aos impulsos biológicos cujo único propósito é perpetuar a própria carga genética. Em especial, essa idéia parece fazer todo sentido quando pensamos num mundo onde a luta contra a fragilidade da nossa espécie frente ao risco, ao adoecimento e à morte dependia essencialmente da capacidade de gerar o maior número de dependentes saudáveis no menor espaço de tempo possível. Nesse mundo, o homem com mais mulheres poderia ser um trunfo para a perpetuação da espécie, será?

Pode ser que sim, mas não necessariamente! Acontece que ao contrário do que se costuma pensar em relação ao papel da promiscuidade masculina na evolução humana, se ela teve sua importância, esta não estaria necessariamente associada à ausência de vínculos estáveis entre um homem e suas parceiras. O biólogo holandês Frans de Waal oferece uma perspectiva interessante sobre qual seria o comportamento sexual masculino que teria contribuido efetivamente para a perpetuação da espécie. Waal defende a idéia de que a família nuclear foi parte essencial na diferenciação entre os humanos e os outros primatas. Tal idéia encontra sustentação na forma como o nosso ciclo reprodutivo evoluiu.

Ao contrário de outras fêmeas primatas, as mulheres não possuem cio ou período fértil visível, estando sempre prontas para o contato sexual, inclusive no período de gravidez. Os machos da nossa espécie, então, precisariam passar o maior tempo possível ao lado de uma fêmea para garantir que a fertilizariam, uma vez que não havia nenhum sinal externo que garantisse a fertilidade da parceira. Logo, os homens mais companheiros e presentes tinham mais chances de gerar descendentes do que os aventureiros sexuais, que davam as caras vez ou outra. Podemos pensar, portanto, que se a promiscuidade masculina ofereceu alguma vantagem evolutiva, ela teria de vir acompanhada de uma certa disponibilidade do homem para se dedicar às suas parceiras. Assim, talvez, um homem promíscuo dedicado teria mais chances de manter vínculos estáveis com mais mulheres, e a incidência de registros de comportamentos poligâmicos – um homem vivendo maritalmente com várias mulheres – nos grupos humanos parece indicar isso.

A mulher promíscua, ao contrário, poderia colocar em risco as chances de perpetuação da espécie, pois, ao se acasalar com muitos homens tornaria mais improvável a possibilidade de que um macho assumisse com ela os cuidados da prole. Isso não porque o homem primitivo exigisse exclusividade sexual de sua parceira mas porque a mulher promíscua, à semelhança do homem, tenderia a não se ligar a um único parceiro. Num mundo inóspito com desafios físicos constantes, onde a obtenção de alimento, água, abrigo e proteção demandavam deslocamentos incessantes, um mulher sozinha, grávida ou amamentando, teria poucas chances de cuidar de si mesma e da sua cria. O bebê humano é muito mais frágil do que o de outros primatas, necessitando de cuidados contínuos e intensivos por vários anos até que tenha condições mínimas de “se virar” sozinho. A capacidade de um homem garantir a sobrevivência da cria, e de sua mãe, seria em tempos primitivos uma demonstração de superioridade adaptativa.

A formação de grupos humanos formados por homens e mulheres dispostos a se ajudarem para cuidar dos filhotes, portanto, parece ser um arranjo para garantir a sobrevivência da espécie. Ah! Sim, alguns alegarão que isso poderia ser feito por grupos humanos formados apenas por mulheres. Há, inclusive, quem advogue a hipótese da existência de sociedades exclusivamente femininas, como seria o caso das tribos de Amazonas; mas como ainda não existem evidências arqueológicas e históricas consistentes sobre isso, tudo não passa de fantasia, boa, por sinal, para argumento de estórias de “Conan, o Bárbaro”. Há, também, quem defenda que os filhotes poderiam ser cuidados por adultos que não fossem seus pais biológicos, em arranjos coletivos. Esse argumento parece razoável. Achados arqueológicos muito antigos, contudo, apontam para o fato de quê a consaguinidade sempre foi importante na formação de vínculos, mesmo em grupos humanos muito antiguos.

Em 2008, um grupo de arqueólogos alemães, ligados à Universidade de Mainz, publicou os resultados de um estudo no qual confirmou-se a antiguidade da família nuclear entre humanos. O estudo foi feito com base num conjunto de quatro túmulos coletivos que datam de 4.600 anos atrás, encontrados próximo ao Rio Saale, no interior da Alemanha. Os túmulos abrigavam treze ossadas, cujas fraturas sugeriam que os indivíduos haviam sido vítimas de um massacre. Através de análises de DNA, provou-se que, num dos túmulos, pai, mãe e filhos – dois meninos com cerca de 5 e 9 anos – haviam sido enterrados juntos. O achado constitui a mais antiga evidência arqueológica de família nuclear já encontrada e identificada por meio da genética.

As evidências que comprovam a antiguidade da família nuclear são fundamentais para entendermos o processo de desenvolvimento das relações afetivas humanas, da nossa sexualidade e do nosso cérebro!…Aparentemente, a emergência da família nuclear representa a viabilização do que entendemos por sociedade. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, por exemplo, defende a idéia de que a família é necessária para a reprodução social de um grupo humano, pois garante a sobrevivência e a continuidade biológica e cultural do próprio grupo. Nesse sentido, podemos pensar que o surgimento da familia nuclear, da organização erótico-afetiva centrada num casal comprometido física e emocionalmente, estaria diretamente associada ao desenvolvimento das camadas mais recentes do nosso cérebro. A aquisição de habilidades cognitivas mais sofisticadas como a linguagem é parte fundamental do processo de expansão do córtex cerebral, também o é a capacidade de simbolização, de imaginação, de planejamento e de julgamento.

É difícil pensar na formação daquilo que entendemos por humanidade sem levar em consideração o aumento de volume do nosso córtex. Muito provavelmente, na medida em que o humano em nós se diferenciava dos outros animais por meio da formulação de símbolos, imagens mentais, conceitos abstratos, etc., buscávamos uma maneira de preservar o inestimável patrimônio subjetivo que criávamos, assim como tentávamos perenizar nossa passagem pela terra por meio dos artefatos que inventávamos incenssados pelo advento da inteligência racional. Quanto mais pensávamos mais criávamos, quanto mais criávamos mais pensávamos! Este é o ciclo nutritivo que gerou, ao mesmo tempo, o cérebro e a cultura que caracteriza os seres humanos. Nesse contexto, a família nuclear parece ter se desenvolvido como o espaço no qual o anseio humano por eternizar-se encontraria resguardo. Fosse pela transmissão segura dos genes ou da bagagem cultural, na família nuclear a humanidade fomentou a vida social e tudo o mais que dela iria advir.

