Archive for setembro, 2011


Aproveitar a vida e suas dores

Meu ideal não é a felicidade, mas a variedade e a intensidade das experiências, sejam alegres ou penosas


Com frequência, em conversas e entrevistas, alguém me pergunta o que penso da felicidade -obviamente, na esperança de que eu espinafre esse “ideal dominante” de nossos tempos.
Na verdade, não sei se a felicidade é mesmo um ideal dominante.
Claro, o casal e a família felizes são estereótipos triviais: “Com esta margarina ou com este carro sua vida se abrirá num sorriso de ‘folder’ ou de comercial”. Mas ninguém leva isso a sério, nem os que declaram que tudo o que querem é ser felizes.
Se alguém levasse a busca da felicidade a sério, ele se drogaria, e não com remédios ou substâncias de efeito incerto e insuficiente: só crack ou heroína -tiros certeiros.
O que resta é a felicidade como tentação, como uma vontade de cair fora, compreensível quando a vida nos castiga muito. Fora isso, minha aspiração dominante não é a de ser feliz: quero viver o que der e vier, comédias, tangos e também tragédias -quanto mais plenamente possível, sem covardia.
Meu ideal de vida é a variedade e a intensidade das experiências, sejam elas alegres ou penosas.
Há indivíduos que pedem para ser medicados preventivamente, de maneira a evitar a dor de um luto iminente. É o contrário do que eu valorizo; penso como Roland Barthes: “Luto. Impossibilidade -indignidade- de confiar a uma droga -sob pretexto de depressão- o sofrimento, como se ele fosse uma doença, uma ‘possessão’ -uma alienação (algo que nos torna estrangeiros)- enquanto ele é um bem essencial, íntimo…”.
O trecho está na pág. 159 de “Diário de Luto”, que acaba de ser publicado em português (WMF Martins Fontes, excelente tradução de Leyla Perrone-Moisés).
São as fichas nas quais Barthes registrou sua dor entre outubro de 1977 (a morte da mãe) e setembro de 1979 (poucos meses antes de ele mesmo sofrer um atropelamento cujas consequências seriam fatais).
Logo nestes dias, um amigo meu, Paulo V., está perdendo seu pai. Ele me escreve, consternado, que “nada sobrará” do pai: uma cadeira vazia, gavetas de roupas e papéis e que mais? A lembrança se perderá com a vida do filho, que não lhe deu netos e de quem também nada sobrará. A resposta que encontro, para meu amigo, é uma questão: por que uma vida não se bastaria, mesmo que não sobre nada e, a médio prazo, ninguém se lembre?
Barthes se pergunta se ele estaria escrevendo “para combater a dilaceração do esquecimento na medida que ele se anuncia como absoluto. O -em breve- ‘nenhum rastro’, em parte alguma, em ninguém” (pág. 110). Mas suas anotações não são um monumento fúnebre para a mãe.
Para Barthes, escrever é o jeito de abraçar a experiência, de vivê-la plenamente. Ele se revolta contra as distrações e as explicações consolatórias dos amigos; recusa as teorias que lhe prometeriam um bom decurso de seu luto (“Não dizer luto. É psicanalítico demais. Não estou de luto. Estou triste”) e foge, embora a contragosto, das crenças que apaziguariam a dor (“que barbárie não acreditar nas almas -na imortalidade das almas! Que verdade imbecil é o materialismo!”).
Enfim, Barthes chega quase a recear que o luto acabe, como se, além da mãe adorada, ele temesse perder também, aos poucos, sua experiência dessa perda.
Meses depois da morte dos meus pais, havia momentos em que eu lamentava que meus afetos e pensamentos voltassem “ao normal”, como se minha vida fosse mais pobre sem aquela dor. E havia outros em que, de repente, um detalhe me fisgava, até às lágrimas. Esses momentos eu acolhia com alegria.
Como Barthes anota, a dor do luto pode deixar de ser o afeto dominante, mas ela sempre volta, com a mesma força: “O luto não se desgasta porque não é contínuo” (pág. 92).
Falando em “detalhes” que fisgam, as anotações de Barthes reabriram a ferida de quando ele morreu, mais de 30 anos atrás.
De que sinto mais falta? Do timbre de sua voz e de duas coisas que, de uma certa forma, faziam parte do timbre de sua voz.
Sinto falta de seu gosto pela inconsistência das ideias e dos saberes (“proporcionalmente à consistência desse sistema, sinto-me excluído dele”, pág. 73).
E sinto falta de sua coragem para falar a partir da singularidade de sua experiência, sem a menor pretensão de erigi-la numa generalidade que valha para os outros.
Em suma, sinto falta dele, mas não é só que eu sinto falta dele, é que ele, ainda hoje, faz falta.

Contardo Calligaris

 

 

 

 

Dedicamos mais energia à tentativa de silenciar os nossos sonhos do que à tentativa de realizá-los