Até meados do século XX, prevalecia entre os antropólogos a idéia de que a família nuclear era uma instituição apenas cultural. Evidências históricas e arqueológicas, porém, têm fornecido um visão muito mais ampla da família nuclear, colocando-a como parcela indissociável da experiência humana primordial. O mais interessante dessa nova perspectiva científica da família nuclear é que ela coloca em cheque a premissa de uma vantagem evolutiva para os homens promíscuos. Afinal, se a organização erótico-afetiva baseada num casal estável está tão associada à sustentação do desenvolvimento da humanidade como grupo simbólico, racional e inventivo, a inteligência residiria na busca da exclusividade sexual, certo?

Sim, é provável! Ou seja, a evolução ótima da espécie tenderia a nos levar a escolha de condições que garantissem a formação de vinculos mais profundos e estáveis, de forma que pudéssemos gerenciar de perto a forma como o nosso legado individual e coletivo seria transmitido. Assim, podemos especular que quanto mais sofisticada se torna a experiência humana – com maior volume de informações, eventos, abstrações, etc. – mais os homens inteligentes voltariam-se na direção oposta à aventura sexual recorrente, tendendo a serem mais seletivos sexualmente e mais dedicados a uma única parceira. O foco seria, então, não apenas a transmissão do legado mas a qualidade do que seria transmitido.

Angelita scarduo

Um estudo publicado na revista “Social Psychology Quarterly” indica que os homens que traem tendem a ter um quociente de inteligência (QI) mais baixo do que aqueles que são fiéis.

Satoshi Kanazawa, autor do estudo e especialista em psicologia evolutiva da London School of Economics and Political Science explica que os “homens mais inteligentes estão mais propensos a valorizar a exclusividade sexual do que homens menos inteligentes”.

Kanazawa cruzou os dados de duas investigações realizadas nos EUA, que analisavam atitudes sociais e o QI de milhares de adolescentes e adultos, e chegou à conclusão de que as pessoas que acreditam na fidelidade numa relação tinham um QI mais elevado. Além disso, verificou que o ateísmo e o liberalismo político também são características de homens mais inteligentes.

O especialista em psicologia evolutiva considera ainda que a fidelidade dos homens é um sinal da evolução da espécie na medida em que, ao longo da história da evolução, os homens sempre foram “relativamente polígamos”, algo que está a mudar.

@@Neste sentido, assumir uma relação de exclusividade sexual poderá ser uma “novidade evolucionária” e, na medida em que as pessoas mais inteligentes estão mais aptas para adoptar novas práticas, são abertas a novas ideias e questionam mais os dogmas, em termos evolucionários Kanazawa afirma também que os homens fiéis são “mais evoluídos”.

Porém, o autor do estudo sublinha que o mesmo não se verifica nas mulheres. Uma vez que, na sua maioria, sempre foram monogâmicas, a exclusividade sexual não significa maior QI entre o sexo feminino nem representa uma evolução.

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No vídeo acima você pode ver o trailer do filme Vision: Aus dem Leben der Hildegard von BingenVisão: Sobre a vida de Hildegard von Bingen – lançado na Alemanha em setembro de 2009. Margarethe von Trotta é a diretora dessa cinebiografia que conta a história de uma freira germânica, que viveu no século XII, conhecida por destacar-se em áreas tão distintas quanto a música, a filosofia e a medicina. O trailer está em alemão mas dá para entendê-lo…essa é a magia da imagem. Lendo o texto abaixo você entenderá o trailer melhor ainda, essa, a magia da palavra!

É comum pensarmos na vida monástica medieval como um lugar de penitências, ascetismo e, conseqüentemente, busca de isolamento do mundo. Em muitos casos era isso mesmo! Com isso, tendemos a esquecer que também era nos mosteiros da Idade Média que uma parcela significativa da herança cultural da humanidade estava abrigada. Não é surpresa nenhuma, portanto, que entre os muros dos monastérios dessa época tenha florescido algumas das mentes mais intrigantes da história da civilização ocidental. A freira alemã Hildegard von Bingen foi uma dessas mentes privilegiadas.

Hildegard nasceu em 1098, em Bermersheim, numa família de nobres germânicos. Sendo a décima descendente dos seus pais, aos oito anos ela foi oferecida a Deus como dízimo, em acordo com o costume da época. Hildegard foi entregue à Jutta de Spanheim, sua tutora que vivia reclusa no mosteiro de São Disibodenberg. É fato que naqueles tempos o envio de uma filha para uma instituição religiosa poderia ser, essencialmente, o cumprimento de uma promessa religiosa. Na prática, porém, ingressar num convento poderia ser uma oportunidade rara para uma menina de receber uma educação de qualidade. Além disso, a vida no claustro, a despeito de sua considerável rigidez normativa, libertava a mulher das obrigações associadas aos papéis tradicionais de mãe e esposa. Esta condição poderia representar uma chance única para uma mulher naquele contexto social desenvolver suas potencialidades intelectuais e criativas.

Foi assim, no confinamento do convento, que Hildegard aprendeu os rudimentos do latim, leitura e escrita; recurso que a permitiu iniciar sua brilhante jornada como filósofa e mística. No latim Hildegard escreveu o Scivias, abreviatura de Scito vias Domini, entre 1141 e 1151, com o auxílio do monge Vollmar, que sendo mais fluente nessa antiga língua a ajudou a colocar as idéias no papel. Nessa primeira obra de três volumes Hildegard narrava vinte e seis visões com riqueza de detalhes. Além da descrição das visões, o Scivias contém também a interpretação do significado das imagens que representam o que foi vislumbrado. A riqueza de sua narrativa mítica revelou um aspecto identitário fundamental de toda a produção intelectual de Hildegard, a relação Cosmos-Humanidade-Natureza como tema central. O caráter visionário do pensamento de Hildegard aparece não só no Scivias mas, igualmente, em outras obras como o Liber Vitae Meritorum, escrito entre 1158 e 1163, e o Liber Divinorum Operum Simplicis Hominis, escrito entre 1163 e 1173.

Os livros escritos por Hildegard deram-lhe o reconhecimento como autoridade em assuntos tanto religiosos quanto relativos ao comportamento humano e à natureza. Parte do entusiasmo das autoridades eclesiásticas com a obra de Hildegard vinha da necessidade de se combater o crescente interesse pela busca de explicações racionais para a experiência humana. A complexidade das descrições visionárias da obra de Hildegard possibilitaria leituras de toda ordem, inclusive não religiosas; mas a polarização entre os defensores do entendimento da fé à luz da razão e os da fé guiada pela verdade revelada acabou por colocar as visões de Hildegard no centro do debate, conferindo-lhe espaço privilegiado entre os últimos. Talvez por fé genuína, talvez por pragmatismo, Hildegard corroborou a idéia de que suas visões emanavam da vontade divina, o que favoreceu sua ascenção como pensadora e a distanciou de possíveis insinuações de heresia.

O ganho de importância obtido por Hildegard permitiu-lhe ocupar um espaço inédito para uma mulher na história da religião. Conhecida como a “Sibila do Reno”, ela atuou como conselheira, compositora e terapeuta; aparentemente, na sua visão, tais papéis eram incompatíveis com a subordinação ao mosteiro principal comandado por homens. Enfrentando uma série de conflitos com os monges, Hildegard funda dois mosteiros femininos: o primeiro foi o convento de São Rupert, próximo a Bingen, em 1152; o segundo ficava em Eibingen, já então ela era conhecida como Hildegard von(de) Bingen. Muito da ascensão social e intelectual de Hildegard foi propiciada pelo seu humilde discurso, alicerçado na idéia de que ela era apenas um instrumento da vontade divina. Esse discurso, entretanto, contrastava com a forma independente e assertiva com que ela liderava os mosteiros que dirigia e a sua própria atuação religiosa.

Hildegard von Bingen conseguiu algo espantosos para uma religiosa medieval: autorização para divulgar toda a sua obra visionária e para pregar em público. O prestígio que Hildegard alcançou estabeleceu a sua imagem de profetisa, e chegou ao ponto de levá-la oficialmente a dar conselhos tanto em questões do espírito quanto de política. Tamanho sucesso e independência, obviamente, gerou inveja e críticas não só de homens como de mulheres. Dentre as críticas feitas à Hildegard uma é bastante curiosa, trata-se do incômodo suscitado em outras freiras pela vaidade das monjas sob sua liderança, o que era perceptível na forma como elas se vestiam para as cerimônias religiosas: com os cabelos soltos, cobertos por longos véus de seda até o chão e adornadas com jóias de ouro.

Na opinião de Hildegard, para espanto das outras religiosas, a exigência de modéstia com a aparência deveria aplicar-se apenas às mulheres casadas para não desencadear o interesse de outros homens que não fossem seus próprios maridos. Em contraste, e em defesa da autonomia dos rituais realizados em seu mosteiro, Hildegard advogava que as monjas poderiam expressar livremente sua beleza e vaidade, pois não se encontravam comprometidas com nenhum homem mortal. A propósito, nos relatos da época Hildegard é descrita como sendo uma mulher de rara beleza!

Além do apuro estético associado à imagem das monjas, um outro aspecto dos ofícios nos conventos de Hildegard pareceu ao Imaginário medieval igualmente deslumbrante: a preocupação com a música. Hildegard foi uma compositora incansável e, segundo alguns estudiosos, em todo o século XII não há um autor sequer que tenha realizado um conjunto de composições tão diversificado quanto o da Abadessa de Bingen. A emotividade e intensidade de suas composições oferecem um contraponto à sobriedade da música sacra da época. As vozes femininas, especialmente complexas vocalizações de soprano, são as protagonistas de cantos caracterizados por amplas e inesperadas variações de tom; e o texto das músicas celebra o misticismo imaginal das visões de Hildegard. A narrativa mítica, a música e a poesia são os meios de expresão artística de Hildegard, mas não se encerram aí os talentos dessa mulher admirável. É nos compêndios de medicina que Hildegard revela seu lado afeito à natureza e ao pensamento científico.

Nos livros Physica e Causae et Curae, Hildegard revela o resultado de suas pesquisas sobre o uso terapêutico de plantas. A Abadessa de Bingen acreditava que humanos e natureza estão integrados, daí o seu interesse pela cura de enfermidades por meio dos recursos disponíveis no mundo natural, fossem estes vegetais ou minerais. O lado investigativo dessa grande freira germânica nos mostra mais uma das facetas de uma personalidade extremamente hábil, que com inteligência e perspicácia soube usar os recursos que dispunha para ocupar espaços inacessíveis para a maioria das pessoas e, até então, especialmente para mulheres. Como ninguém, Hildegard soube utilizar esses espaços mantendo-se ativa até a morte, aos oitenta e um anos de vida.

Nos relatos que fez de sua longa e fértil existência, a “Sibila do Reno” descreve a si mesma como alguém que desde a infância era capaz de ver o que ninguém mais via. Pesquisas recentes explicam essas visões como fruto de uma patologia, a enxaqueca! Cujas crises podem apresentar sintomas como a visão de raios de luz de diversas cores. Seja como for, talvez tão relevante quanto conhecer a origem das visões de Hildegard seja analisar a forma como ela conduziu o fato de ter as visões. Relevante destacar como a sua aparente acomodação aos preceitos dogmáticos – na função de profetisa visionária, cuja mente e corpo eram instrumentos da vontade divina revelada – não a impediu de estabelecer os próprios parâmetros de comportamento, fosse intelectual ou religioso, para si e para suas lideradas.

A visão de Hildegard, portanto, parece ir muito além da fonte de saber que emana dos céus. À sua maneira, de entender humanos e natureza como estando integrados, sua visão parecia enxergar o manancial de possibilidades que se abriga nas almas que se corporificam na terra. A visão de Hildegard, me parece, via sim o que a maioria de nós não vê: o quão divino podemos ser!

Angelita scardua

ouça a música de Hildegard von Bingen


Atingindo o vazio extremo

Atingindo o vazio extremo
conservar−se firme no repouso
as dez mil coisas confluindo
eu assim as contemplo no refluxo:
eis que as coisas no florescimento
retornam uma a uma à raiz
o retorno à raiz soa:

repouso
isto se diz:

retornar ao destino
o retorno ao destino soa:
eternidade
conhecer a eternidade soa:
alumbramento
não conhecer a eternidade é tresloucar no azar
quem conhece a eternidade
torna-se tolerante
então justiça
justiça
então mediação
mediação
então céu
céu
então Tao
Tao
então duração
dissolvendo−se o corpo
não se corre mais perigo.

[Tao Te King, Lao−Tsé – cap. XVI]

Paulo José · Alto Paraíso de Goiás, GO

A maioria das pessoas que ouvem falar da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, a relacionam automaticamente com o misticismo. Elas estão certas, mas a realidade é relativa. O que temos são misticismos. Eles são muitos, plurais e algumas das experiências aparecem e desaparecem em passe de mágica. O ponto de partida é que tudo pode ser místico, esotérico e holístico – expressões amadas nesta região – desde que se abandone o “sistema cartesiano-ocidental” ou se alinhe com aqueles que o criticam.