GIL PENDER, o protagonista do último filme de Woody Allen, “Meia-Noite em Paris”, quer deixar de escrever roteiros de sucesso (que ele mesmo acha medíocres) para se dedicar a coisas “mais sérias” e menos lucrativas: um romance, por exemplo. Ele acumulou dinheiro suficiente para tentar essa aventura por um tempo, em Paris, como um escritor americano dos anos 1920.
Infelizmente, Pender está prestes a se casar com uma noiva que aprecia muito seu sucesso atual, mas não tem gosto algum pela incerteza (financeira) de seu sonho. Tudo indica que ele se dobrará às expectativas da noiva, dos futuros sogros e do mundo, renunciando a seu desejo. Talvez seja por causa dessa renúncia, aliás, que noiva e sogros o desprezam (todo o mundo acaba desprezando o desejo de quem despreza seu próprio desejo).
Mas eis que, na noite parisiense, alguns fantasmas do passado levam Pender para a época na qual poderia viver uma vida diferente e mais intensa -a época na qual seria capaz de fazer apostas arriscadas.
A idade de ouro de Pender é a Paris de Hemingway, Fitzgerald, Cole Porter, Picasso etc. Como disse Gertrude Stein (outra protagonista do sonho do herói), eles são a geração perdida, entre uma guerra terrível e outra pior por vir (isso ela não sabia, mas talvez pressentisse). Por que eles fariam a admiração de Pender e a nossa? Hemingway responde quando explica a Pender que, para amar e escrever, é preciso não ter medo da morte. Claro, não ter medo da morte talvez seja pedir muito, mas Pender poderia mesmo se beneficiar com um pouco mais de coragem; se conseguisse decidir sua vida sem medo da noiva e dos sogros, seria um progresso.
Concordo com o que escreveu Marcelo Coelho, em artigo neste mesmo espaço na edição de 22 de junho: uma moral do filme é que “temos só uma vida para viver -a nossa”, ou seja, tudo bem sonhar com a idade de ouro, à condição de acordar um dia.
Agora, o que emperra a vida de Pender não é seu sonho nostálgico, é o presente. A nostalgia, aliás, é seu recurso para não se esquecer completamente de seus próprios sonhos. É como se, para preservar seu desejo, ele o situasse numa outra época. Mas preservá-lo de quem?
Antes de mais nada, um conselho. Acontece, às vezes, que nosso sucesso não tenha nada a ver com nossos sonhos -por exemplo, você queria ser promotor de Justiça, mas fez algum dinheiro com a imobiliária de família e aí ficou, renunciando a seu sonho.
Nesses casos, uma precaução: case-se com alguém que ame seu sonho frustrado e não só seu sucesso; sem isso, inelutavelmente, chegará o dia em que você acusará seu casal de ter sido a causa de sua renúncia. Em outras palavras, é possível e, às vezes, necessário renunciar a nossos sonhos, mas é preciso escolher como parceiro alguém que goste desses sonhos e dos jeitos um pouco malucos que usamos para acalentá-los (no caso de Pender, passeios por Paris à meia-noite e na chuva).
Voltemos agora à pergunta: contra quem Pender precisou preservar seu desejo, mandando-o para outra época? Contra a noiva que desconsiderava seus sonhos? Aqui vem outra moral do filme.
Pender não é nenhum caso raro: todos nós, em média, dedicamos mais energia à tentativa de silenciar nossos sonhos do que à tentativa de realizá-los. Muitos dizem que desistiram de sonhos dos quais os pais não gostavam por medo de perder o amor deles. Mas por que Pender recearia perder o amor da noiva, que ele não ama, e dos sogros, que ele ama ainda menos?
O fato é que somos complacentes com as expectativas dos outros (que amamos ou não) à condição que elas nos convidem a desistir de nosso desejo. É isso mesmo, a frase que precede não saiu errada: adoramos nos conformar (ou nos resignar) às expectativas que mais nos afastam de nossos sonhos. Aparentemente, preferimos ser o romancista potencial que foi impedido de mostrar seu talento a ser o romancista que tentou e revelou ao mundo que não tinha talento. Desistindo de nossos sonhos, evitamos fracassar nos projetos que mais nos importam.
Em suma, da próxima vez que você se queixar de que seu casal afasta você de seus sonhos, lembre-se: foi você quem o escolheu.
E mais um conselho: se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva do seu lado, não fuja; molhe-se.

Contardo Calligaris

O Conselho Nacional de Educação – CNE está promovendo um debate em nível nacional visando incluir a disciplina Direitos Humanos nos currículos escolares, do ensino básico e superior. Questionados a respeito da inclusão de Valores Humanos nesses debates as respostas que temos recebido informam que nas aulas de Filosofia, Sociologia, Ética, Cidadania e na própria disciplina Direitos Humanos, já são e serão contemplados os citados Valores.

 

Entretanto, na leitura que nosso grupo (informal) de pedagogos, junto com profissionais de outras áreas, tem feito sobre essa questão, observam-se algumas diferenças pouco percebidas, mas importantíssimas, que nos remetem ao seguinte:

Quando se ensina algo, a recepção se dá em nível intelectual, ou seja, é uma informação que o receptor poderá, ou não, aplicar em seu cotidiano. No entanto, quando esse algo é repassado num formato não apenas intelectivo, mas também envolvendo sentimentos, emoções e imagens mentais (estas últimas, visualizadas mediante contos e narrativas) como ocorre nos aprendizados de Valores Humanos, acaba sendo internalizado e passa a fazer parte do caráter. Certamente esse é um processo lento, para médio e longo prazo, mas é essa formação do caráter a estrutura únicasobre a qual será possível construir-se uma sociedade moral e eticamente saudável.

Entendemos que o ensino de Filosofia, Sociologia, Ética, Cidadania, Direitos Humanos, etc., sem desconsiderar sua importância na formação humana, não abrange nem substitui os Valores Humanos, que são ensinamentos e vivências sobre honestidade, bom convívio, ética, responsabilidade, justiça, verdade, afetividade, olhar o outro com um olhar de acolhimento, de solidariedade, que são os fundamentos da não violência, lembrando ainda que esses aprendizados incluem também a admiração e o amor pela natureza e pela vida em todas as suas expressões.

Portanto, é fácil concluir que, se quisermos ter no futuro uma sociedade “saudável”, o ensino de Valores Humanos deve ocorrer nas salas de aula como matéria específica e num formato próprio, assim como acontecia antigamente, quando os mais velhos os ensinavam às crianças e jovens. Só assim, com esses valores internalizados, e não como informações processadas pelo intelecto, poderemos contar com as transformações interiores tão necessárias em nossa sociedade.