A fuga do Ocidente é uma necessidade, porque ele esgotou-se, é um mundo egoísta, destruidor, consumista e cada vez mais longe de Deus. A proposta é transformá-lo em uma sociedade igualitária e diversificada e o perfil médio do cidadão que deve habitá-la começa com a exigência mínima de saber o signo zodiacal, seguida por respeitar e se relacionar com a natureza, acreditar na teoria de Gaia e em coisas sobrenaturais, sentir a energia vibrando, comer de preferência vegetais, ouvir música new age, participar de fogueiras, fazer ioga, meditar, dispensar o relógio, usar de medicina alternativa, fazer um mapa astral e ser bonzinho.

É assim que orientais, ameríndios, celtas, cristãos místicos e alternativos passam a ser vistos como modelos a serem seguidos. Quando tudo isso pode ser praticado em lugar especial, está criado um movimento – é o que acontece aqui.

Buda e William Brake, Lao Tsé e John Lennon, Allan Kardec e Carlos Castañeda, Chico Xavier e Jack Kerouac, Helena Bravatsky e Bob Marley, Khalil Gibran e Leonardo da Vinci, Krishna e Raul Seixas são alguns dos famosos que tem acolhida, fãs e adoradores nestas paragens. A lista é imensa e mostra que o misticismo é feito de mundos paralelos, convivências antagônicas e uma ordem-desordem quântica.

De um primeiro ponto de vista, as explicações mais utilizadas indicam que a aura mística da Chapada é enquadrada por uma natureza exuberante e montanhosa, cortada pelo paralelo 14 (o mesmo de Machu Picchu, a cidade sagrada dos Incas, no Peru), assentada em cristal de rocha (o que a tornaria brilhante quando vista do espaço), antenada para energia cósmica e ligada em discos voadores (existam ou não); por isso, estaria destinada a receber os seres artífices da Era de Aquário (seja lá quem forem).

Com tais características não é difícil entender por que místicos, seitas e religiões foram desembarcar aqui às dezenas, nas últimas décadas, e tornar a cidade de Alto Paraíso “a capital do misticismo no Brasil” – ainda que outros locais, como São Tomé das Letras (MG), também reivindiquem o título.

Esse desembarque ocorre de duas formas. Em uma, grupos com raízes internacionais, como os seguidores de Osho, e confrarias de amigos e famílias tendem a permanecer, pois têm dinheiro, adquirem terras e terras e consolidam-se. Em outra, entidades, grupos e seitas pequenos acabam funcionando como microempresa e podem ou não dar certo. E na mesma velocidade que abrem, podem fechar.

Desavenças internas, competição predatória e desilusões pessoais explicam os porquês. A Cavaleiros de Maitreya, por exemplo, de seguidores do Conde de Saint-Germain (o Cristo deste milênio), foi uma das mais renomadas e influentes da Chapada dos Veadeiros, mas só deixou lembranças, como as casas em forma de gota. A concorrência é grande e uma iniciativa que não conquiste a clientela que precisa acaba indo à falência.

Falidos, o mestre, a wicca e o neo-religioso vão criar uma nova empresa ou retirar-se para fundar a mesma em outro local. É assim porque o misticismo, como as grandes religiões, não sobrevive só de boa vontade, rituais e energia espiritual, mas principalmente de dinheiro – o que, neste caso, traz muita felicidade.

Há ainda a tendência de que nenhum místico reconheça o outro como místico, bem ao estilo “eu sou o verdadeiro, o outro é o farsante, charlatão”. E assim, numa terra que deveria ser de paz, as pendegas acontecem justamente com aqueles que dizem defender a espiritualidade e a plenitude como meios de ascese.

E que diabos é esse tal de misticismo, que a todos atendem? Essencialmente, é qualquer prática espiritual de oração, ritual ou meditação que dispense intermediários e ligue o praticante (ou místico) diretamente a Deus ou o Absoluto, formando a Grande Unidade. Na Chapada dos Veadeiros, este conceito genérico é ainda mais amplo.

Sob seu guarda-chuva democrático cabem gurus, adivinhos, mestres, bruxas, vegetarianos, macrobióticos, astrólogos, ufologistas, mães de santo, xamanistas, religiosos seculares e até artesãos-hippies. Hippie é místico? Vegetariano é místico? Aqui acaba sendo. Até mesmo o empresário que batizar sua pousada com um nome a caráter vai ficar próximo do místico.

Esses nomes ajudam a criar o clima: Renascer da Luz, Alfa e Ômega, Anos Luz, Aquarius, Recanto da Grande Paz, Jardim do Éden, Camelot. Essa última, um hotel que imita um castelo medieval, afirma, em seu site, que, há alguns séculos, “os Templários estiveram na região da Chapada em busca de uma gruta perto do paralelo 14, ligada aos mundos subterrâneos, e o Santo Graal, na esperança de uma nova visão de humanidade para os anos vindouros” e o dono do hotel e alguns conhecidos, garante o texto, têm guardado o desdobramento desse segredo.

Fantasioso ou não, este é o lado “real”, dos que acreditam no que fazem. Mas chegar aqui e procurar seitas místicas não é tão simples. Como seitas, para serem seitas, precisam ser fechadas e secretas, aparece, então, uma grande contradição, porque elas não podem fazer parte de propostas abertas e acessíveis. Em geral, é preciso ganhar confiança ou ser apresentado por alguém que já integra o grupo.

No caso do turismo, a solução não inclui rituais, mas visitas aos templos e inúmeros serviços prestados na área holística, esotérica e de medicina alternativa. Eis o cardápio: horóscopo maia, mapa astral, feng shui, radiestesia, reiki, terapia de vidas passadas, acupuntura auricular, terapia abissal, cristalterapia, cromoterapia, florais, massagem ayurvédica e uma infinidade de opções batizadas com verdadeiros trava-línguas, sempre trazendo expressões indianas e chinesas. As seitas e organizações acompanham o clima: Osho Lua, Centro de Terapia Holística, Fraternidade Branca, Ordem Mística Iniciática Bramânica, Sociedade Maria-Rosa Mística e assim vai.

Mas quando começa toda essa história? Por incrível que pareça, vai ser a dois mil quilômetros daqui, no Recife. Era 1957, quando um grupo de pernambucanos, em uma “missão espiritual”, se dirige ao centro do País, em busca de um lugar especial para criar uma escola filantrópica. O local eleito fica sendo a Chapada dos Veadeiros, onde fundam a Fazenda Bona Espero, uma escola inovadora que vai ensinar, entre outras coisas, esperanto aos jovens sertanejos. À primeira vista, esperanto nada tem de místico, mas sua proposta universal o consolida assim com o tempo.

Em 1963, acontece o segundo passo, também vindo de fora. Agora, são os mineiros da Oscal, uma entidade kardecista de Belo Horizonte, que vai fundar aqui a Cidade da Fraternidade, prevista para abrigar 30 mil pessoas. A experiência trouxe gente de vários locais do Brasil, mas não somou mais que 400 idealistas. Estes e as sementes da vida comunitária e alternativa, contudo, permaneceram.

Em 1980, é dado o terceiro passo, também vindo de fora. Em Mauá, no Rio de Janeiro, acontece o Encontro Nacional de Comunidades Rurais e, nele, Alto Paraíso é eleita uma espécie de sede permanente dessas organizações. Ao mesmo tempo, é lançado o Projeto Rumo ao Sol, uma proposta holística para expandir a Nova Consciência. E mais gente – desta vez, uma mistura de intelectuais, discípulos de Khalil Gibran e bichos-grilos – vai chegar à Chapada.

A partir daí, a consolidação da “aura mística” está feita. E como uma respiração, muitos vão e muitos vêm. No início dos anos 1990, grupos autoproclamados “místicos” e “esotéricos” começam a chegar, adquirir grandes propriedades, mas longe de propostas comunitárias, a prática é essencialmente sectária. No mesmo ritmo, inúmeras organizações não-governamentais vão se instalar aqui, em nome da defesa da natureza e do Cerrado. E muitas delas, como tudo aqui, vão ser enquadradas como “místicas”.

Bem, chegamos ao Terceiro Milênio, estamos na Era de Aquário e, agora, na Chapada dos Veadeiros temos uma certeza: misticismo pouco é bobagem. Por sinal, você já beijou seu gnomo hoje? Dá tchau pro ET, dá!

Daniel Cariello · Brasília, DF
Com milhares de médiuns espalhados pelo Brasil e exterior, o templo principal do Vale do Amanhecer, em Planaltina (DF), procura manter-se fiel às suas origens e à sua missão de libertar a humanidade.

O Vale do Amanhecer é a maior comunidade esotérica do Distrito Federal. Talvez a maior do país, já que conta com quase 600 templos espalhados pelo Brasil. Além de mais de uma dezena em outros países, como Japão, Alemanha e Trindad & Tobago.

A doutrina surgiu quando a caminhoneira Neiva Chaves Zelaya, ou apenas Tia Neiva, começou a ter visões e contatos com entidades espirituais. Desses contatos, recebeu uma missão: trazer libertação para a humanidade.

E o que significa essa libertação? Antes de responder, vamos dar uma pausa e explicar algumas coisas.

O Dia do Doutrinador

O templo principal fica em Planaltina, uma das cidades-satélites de Brasília. Está ali desde os anos 60, quando Tia Neiva e mais alguns aventureiros mudaram-se para um descampado, à beira de um morro (coisa rara no Distrito Federal, diga-se). Fundaram a Doutrina do Amanhecer, um misto de kardecismo, umbanda e catolicismo.

Eu já havia ido diversas vezes ao local, mas para escrever essa matéria fui de novo, em duas ocasiões. A primeira foi no dia 1º de maio. Para muitos, é apenas o Dia do Trabalhador. Mas para quem é da doutrina é também a data mais importante do ano: o Dia do Doutrinador.

Todo o trabalho lá está baseado na existência de dois tipos de médium: o apará, que é quem incorpora entidades como caboclos e pretos velhos; e o doutrinador, que serve de canal energético entre os dois mundos, o nosso e o espiritual, e é o grande pilar da doutrina.

Nesse dia, centenas de médiuns viajam de todo o país para Planaltina, para participar das festividades e dos trabalhos. Aproveitei para conversar com Jurandir, um doutrinador que enfrentou uma longa viagem de ônibus partindo de Almas, em Tocantins, onde freqüenta o templo local. Queria saber o que o motivou a sair de casa para estar ali.

“Tem que trocar energia com os outros templos. Tem que visitar o pai.”. O pai a que ele se refere é conhecido na doutrina como Pai Seta Branca, o mentor espiritual, retratado na roupagem de um índio. Para eles, Seta Branca é uma outra encarnação do espírito de São Francisco de Assis.

“Não estava preparado”

Darlan, 20 anos, não freqüenta mais o templo, mas tem profundo respeito por tudo o que se passa lá. “Minha mãe mora aqui no Vale. Eu fiz parte da doutrina por dez anos, mas agora saí. Não estava preparado.”.

“E o que é estar preparado?”, pergunto.

“É ter responsabilidade. Aceitar as regras, que incluem não beber nada alcoólico. Um médium tem que estar em equilíbrio energético, e a bebida atrapalha isso. Como ele pode ajudar alguém se não está bem?”, responde ele, que não deixou a fé de lado, e agora faz parte da igreja católica, além de ser DJ quando tem tempo.

Aí a conversa começa a ir por outros lados. Quero saber dele o que acha da expansão do Vale do Amanhecer, que da pequena vila com 500 habitantes nos anos 70 agora virou uma cidade com 35 mil moradores, com escolas, creche, comércio desenvolvido e posto policial. E descubro que muita coisa ali mudou depois da morte de Tia Neiva, em 1985.

Ele é enfático. “A expansão não foi boa para a doutrina. Agora tem violência e assalto. Ficou perigoso. Tem uma área na cidade que não tem compromisso com fé e religião.”

“Então vamos lá”.

“Vamos”.

A outra parte do Vale do Amanhecer é mais pobre. Existe um trecho com ruas sem asfalto e barracos de madeira. E, pelo caminho, muitas igrejas, de todos os tipos: católicas, batistas, evangélicas e até terreiros de umbanda e candomblé. A fé e a religião estão ali, portanto, mesmo que em outras variações de crença.

Paramos para conversar com Messias e Peterson, rappers que moram nessa parte nova da cidade e não participam dos trabalhos do templo. E mesmo assim têm suas vidas ligadas à doutrina, de alguma maneira.

“Vim pra cá porque minha mãe estava doente e procurava uma cura”, conta Messias, que respeita e acredita no que se passa ali do lado. Mas, assim como Peterson, prefere outros caminhos. “A gente sabe tudo de umbanda”.

“E a violência aqui?”, pergunto. “A violência faz parte da nossa racionalidade”, afirma Messias. “É o preço que se paga pelo crescimento.”. Antes de ir embora, peço para eles fazerem um rap sobre o Vale. E lamento ter levado apenas papel e caneta para anotar, pois não pude registrar a criação instantânea da dupla.

Visita encerrada, volto ao lugar meses depois, para colher mais depoimentos. Em comparação com o Dia do Doutrinador, considero que está vazio, apesar de haver trabalhos acontecendo.

Atendimento 24 horas

“Aqui não tem distinção. Todos são recebidos, a qualquer hora. Se chega alguém no meio da madrugada, a sirene é tocada e logo aparecem médiuns para atender”, afirma Solon Pinheiro, um doutrinador que orientava o trânsito de pessoas dentro do templo principal.