 

Oportuno lembrar que o Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, de nossa responsabilidade, foi construído de forma a facilitar essa internalização dos valores, com utilização de contos e narrativas especialmente elaborados para cada situação. Com aulas de apenas cinco minutos de duração, que podem ser ministradas, por exemplo, no início de cada turno, as escolas não terão qualquer dificuldade para acrescentá-las ao seu calendário. Além disso, o Programa é inteiramente gratuito e já foi avaliado e adotado por várias secretarias de educação estaduais e municipais, e também recebe apoio do MEC:  http://portaldoprofessor.mec.gov.br/link.html?categoria=19. Recentemente elaboramos um “Passo-a-passo” com todas as orientações para a implantação desse Programa pelas escolas, incluindo um modelo de atividade para sensibilização e motivação dos professores que irão ministrá-lo. Todas as informações pertinentes, assim como download do material didático, se encontram em nosso site: www.cincominutos.org

Diante do exposto, pedimos que envide os esforços que estiverem a seu alcance para que o ensino de Valores Humanos venha a ser priorizado nas salas de aula do país, de forma que as novas gerações possam internalizá-los,porque só assim, mediante mudanças radicais na mentalidade vigente é possível pensar-se num futuro melhor e mais digno para nós e para nossos descendentes.

Atenciosamente,

Saara Nousiainen – Coordenadora do Projeto Sócio-Educativo Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, disponibilizado gratuitamente desde 2008, em: www.cincominutos.org



A verdadeira dificuldade não está em aceitar idéias novas,mas escapar das antigas…

Entrevista com J.A. Miller realizada em 2008, onde ele fala do amor.
Por Hanna Waar. En: Psychologies Magazine, octobre 2008, n° 278

“Amamos a aquel que responde a nuestra pregunta: ¿Quién soy yo?”

“Hijo espiritual” de Jacques Lacan, Jacques-Alain Miller explora a su vez la cuestión del amor que el padre del pensamiento psicoanalítico contemporáneo evocaba en 1973, en uno de sus más famosos seminarios “Aún” en El Seminario, vol XX (Seuil, “Essais”, 1999). Es igualmente el fundador de la Escuela de la Causa Freudiana. Ultima obra aparecida Le secret des dieux (Navarin editores, 2005)
“Amamos a la persona que protege, o una imagen narcisista de uno mismo”.
El amor se dirige a aquel que, pensamos, conoce nuestra verdad y nos ayuda a encontrarla soportable, explica Jacques-Alain Miller. Mirada de un psicoanalista sobre esta cuestión fundamental.

Hanna Waar : ¿El psicoanálisis enseña algo sobre el amor?
Jacques-Alain Miller: Mucho, pues es una experiencia cuyo resorte es el amor. Se trata de ese amor automático, y a menudo inconsciente, que el analizante dirige al analista, y que se llama la transferencia. Es un amor artificial, pero de la misma estofa que el amor verdadero. Saca a la luz su mecánica: el amor se dirige a aquel que usted piensa que conoce vuestra verdad verdadera. Pero el amor permite imaginar que esta verdad será amable, agradable, mientras que de hecho es muy difícil de soportar.

H W :¿Entonces, qué es verdaderamente amar?
J-A Miller: Amar verdaderamente a alguien es creer que amándolo, se accederá a una verdad sobre sí mismo. Amamos a aquel o a aquella que esconde la respuesta, o una respuesta a nuestra pregunta: “¿Quién soy yo?”

H W : ¿Por qué algunos saben amar y otros no?
J-A Miller: Algunos saben provocar el amor en el otro, los serial lovers, si puedo decirlo, hombres y mujeres. Saben qué botones apretar para hacerse amar. Pero ellos no aman necesariamente, juegan más bien al gato y al ratón con sus presas. Para amar, hay que confesar su falta, y reconocer que se necesita al otro, que le falta. Aquellos que creen estar completos solos, o quieren estarlo, no saben amar. Y a veces, lo constatan dolorosamente. Manipulan, tiran de los hilos, pero no conocen del amor ni el riesgo ni las delicias.

H W : “Estar completo solo”: solo un hombre puede creer eso…
J-A Miller: ¡Bien dicho! Amar, decía Lacan es dar lo que no se tiene. Lo que quiere decir: amar, es reconocer su falta y darla al otro, ubicarla en el otro. No es dar lo que se posee, bienes, regalos, es dar algo que no se posee, que va más allá de sí mismo. Para eso, hay que asumir su falta, su “castración”, como decía Freud. Y esto, es esencialmente femenino. Solo se ama verdaderamente a partir de una posición femenina. Amar feminiza. Por eso el amor es siempre un poco cómico en un hombre. Pero si se deja intimidar por el ridículo, es que en realidad, no está muy seguro de su virilidad.

H W : ¿Sería más difícil amar para los hombres?
J-A Miller: ¡Oh sí! Incluso un hombre enamorado tiene retornos de orgullo, lo asalta la agresividad contra el objeto de su amor, porque este amor lo pone en una posición de incompletad, de dependencia. Por ello puede desear a mujeres que no ama, para reencontrar la posición viril que él pone en suspenso cuando ama. Freud llama a este principio la “degradación de la vida amorosa” en el hombre: la escisión del amor y del deseo.

H W : ¿Y en las mujeres?
J-A Miller: Es menos habitual. En el caso más frecuente, hay desdoblamiento del partenaire masculino. De un lado, está el amante que las hace gozar y que desean, pero está también el hombre del amor, que está feminizado profundamente castrado. Solo que no es la anatomía la que comanda: hay mujeres que adoptan una posición masculina, incluso las hay cada vez más. Un hombre para el amor, en la casa, y hombres para el goce, que se encuentran en Internet, en la calle, o en el tren…

H W : ¿Por qué cada vez más?
J-A Miller: Los estereotipos socioculturales de la feminidad y de la virilidad están en plena mutación. Los hombres son invitados a alojar sus emociones, a amar, a feminizarse; las mujeres conocen por el contrario un cierto “empuje al hombre”: en nombre de la igualdad jurídica, se ven conducidas a repetir “yo también”. Al mismo tiempo, los homosexuales reivindican los derechos y los símbolos de los héteros, como el matrimonio y la filiación. De allí que hay una gran inestabilidad de los roles, una fluidez generalizada del teatro del amor, que contrasta con la fijeza de antaño. El amor se vuelve “líquido” constata el sociólogo Zygmunt Bauman[1]. Cada uno es conducido a inventar su propio “estilo de vida”, y a asumir su modo de gozar y de amar. Los escenarios tradicionales caen en lento desuso. La presión social para adecuarse a ello no ha desaparecido, pero es baja.