Aí eu aproveito e pergunto uma questão que deixei aberta ali no terceiro parágrafo: o que significa esse trabalho de libertação da humanidade?

“Significa manipular energia e libertar vítimas do passado transcendental, espíritos que estão em volta da gente, nos cobrando pelos nossos erros em vidas passadas”, responde, para depois completar, dizendo que ali são atendidas, em média, 5 mil pessoas por mês. Quase 200 por dia. E todas gratuitamente.

No Vale, as doações financeiras são proibidas, e são os próprios participantes da doutrina que mantêm os diversos templos que existem. Em épocas em que fé e comércio se confundem, quero saber o que os move a estar ali. “É um trabalho pelo qual não recebemos nenhum dinheiro. Fazemos apenas pelo amor.”

Outra curiosidade também são as roupas que os médiuns de lá utilizam. Normalmente quem vai visitar não entende nada daquilo. “É simples”, diz Solon. “As calças marrons simbolizam São Francisco. As camisas pretas, o ocultismo. As fitas laranjas e roxas, luz e cura. E a cruz, que aparece sempre vazia, o Cristo liberto.”. Se é sincretismo religioso o que você procura, sincretismo é o que vai encontrar lá.

E agora, para os freqüentadores, qual o papel do Vale do Amanhecer no 3º milênio? “Nosso papel aqui continua sendo de importância esplêndida. Viemos trazer a cura das pessoas. Nosso trabalho abrange o mundo inteiro”.

Para saber mais:

1. www.valedoamanhecer.com.br
2. www.valedoamanhecer.com
3. www.valedoamanhecer.cjb.net

Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ

Saravá! Há mais de 100 anos, no dia 15 de novembro de 1908, nascia a Umbanda, religião brasileira, com certeza. O fato histórico aconteceu em um centro espírita kardecista, na cidade de Niterói, então capital do antigo Estado do Rio de Janeiro. Uma divindade surpreendeu os médiuns e assistentes, falando pela boca de um jovem de 17 anos, Zélio Fernandino de Morais. Era caboclo. Ele anunciou: “(…) se quiserem saber o meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim.” Antes da manifestação, vários médiuns foram “tomados” por entidades que falavam como indígenas aculturados e ex-escravos e seus primeiros descendentes no Brasil. Zélio, que ali fora em busca de saúde para o corpo, levantou-se da sala, saiu ao jardim da casa e voltou com uma rosa nas mãos. Logo também foi “tomado”.

Um dos médiuns videntes perguntou a ele: “Por que o irmão fala nesses termos pretendendo que esta mesa aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados?” Altivo, o Caboclo das Sete Encruzilhadas respondeu ao dirigente kardecista: “se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos índios, devo dizer que amanhã estarei em casa deste “aparelho” (Zélio) para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados ou desencarnados.” O dirigente voltou a indagar: “julga o irmão que alguém irá assistir ao seu culto?” Direto, soberano, o Caboclo das Sete Encruzilhadas respondeu: “cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei”.

Em 1975, Zélio Fernandino de Morais deu entrevista à revista Seleções de Umbanda sobre o que aconteceu no dia 15 e no dia seguinte, 24 horas depois da fundação da Umbanda: “em casa de minha família, na rua Floriano Peixoto, 30, em Neves (bairro da cidade) , ao se aproximar a hora marcada, 8 da noite, já se reuniam os membros da Federação Espírita do Estado, seguramente para comprovar a veracidade do que fora declarado na véspera, os parentes mais chegados, amigos, vizinhos e, do lado de fora, grande número de desconhecidos”. Logo, manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Disse ele que a prática do culto teria por base o Evangelho de Cristo e, como mestre supremo, Jesus.
“A casa de trabalhos espirituais, que no momento se fundava, recebeu o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolheu o Filho nos braços, também seriam acolhidos, como filhos, todos os que necessitassem de ajuda e de conforto” – declarou Zélio Fernandino de Morais à revista Seleções de Umbanda. “Ditadas as bases do culto, o caboclo passou à parte prática dos trabalhos, curando enfermos. Antes do final da sessão, manifestou-se um preto velho, Pai Antônio, que vinha completar as curas.” A Umbanda, que nascera como síntese do espiritismo, do catolicismo, do candomblé e de religiões tupi-guaranis, se institucionalizava. Segundo a historiografia umbandista, em 1918 “o Caboclo das Sete Encruzilhadas recebeu ordens do Astral Superior para fundar sete tendas para a propagação da Umbanda.” Ao serem fundadas, até 1935, elas ganharam os seguintes nomes: Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, São Pedro, Oxalá, São Jorge e Tenda Espírita São Jerônimo. Data dos anos 30 a expansão da Umbanda pelos estados do Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul, principalmente. Como a violência e a brutalidade cercavam a religião brasileira, nas tendas e terreiros Ogum era cultuado como São Jorge, um santo católico. E assim aUmbanda cresceu, foi ganhando o Brasil.

“Nesta Casa de guerreiros, Ogum
Vim de longe pra rezar, Ogum
Rogo a Deus pelos doentes, Ogum
Na fé de Pai Oxalá, Ogum

Ogum salve a Casa Santa, Ogum
Os presentes e os ausentes, Ogum
Salve nossas esperanças, Ogum
Salve velhos e crianças, Ogum

Nego Velho ensinou, Ogum
Na cartilha de Aruanda, Ogum
E Ogum não esqueceu, Ogum
Como vencer a demanda, Ogum

A tristeza foi embora, Ogum
Na espada de um guerreiro, Ogum
E a luz do romper da aurora, Ogum
Vai brilhar neste Terreiro, Ogum”

A Umbanda tão verde e amarela continua se expandindo. Agora se espalha mais pelo mundo. Afirmou-se no início, trazendo às regiões urbanas as religiões dos deserdados e pobres de terra e da terra, os escravos africanos e caboclos sempre dizimados. Seus dias continuam sendo feitos de luta. Primeiro, enfrentou a fúria do catolicismo que ainda se dizia religião oficial. Sofreu cerrada perseguição do aparelho policial do Estado, que colocava seus praticantes no mesmo balaio anti-social onde estavam candomblecistas, sambistas, anarquistas, comunistas, ciganos, homossexuais e mais minorias indesejadas pelos poderosos. O centenário é de grande significado para a História. É momento de se saudar a Umbanda e repetir mais uma vez: sarava! Que soem os atabaques, que as vozes abram os trabalhos com o canto de tanta tradição!

“Eu abro a nossa Gira com Deus e Nossa Senhora
Eu abro a Nossa Gira, Sandorê e Pemba de Angola
Está aberta a nossa Gira com Deus e Nossa Senhora
Está aberta a nossa Gira Sandorê e Pemba de Angola”

Segundo o site do Parque Memorial Quilombo dos Palmares, “o nome Umbanda deve ter se originado do nome do Chefe do culto da Cabula, que se chamava embanda.” O Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira diz: “Umbanda. Do quimbundo (idioma de Angola) umbanda, “magia”. Forma cultual originada da assimilação de elementos religiosos afro-brasileiros pelo espiritismo brasileiro urbano; magia branca.” Em suas bem expostas explicações, o site do Parque Memorial Quilombo dos Palmares descreve ainda que “a Umbanda e o Candomblé se popularizaram no Brasil, tornando-se símbolo da cultura religiosa brasileira. Seus cânticos foram popularizados na música de Dorival Caymmi e Martinho da Vila e na voz de Clara Nunes, nos livros de Jorge Amado e nas gravuras de Caribé e tantos outros artistas.” A Umbanda, por si só, tornou-se alvo de pesquisadores notáveis, como Arthur Ramos, Édison Carneiro, Roger Bastide, Luiz Costa Pinto, René Ribeiro, Ruth Landes e, mais recentemente, a antropóloga americana Diana Brown autora do livro “Umbanda – Politics of an Urban Religious Movement”, de 1974, até hoje sem tradução no Brasil.

“Oi não se mexe na espada de Ogum
Oi não se mexe na machada de Xangô
Oi não se mexe, nas flechas de Oxossi
Que lá na mata é Rei é caçador
Oi não se mexe, nas flechas de Oxossi
Que lá na mata é Rei é caçador”

Para Carlos Paes, babalorixá-chefe doTeu Lar Templo e Escola, “sincera e fraternalmente, fundamentalmente, a nossa Umbanda se baseia na existência de um Deus, Único, incognoscível, Criador, Onipresente, origem de todas as vibrações; na existência de Jesus, o Cristo, a quem chamamos Oxalá, modelo de perfeição e conduta que buscamos alcançar; na existência de vibrações no Universo que denominamos Orixás; na existência de entidades espirituais que se encaixam nessas vibrações; na existência de planos espirituais de evolução; na existência do espírito, sobrevivendo ao corpo físico do homem, em caminho de evolução e buscando aperfeiçoamento; na reencarnação e na lei kármica de causa e efeito; na prática da mediunidade sob as mais variadas apresentações, tipos e modalidades; na prática da caridade material e espiritual como meio de evolução; na crença de que o homem vive num campo de vibrações que influem em sua vida e que essas vibrações podem ser manipuladas quer para o seu próprio bem, como fazemos, ou para o seu próprio mal, como combatemos.” E Carlos Pés fecha assim o seu pensamento: “tudo isso é Umbanda, religião de fé, luz, caridade, esperança e, primordialmente, de amor ao próximo.”

Nos impressionantes e instigantes transes, particularmente das mulheres umbandistas no terreiro, é belo e admirável o dançar delas quando incorporadas pelas crianças, os espíritos infantis e brincalhões. Em movimentos graciosos elas se agitam de um lado para o outro, falando e conversando com os fiéis que as assistem. Muitos umbandistas dizem que elas nos livram da tristeza e da melancolia. Para a sua “subida”, e quase sempre muitas delas se recusam a cumprir as ordens da chefia do terreiro, é cantando um belo ponto carregado de ludismo.

“Voa, voa, voa pro céu Andorinha,
Leva os anjinhos pro céu andorinha…
Voa, voa, voa pro céu Andorinha,
Leva os anjinhos pro céu andorinha…”

O sociólogo Fernandes Portugal, em seu estudo “Umbanda, única religião nascida no Brasil” afirma que a dança, tão presente na religião, “expressa emoções, ameaças, afeto, alegrias, raiva, aprovação e recusa. (…) A Umbanda cultua a “magia do ritmo”, através da dança no seu gestual mimético em devoção aos Orixás e Almas. Ao mesmo tempo, ouvem-se as rezas cantadas, acompanhadas dos atabaques, agogôs, cabaças, violas… (…) Os cânticos falam da vida e da morte, alegrias e vitórias. Orientam os filhos de fé, advertem e aconselham. Homenageiam o Sol, a Lua, as estrelas, os montes, as florestas, os rios, as cachoeiras e o mar. Até mesmo, ensinam a viver. Tomemos, como exemplo, a reza dedicada ao orixá Ogun, como expressão do próprio orixá:

“Quando Ogun foi para a Guerra
Ele mandou orar, orar
Quando Ogun venceu a Guerra
Ele mandou orar, orar…
Orar, orar…
Orar, orar é Vencer!”

Segundo ainda Fernandes Portugal, “o crescimento interior do fiel umbandista baseia-se no seu intuito diário, particular e pessoal de se aliar às energias dos seus “pais de cabeça”, ou seja, dos seus dois orixás (somos filhos de todos os orixás com predominância de dois). Se observarmos, como exemplo, os filhos do orixá Ogum, “Senhor da Guerra e da Ordem”, verificamos que eles estão bem conscientes de que a guerra a ser vencida é a guerra contra suas próprias inferioridades. Uma guerra de muitas batalhas contra a própria inveja, ciúme, apego, violência e mesquinhez. Também lutam para conseguir o estabelecimento da Ordem no seu viver familiar, profissional e social. Luta sem quartel, sem descanso, contra os maus hábitos e costumes na vida de relação com a natureza e seus semelhantes.”

“Oxalá, meu Pai, tem pena de nós tem dó
As voltas do mundo é grande, seus poderes são maior
Oxalá, meu Pai, tem pena de nós tem dó
As voltas do mundo é grande, seus poderes são maior”

Nestes dias, a sempre heróica e perseguida Umbanda enfrenta o ódio declarado de evangélicos neopentecostais. Há um fogo cerrado contra ela, especialmente da chamada Igreja Universal do Reio de Deus, de Edir Macedo. Em junho deste ano, quatro jovens destruíram um centro de umbanda no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, certamente incitados por gente como o pastor Adão José dos Santos, da Igreja Pentecostal dos Milagres que vociferou: “a Umbanda é a mentira”. A cultura e a inteligência viventes na Cidade Maravilhosa, no Brasil e mesmo no exterior, se indignaram e se puseram de pé. Uma gigantesca passeata foi feita pelo calçadão de Copacabana. Ali, de mãos dadas, estavam umbandistas, candomblecistas, católicos, judeus, budistas, maometanos, adeptos de outras religiões e ateus, para proclamar a liberdade de crença, neste país democrático e republicano.