H W : “El amor siempre es recíproco”, decía Lacan. ¿Aún es verdadero en el contexto actual? ¿Qué significa eso?
J-A Miller: Se repite esta frase sin comprenderla, o se la comprende de través. No quiere decir que basta con amar a alguien para que él lo ame. Eso sería absurdo. Quiere decir: “Si yo te amo, es que tú eres amable. Soy yo quien ama, pero tú, tú también estas implicado, puesto que hay en ti algo que hace que te ame. Es recíproco porque hay un ir y venir: el amor que tengo por ti es el efecto de retorno de la causa de amor que tú eres para mí. Por lo tanto, algo tú tienes que ver. Mi amor por ti no es solo asunto mío, sino también tuyo. Mi amor dice algo de ti que quizá tú mismo no conozcas.” Esto no asegura en absoluto que al amor de uno responderá el amor del otro: cuando eso se produce siempre es del orden del milagro, no se puede calcular por anticipado.

H W : No se encuentra a su cada uno o cada una por azar. ¿Por qué él? ¿Por qué ella?
J-A Miller: Existe lo que Freud llama Liebsbedingung, la condición de amor, la causa del deseo. Es un rasgo particular – o un conjunto de rasgos- que tiene en cada uno una función determinante en la elección amorosa. Esto escapa totalmente a las neurociencias, porque es propio de cada uno, tiene que ver con la historia singular e íntima. Rasgos a veces ínfimos están en juego. Freud, por ejemplo, había señalado como causa del deseo en uno de sus pacientes ¡un brillo de luz en la nariz de una mujer!

H W : Nos es difícil creer en un amor fundado sobre esas naderías.
J-A Miller: La realidad del inconciente supera a la ficción. Usted no tiene idea de todo lo que se funda, en la vida humana, y especialmente en el amor, en bagatelas, cabezas de alfiler, “divinos detalles”. Es verdad que es sobretodo en el macho que encontramos tales causas del deseo, que son como fetiches cuya presencia es indispensable para desencadenar el proceso amoroso. Particularidades nimias, que recuerdan al padre, la madre, el hermano, la hermana, tal personaje de la infancia, juegan también su papel en la elección amorosa de las mujeres. Pero la forma femenina del amor es más erotómana que fetichista: quieren ser amadas, y el interés, el amor que se les manifiesta, o que suponen en el otro, es a menudo una condición sine qua non para desencadenar su amor, o al menos su consentimiento. El fenómeno está en la base de la conquista masculina.

H W : ¿Usted no le adjudica ningún papel a los fantasmas?
J-A Miller: En las mujeres, sean conscientes o inconscientes, son determinantes para la posición de goce más que para la elección amorosa. Y es a la inversa para los hombres. Por ejemplo, ocurre que una mujer no pueda obtener el goce – digamos el orgasmo – sino a condición de imaginarse a sí misma durante el acto, siendo golpeada, violada, o siendo otra mujer, o incluso estando en otra parte, ausente.

H W : ¿Y el fantasma masculino?
J-A Miller: Está muy en evidencia en el enamoramiento. El ejemplo clásico, comentado por Lacan, está en la novela de Goethe [2], la súbita pasión del joven Werther por Charlotte, en el momento en que la ve por primera vez, alimentando a un grupo de niños que la rodea. Aquí es la cualidad maternal de la mujer lo que desencadena el amor. Otro ejemplo, tomado de mi práctica, es este: un jefe en la cincuentena recibe candidatas en un puesto de secretaria; una joven mujer de 20 años se presenta; le desencadena inmediatamente su fuego. Se pregunta lo que le pasó, entra en análisis. Allí descubre el desencadenante: encontró en ella rasgos que le evocaban lo que él mismo era a los 20 años, cuando se presentó a su primera solicitud de trabajo, de algún modo se enamoró de sí mismo.

H W : ¡Se tiene la impresión de que somos marionetas!
J-A Miller: No, entre tal hombre y tal mujer, nada está escrito por anticipado, no hay brújula, no hay relación preestablecida. Su encuentro no está programado como el del espermatozoide y el del óvulo; nada que ver tampoco con los genes. Los hombres y las mujeres hablan, viven en un mundo de discurso, es eso lo que es determinante. Las modalidades del amor son ultrasensibles a la cultura ambiente. Cada civilización se distingue por el modo en que estructura su relación entre los sexos. Ahora, ocurre que en occidente, en nuestras sociedades, a la vez liberales mercantiles y jurídicas, lo “múltiple” está en camino de destronar el “uno”. El modelo ideal de “gran amor para toda la vida” cede poco a poco el terreno ante el speed dating, el speed living y toda una profusión de escenarios amorosos alternativos, sucesivos, incluso simultáneos.

H W : ¿Y el amor en su duración?, ¿en la eternidad?
J-A Miller: Balzac decía: “Toda pasión que no se crea eterna es repugnante”.[3] ¿Pero el vínculo puede mantenerse toda la vida en el registro de la pasión? Cuanto más un hombre se consagra a una sola mujer, más ella tiende a tomar para él una significación maternal: tanto más sublime e intocable cuanto más amada. Son los homosexuales casados lo que desarrollan mejor este culto de la mujer: Aragon canta su amor por Elsa: cuando muere, ¡buen día a los muchachos! Y cuando una mujer se apega a un solo hombre, lo castra. Por lo tanto, el camino es estrecho. El mejor destino del amor conyugal es la amistad, decía en esencia Aristóteles.

H W : El problema, es que los hombres dicen no comprender lo que quieren las mujeres, y las mujeres, lo que los hombres esperan de ellas…
J-A Miller: Sí. Lo que es una objeción a la solución aristotélica, es que el diálogo de un sexo con el otro es imposible, suspiraba Lacan. Los enamorados están de hecho condenados a aprender indefinidamente la lengua del otro, a tientas, buscando las claves, siempre revocables. El amor, es un laberinto de malentendidos cuya salida no existe.

Traductor: Silvia Baudini

http://viafreud.blogspot.com/

 

Texto raro de Moustapha Safouan extraíso da também rara publicação “Ensaios de psicanálise para o desenvolvimento de uma prática editorial” nº 2 da Bahia. Este texto foi elaborado em ocasião da morte de Jacques Lacan em 1981. Tradução M.P. Silva

“Para o obreiro que segue Freud nos caminhos que ele abriu, as ‘teorias’ do Dr. Jacques Lacan são as consequências rigorosas de algumas constatações cuja evidência se impõe uma vez que sejam feitas.

Primeira constatação: a psicanálise é uma experiência do discurso. Segunda constatação, sem a qual a primeira seria trivial: o sonho (como o sintoma, ou qualquer outra formação do insconsciente) significa.

Ora, a menos que se imagine que o incosnciente sabe os pensamentos que assim se significam (o que retira todo o alcance da descoberta de Freud como conquista de um território até então reservado aos deuses), a segunda constatação é de fato a da autonomia do siginificante em relação a todo sujeito suposto saber.

Esta autonomia só causa espanto a um preconceito sem o qual, aliás, seria fácil perceber que a língua existe antes do sujeito, num discurso onde o sujeito já está preso, do qual recebe suas próprias mensagens e que lhe imprime as identificações primárias das quais seus próprios enunciados se sustentam ao nível da enunciação. A se levar em boa conta este aprisionamento do sujeito na cadeia significante, falar é estar dividido naquilo em relação a que o sujeito se constitui como corte; e o inconsciente é a cadeia onde Isso (Id) se articula no que Freud chama “representações do desejo”.

Sem as explicações que devemos ao Dr. Jacques Lacan da diferença entre o desejo e o pedido e da divisão do sujeito que daí decorre, a psicanálise é um delírio. Para se convencer disso basta que o leitor não prevenido se reporte à exposição, ponderada, aliás, que B. A. Farrell nos faz da ‘teoria psicanalítica’ nos primeiros capítulos de seu recentemente editado, ‘The Standing of Psychoanalysis’ (Oxford, 1981).

As teorias do Dr. Lacan se constituem numa relação à psicanálise, isto é, a sua prática. Que dizer de suas relações aos analistas?

Sabe-se que estão marcadas as cisões e exclusões. Mas o leitor talvez não saiba que os estatutos da IPA (International Psychoanalytic Association) definem a psicanálise em termos cujo ridículo salta aos olhos daqueles mesmos que são filiados a esta honorável casa: ‘o termo de psicanálise designa uma teoria da estrutura e da função da personalidade…’ Não sabe tampouco que o artigo 7 desses mesmo estatutos estipula o seguinte: ‘Os organismos oficiais reconhecidos pela Associação não aceitarão nenhum candidato à formação que não se comprometa a conduzir um tratamento psicanalítico nem a se apresentar como psicanalista enquanto não tiver sido autorizado a fazê-lo pelos comitês ou Institutos de formação responsáveis por sua formação’.

Que toda instituição implica, por definição, numa clivagem entre os ‘clientes’ e o ‘poder’, isso se admite. Mas é preciso que esta clivagem não se torne puro abuso. Ora, aqui o abuso é de princípio: pois como fazer do tornar-se analista um negócio de ‘formação’ (termo que Lacan recusava), um encargo da instituição, sem suprimir desde o começo a opção inicial cujo questionamento constitui justamente a razão de ser da análise?

O abuso de princípio se desdobra num abuso de fato. Pois o que Lacan etiquetou sob o termo de ‘cooptação de sábios’ constitui verdadeiramente o único método que regra o acesso ao poder, quer dizer, ao título de ‘titular’ e, mais além, ao de ‘didático’. Que este abuso se alimenta da obscuridade que reina sobre a análise dita ‘didática’, isto é, aquela em que se efetua o tornar-se analista, isso é agora evidente.

Todo o esforço de legislador de Lacan tinha por objetivo dispor alguns princípios (dos quais o primeiro é aquele segundo o qual o psicanalista não se autoriza senão por si mesmo) que põem cobro a esse abuso.

A aplicação desses princípios não foi apenas um fracasso: o fato é que no interior da ex-Escola Freudiana de Paris, fundada por Jacques Lacan, produziram-se alguns analistas que sabem trabalhar verdadeiramente com o insconsciente.

Em todo caso, a novidade essencial das idéias propostas por Lacan era a esperiência do passe: esperiência destinada a esclarecer a questão do tornar-se analista através de testemunhos que os analistas quisessem dar sobre suas próprias análises, e que se justifica pelo fato, demonstrável, que esta questão da passagem à posição de analista só poderia se esclarecer a posteriori (aprés-coup). Esta experiência destinada em suma a fundar a instituição psicanalítica sobre a estrutura mesma da análise didática, e não sobre a rotina, fracassou. Fracassou porque encerrava dificuldades que os analistas da ex-Escola estavam longe de poder dominar: pois que lhes faltava esta experiência mesma para descobrí-las. Em outros termos, deveu-se esse fracasso a razões de fato: não está votado á repetição; não refuta os princípios promovidos por Lacan; e muito menos prova a excelência das regras que estão em curso no establishment analítico, e cuja miséria, a julgar por seus resultados, é reconhecida pelas personalidades melhor colocadas no seio desse próprio establishment.