O jornalista Arnaldo Bloch publicou, no site Globo Online, de 9 de junho de 2008, várias opiniões sobre a intolerância religiosa e o atentado ao templo. E referiu-se ao pastor dizendo que ele esqueceu-se “de que a violência é costumeiramente incitada com palavras como as suas”

Palavras vigorosas – de quem jamais se rende ao terror religioso – foram pronunciadas, no O Globo de 8 de junho, por Mãe Fátima Damas, da Congregação Espírita Umbandista do Brasil: “como presidente de uma casa que congrega 2.300 terreiros, há 46 anos, nunca me omito. Quando subi a escadinha, no Catete, senti uma punhalada no peito. São nossos ícones. O sagrado de um ser humano é coisa séria. Ninguém tem direito de tocar. (…) Ali tinha imagem de 80 anos, coisa que não se encontra mais. São objetos imantados, preparados pelas entidades fundadoras. No site do pastor que orientou aqueles rapazes tinha um vídeo em que ele instiga à violência. Já tirou do ar mas temos uma cópia. Antigamente os evangélicos não tinham problema com a gente. Era só a polícia. Isso começou com o bispo Macedo, uns 20 anos atrás. (…) Vou à luta. Dou a cara sem dó nem piedade. Se tivesse sido na minha casa aqui não ia ficar de graça, não. Ainda não tive oportunidade de conversar com as entidades espirituais. Mas já estive pensando, intuitivamente: será que a casa do Catete foi penalizada para que se pudesse, agora, remexer o caldeirão, para as coisas virem à tona, e, brotando, a gente poder caminhar em paz? Ou vai virar uma guerra santa? Se não cuidar, entorna.”

No dia 30 de março de 2008, o jornal Folha de S. Paulo entrevistou a antropóloga Diana Brown sobre seu livro e a história da Umbanda no Brasil. O repórter perguntou à cientista americana: “qual o papel do Zélio Fernandino de Moraes na construção da Umbanda?” Diana Brown respondeu: “ele e seu grupo conseguiram promover a imagem dessa Umbanda que foi chamada de Umbanda Branca. Foi um esforço para embranquecer e modernizá-la. O papel dele é simbólico, foi o porta-voz dessa “nova” Umbanda.” Zélio Fernandino de Morais morreu (desencarnou) no dia 3 de outubro de 1975, aos 84 anos de idade. Enquanto viveu ele dedicou a vida à religião brasileira, sem nada pedir em troca. Em sua homenagem, há festa e reconhecimento nas tendas e terreiros. Não faltará, nas sessões de honra, o Hino da Umbanda.

“Refletiu a Luz Divina
Com todo seu esplendor
Vem do reino de Oxalá
Onde há paz e Amor
Luz que refletiu na terra
Luz que refletiu no mar
Luz que veio de aruanda
Para tudo iluminar

A Umbanda é paz e amor
É um mundo cheio de Luz
É força que nos dá vida
E a Grandeza nos conduz
Avante filho de fé
Como a nossa lei não há
Levando ao mundo inteiro
A bandeira de Oxalá.”

obs:a Umbanda è a ùnica religiäo que é genuínamente brasileira,sendo uma mistura do catolicismo europeu,do candomblé africano e das culturas indígenas tupis-guaranis.


Carla Pereira da Fonte · Rio de Janeiro, RJ

Vivi a alegria de participar do FORUM SOCIAL URBANO que aconteceu em minha cidade, RJ, de 22 a 26 do março e que pela primeira vez coincidiu com a passagem de marte pelo meu céu astral, forçando o destino a me deixar participar. Depois de tantos que suspirei não poder ir.

Participei da oficina que se propôs apresentar e debater a Função Social da Propriedade, a elaboração do plano diretor da cidade no contexto da participação popular no planejamento urbano. Passando por todos os trâmites políticos e burocráticos no desenvolvimento das ações.

Durante 3 dias, líderes e integrantes de movimentos populares de diversas partes do Brasil, funcionários públicos e acadêmicos, estudantes e pesquisadores se reuniram em torno do tema. Pesquisas foram apresentadas por especialistas, conceitos foram amadurecidos em coletivo, práticas foram expostas para a reflexão de todos.

Mais do que o conteúdo programático da oficina, ainda que rico e importante, me engrandeceu viver a experiência do aprendizado coletivo. Da busca coletiva pelo saber, pela melhor alternativa, por um maior conhecimento possível em busca do bem de todos. Saber de pessoas que ousam, ao reconhecer a injustiça que sofrem, agir coletivamente em busca determinada, obstinada, de solução. Que não se resignam diante da omissão de quem justifica a autoridade que tem no combate do mal que cuidam fazer manter e agravar até.

Me vi representada diante daquelas lideranças, daqueles pensadores que estavam ali, percebi meu próprio olhar lançado ao mundo no discurso diversificado que encontrei ali. Minha identidade devolvida por alguns dias, restrita a um galpão do Cais do Porto. Seres humanos reunidos para discutir a melhor maneira de garantir a participação democrática de todos em todas as dimensões do existir, não apenas na produção e consumo alienado, obediente.

Se nossos verdadeiros representantes tivessem seus direitos políticos garantidos, se os candidatos oferecidos pelos partidos políticos tivessem real representatividade entre nós, não haveria necessidade de VOTO OBRIGATÓRIO. Se o tal pacto social de que franceses e ingleses nos falam de fato existisse em nosso contexto histórico, estou certa de que a obrigatoriedade não teria razão de ser. Só que ninguém aceita participar de jogo vendido se não for por obrigação, chantagem ou assédio impositivo, corrompido.

Participei também da feira solidária onde artesãos, artistas, pesquisadores e movimentos populares diversos ofertavam seus talentos.
A praça de alimentação feita em casa. A família do Betinho, responsável pelo espaço anfitrião, transbordando solidariedade no cuidado com o êxito do encontro.

Aprendizado cidadão por todos os lados. Cada ator que encontrei ali trazia consigo a atitude transformadora diante de nosso habitat e a abertura indispensável diante da mudança positiva que o outro pode despertar para a melhora do todo. Fiz amigos.

Agora que o evento acabou, volto para a realidade da vida como quem teve o quase exclusivo privilégio de olhar por entre as frestas que rachamos no sólido muro que a mentalidade dominante ergue diariamente em nossos corações nativos.

Rachado, agora sei, com a cabeça dos desobedientes, daqueles que insistem em se deixar nascer, alheios a planos de controle de natalidade, assepsia étnica, de clareamento cultural, de inclusão consumista, educação classista e tantas outras estratégias trazidas do além mar, implementadas em terras nossas.
Sem teto, sem terra, sem remuneração. Sem ar refrigerado, sem detector de metal, sem tradução simultânea, passando o chapéu e fazendo festa no final.

Sigo agora diferente, com sonhos menos utópicos, utopias compartilhadas ganham força.
Mais confiante que nunca em nosso potencial de crescimento não institucional, consciente, livre.