Além do mais, o fracasso da ex-Escola nos permite desde já tirar algumas conclusões cujo alcance de longe ultrapassa os percalços desta Escola e entre as quais a seguinte não é a menor: não está no poder de um chefe, qualquer que seja seu estilo e mesmo supondo que ele o queira, fazer com que as relações do resto do grupo à sua pessoa sejam diferentes daqueles descritas por Freud.

E Lacan ‘propriamente dito’? Que dizer? Direi isto, que não poderia dizer de um outro: ouvi da boca de Lacan mais palavras esclarecedoras, salubres e memso salutares do que palavras afáveis ou simplesmente inúteis.

‘É preciso suportar tudo!’ disse ele um dia. Agora que ele já não é, é tempo de o lembrarmos.”

Moustapha Safouan

Paris, setembro de 1981

“Em nenhum caso uma intervenção psicanalítica deve ser teórica, sugestiva, quer dizer, imperativa; ela deve ser equívoca.
A interpretação analítica não é feita para ser compreendida; ela é feita para produzir ondas”

Lacan

http://pontolacaniano.wordpress.com/

DÉBORAH DE PAULA SOUZA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A terapia pela palavra está em pleno desenvolvimento no Brasil, na avaliação de Plinio Luiz Kouznetz Montagna, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Nesta entrevista, ele diz que o maior desafio da psicanálise, hoje, são as fobias, a síndrome do pânico e outros “transtornos narcísicos”

Carlos Cecconello/Folhapress

Plinio Montagna na sede da Sociedade Brasileira de Psicanálisem em São Paulo

O psicanalista Plinio Montagna na sede da Sociedade Brasileira de Psicanálise em São Paulo

Veja conteúdo especial sobre psicanálise

Neste mês de reflexão –já que a entidade celebra 60 anos de filiação à IPA (International Psychoanalytical Association)–, o psicanalista diz que esse campo está em plena fase de desenvolvimento. Ele conta como um método demorado, profundo e caro sobrevive neste mundo imediatista, em que remédios se colocam como alternativa à conversa terapêutica.

*

Folha – Como o senhor define a psicanálise hoje?
Plinio Luiz Kouznetz Montagna – Ela atua em vertentes interligadas: é tratamento clínico; método de pesquisa sobre o ser humano e teoria do funcionamento da mente que permite generalizações. Ocorre que pensar a clínica permite pensar a cultura e essa conexão com artes e filosofia se mantém. É um campo de saber em desenvolvimento, não está fechada, progride com fluxos e refluxos. Na IPA convivem 12 mil psicanalistas do mundo, de tendências diferentes.

E muitas divergências, não?
Quando Freud era vivo, era ele quem dizia: isto é e isto não é psicanálise. Depois que morreu, ficou mais difícil. Enquanto os grandes mestres do século 20 (Winnicott, Klein, Lacan) estavam vivos, as pessoas seguiam uma linha. Hoje, a tendência é depurar as contribuições de cada autor e articular uma conversa entre eles. Não para integrar, pois as diferenças existem mesmo. Na década de 1980, tantas correntes nos fizeram questionar o que há de comum na psicanálise. Concordamos sobre três pontos: nosso objeto é o inconsciente; a importância da transferência e da contratransferência e a noção de que o passado deve ficar no passado.

Como isso se traduz no consultório?
O que diferencia a psicanálise de outras psicoterapias é o jogo transferencial. Para produzir uma mudança, o que adianta é fazer o problema emergir aqui e agora, na relação com o analista, de modo que seja possível trabalhar com ele. O analista é como uma tela em que o paciente projeta imagens. O complicador é que o analista não é uma tela em branco. Levamos em conta a contratransferência, a relação do profissional com seu paciente: inclui as dificuldades dele, pontos cegos que o impedem de escutar. O trabalho não se restringe a ouvir o relato, o analista escuta inconsciente.

O método nasceu como uma cura pela fala. Essa conversa pode ficar muito racional?
A racionalização não é análise e sim a tentativa de evitá-la. Essa defesa pode surgir tanto do paciente quanto do analista, porque o contato emocional gera turbulência. As resistências fazem parte, porém, o cerne da psicanálise é o encontro, e ele só ocorre quando se vai além das defesas. Por isso temos de saber manejá-las.

E quanto ao passado? Muita gente acha que psicanálise é ficar falando de traumas da infância.
Psicanálise não é “falar sobre”. A transferência é uma espécie de atualização do passado com o objetivo de permitir que o presente se instale. A análise permite que o passado fique no passado e a pessoa viva no presente. Essa é a libertação.

Aqui no Brasil, a psicanálise avança ou recua?
Nos anos 50 e 60 houve implantação e expansão, depois teve um momento em que as terapias corporais e o psicodrama estavam em destaque. Por um período, os analistas se recolheram nos consultórios. A clínica continua sendo fundamental, mas hoje vivemos um florescimento para além dela, um momento de grande inserção social. Na Sociedade, há grupos ocupados com atendimento à comunidade, psicanalistas que dão suporte a uma ONG que trabalha com meninos de rua, sem falar na atuação em hospitais. Os analistas também atuam cada vez mais no setor jurídico, trabalhando como mediadores e peritos em questões de família, divórcio, guarda de filhos. E podem contribuir muito graças à visão global que têm de situações complexas como interdição, brigas, drogadição, violência doméstica etc.

Como a técnica responde às patologias contemporâneas?
Esse é o grande desafio atual: lidar com fobias, pânico, transtorno bipolar, borderline, os chamados estados narcísicos. Todas essas patologias têm em comum o fato de serem estruturas arcaicas [criadas no início da vida, antes da linguagem e do amadurecimento da psique], ou seja: se instalam antes do mecanismo de repressão. Na neurose, a repressão já está instalada, existem os conflitos psíquicos e, nessa etapa, é possível simbolizar o sofrimento. No caso do pânico, por exemplo, não existe nem esse conflito. Imagine o medo tentando entrar na mente. Sem a parede da censura para barrá-lo, ele a invade. E, como na estrutura arcaica não há possibilidade de simbolização, o que costuma ocorrer são dores e outras manifestações corporais. Os psicanalistas hoje se debruçam sobre esses fenômenos. A Sociedade tem equipes de estudos de fibromialgia, dores crônicas, psicossomática. Há membros da Sociedade pesquisando conexões entre dor física e psíquica.

O senhor é psicanalista e psiquiatra, e há um embate entre essas áreas. O que acha da oferta de remédios que prometem alívio rápido?
O avanço da psicofarmacologia permitiu medicações mais eficientes e com menos efeitos colaterais. Por outro lado, é avassaladora a quantidade de dinheiro investido na indústria de remédios, não só no desenvolvimento científico, e sim na propaganda. A promessa de ªfelicidade químicaº surgiu na década de 80, com o Prozac. Foi questão de tempo para todos descobrirem que não existe pílula de felicidade. Aliás, a psicanálise também não traz felicidade. Nem promete. A psiquiatria clássica perdeu o contato com o ser humano, tenta encaixá-lo numa lista de sintomas pré-estabelecidos. O resultado é que muitos psiquiatras diagnosticam a tristeza como depressão. Isso é um desvio, não é o caso de se medicalizar tudo.

É possível medir os resultados de uma análise?
A psicanálise promove transformações significativas. Existe um grupo em Boston que está pesquisando mudanças psíquicas. Esse grupo estudou pessoas que consideravam que suas análises tinham sido bem-sucedidas. Elas destacaram a vivência de uma comunicação profunda com seus analistas e “insights” que alteraram a percepção de si e das situações. Comparo os “insights” da análise ao sistema olfativo: sentir um aroma novo não significa só adicioná-lo ao repertório conhecido, e sim alterar o circuito de tal modo que, a partir daí, o próximo odor será recebido de forma diferente, porque toda a estrutura do arquivo foi modificada.

Por que a profissão não é reconhecida pelo Ministério da Educação?
Na década de 50, foi oferecido à SBPSP a possibilidade de se oficializar a profissão e a formação, mas esse caminho não foi adotado. Na minha opinião, por um erro de cálculo, mas nem todos concordam comigo. Muitos acham que não é o Estado que tem que reconhecer nossa profissão, e sim as próprias instituições psicanalíticas.

  • DÉBORAH DE PAULA SOUZA é jornalista com formação em psicanálise

JONATHAN FRANZEN

Um dos grandes fatores irritantes da tecnologia moderna é que, quando alguma novidade tecnológica faz minha vida ficar sensivelmente pior e continua a encontrar maneiras novas e diferentes de me causar problemas, sou autorizado a me queixar dela por apenas um ano ou dois, antes que os marqueteiros do “cool” comecem a me mandar parar com isso -vovô, a vida hoje em dia é assim mesmo!
Não sou contra as novidades tecnológicas. A secretária eletrônica digital e a identificação do número de telefone de quem liga para você -que, juntas, acabaram com a tirania do telefone tocando- me parecem ser duas das invenções realmente importantes do final do século 20.
E como amo meu BlackBerry, que me permite responder a e-mails longos e indesejados com algumas linhas telegráficas ofegantes pelas quais, mesmo assim, o destinatário é obrigado a sentir-se grato, já que as escrevi com meus polegares. A privacidade, para mim, não quer dizer manter minha vida pessoal escondida de outras pessoas.
Os avanços tecnológicos com os quais tenho problema são os insultos que continuam a insultar, as dores do passado que continuam a provocar dor.
A TV dos aeroportos, por exemplo: parece que é assistida ativamente por não mais que 1 viajante em cada 10 (a não ser que estejam exibindo futebol), mas incomoda ativamente os outros nove.
Ano após ano, em um aeroporto após o outro, ela é responsável por uma diminuição pequena, mas aparentemente permanente, na qualidade de vida do viajante médio.
Outro exemplo: a obsolescência planejada de grandes softwares e sua substituição por softwares ruins. Ainda não me conformo com o fato de que o melhor processador de texto já escrito, o WordPerfect 5.0 para DOS, não funcione mais em nenhum computador que eu possa comprar hoje.
Mas essas são apenas irritações menores. O avanço tecnológico que causou danos duradouros de importância social real -e que, apesar de continuar a fazê-lo, faz você correr o risco de ser ridicularizado se se queixar dele publicamente hoje- é o telefone celular.

Cigarro e celular
Há dez anos, Nova York (onde vivo) era repleta de espaços públicos mantidos coletivamente em que os cidadãos demonstravam respeito por sua comunidade, não a obrigando a tomar conhecimento de suas vidas amorosas banais.
O mundo de dez anos atrás ainda não tinha sido totalmente dominado pela verborréia. Ainda era possível ver o uso de Nokias como uma ostentação ou afetação de ricos. Ou, sob uma óptica mais tolerante, como um mal, uma deficiência ou uma muleta.
Afinal, na Nova York do final dos anos 1990, a transmissão de cultura da nicotina para cultura do celular ainda estava em processo. Num dia o volume no bolso da camisa era um maço de Marlboro; no dia seguinte, era um Motorola.
Um dia a garota bonita, vulnerável por estar desacompanhada, estava ocupando suas mãos, sua boca e sua atenção com um cigarro; no dia seguinte, ocupava-o com uma conversa muito importante com uma pessoa que não era você.
Num dia uma multidão se reunia em torno do primeiro adolescente no playground a carregar um maço de cigarros; no dia seguinte, se reunia em volta do primeiro a ostentar uma tela colorida.
Num dia, os viajantes acendiam seus isqueiros assim que desciam do avião; no dia seguinte, estavam discando números em seus celulares.
Dependências de um maço de cigarros por dia viraram contas mensais de US$ 100. A poluição por fumaça virou poluição sonora.
E, apesar de o fator irritante ter mudado da noite para o dia, o sofrimento imposto a uma maioria contida por uma minoria compulsiva, em restaurantes, aeroportos e outros espaços públicos, continuou a ser uma constante estranha.
Em 1998, pouco depois de abandonar o cigarro, eu ficava sentado no metrô, observando outros passageiros abrirem e fecharem seus celulares, nervosos, ou mastigarem as antenas (que lembravam tetas e que todos os telefones tinham à época) ou então simplesmente segurarem firme seus telefones, como se estivessem agarrando as mãos de suas mães, e sentia algo como compaixão por eles.

Sem resistência
Ainda me parecia ser questionável até onde iria a tendência: se Nova York queria realmente virar uma cidade de viciados em telefone, perambulando pelas ruas como sonâmbulos, envoltos em pequenas nuvens pegajosas de vida privada, ou se a noção de um eu público mais contido conseguiria prevalecer.
É desnecessário dizer que não houve disputa nenhuma. O celular não foi uma daquelas novidades modernas, como o Ritalin [nome comercial do metilfenidato] ou os guarda-chuvas extragrandes. Seu triunfo foi rápido e total.
Seus abusos foram lamentados e criticados em ensaios, colunas e cartas a editores diversos e, então, lamentados e criticados com ainda mais contundência quando os abusos pareceram apenas se intensificar, mas foi só isso.
As queixas foram registradas, foram feitos alguns ajustes simbólicos (o “vagão silencioso” nos trens Amtrak, plaquinhas discretas pedindo contenção no uso do celular em restaurantes e academias) e a tecnologia do celular ficou livre para continuar a provocar seus danos sem medo de ser alvo de mais críticas, porque novas críticas seriam antiquadas e nada “cool”, vovô.
Mas o simples fato de o problema já ser familiar não significa que o vapor metafórico deixe de sair dos ouvidos de motoristas presos atrás de um sujeito que dirige na pista da esquerda, batendo papo ao telefone enquanto se mantém paralelo ao veículo que está na pista mais lenta.
Apesar disso, tudo em nossa cultura comercial diz ao motorista tagarela que ele está com a razão e assinala a todos os outros que estamos errados -que estamos deixando de entrar na onda do programa barato de liberdade, mobilidade e minutos ilimitados.
A cultura comercial nos diz que, se estamos irritados com o motorista tagarela, deve ser porque não estamos nos divertindo tanto quanto ele.
O que há de errado conosco, afinal? Por que não podemos abrir um sorriso e tirar do bolso nossos próprios telefones, com nossos próprios planos de ligações mais baratas para familiares e amigos e começar a nos divertir mais ali mesmo, na pista de rolamento?
As pessoas socialmente retardadas não começam a agir de modo mais adulto de repente, quando os críticos sociais são forçados a silenciar devido à pressão de seus pares. Ficam mais mal-educadas, só isso.

Fila do caixa
Uma praga nacional de hoje que só vem se agravando é a do cliente que continua absorto num telefonema enquanto efetua uma compra em um caixa de um supermercado ou em uma loja.
A combinação típica em meu bairro, em Manhattan, envolve uma jovem branca, recém-graduada de alguma escola cara, e uma mulher local, negra ou hispânica, de aproximadamente a mesma idade, mas que teve menos vantagens na vida.
É claro que é uma vaidade liberal esperar que a caixa interaja com você ou aprecie as exigências de seu trabalho; ela é autorizada a tratá-lo com tédio ou indiferença; na pior das hipóteses, é uma atitude pouco profissional da parte dela.
Mas isso não alivia você de sua própria obrigação moral de reconhecer a existência dela como pessoa.
E, embora seja verdade que algumas caixas e balconistas pareçam não se incomodar em serem ignoradas, uma porcentagem notavelmente maior delas se irrita, se aborrece ou se entristece visivelmente quando uma cliente se mostra incapaz de afastar-se do celular para lhe dedicar pelo menos dois segundos de interação direta.
Desnecessário dizer que a própria infratora, como o motorista tagarela na rodovia, ignora alegremente o fato de estar irritando alguém.
E, em minha experiência, quanto mais longa a fila que se forma atrás dela, maior é a probabilidade de ela pagar sua compra de US$ 1,98 com cartão de crédito.
Existe, é claro, uma conseqüência social positiva do agravamento desses maus comportamentos. A noção abstrata de espaços públicos civilizados como recursos raros que merecem ser defendidos pode estar praticamente morta, mas ainda é possível encontrar consolo nas comunidades momentâneas e pontuais de sofredores criadas por esses maus comportamentos.
Olhar pela janela de seu carro e ver o vapor metafórico saindo dos ouvidos de outro motorista ou encontrar o olhar da caixa irritada do supermercado e acenar a cabeça, solidarizando-se com ele -essas coisas fazem a gente sentir-se menos só.
É por essa razão que, de todas as variedades cada vez piores de mau comportamento ao celular, aquela que mais profundamente me irrita é a que, pelo fato de não fazer vítimas evidentes, aparentemente não irrita a mais ninguém.
Refiro-me ao hábito -incomum há dez anos, mas hoje onipresente- de encerrar conversas ao celular gritando “amo você!”. Ou, ainda mais opressivo e exasperador, “eu te amo!”. Isso faz sentir vontade de me mudar para a China, onde não entendo a língua que as pessoas falam. Me dá vontade de gritar.

Imposição pessoal
O componente celular de minha irritação é simples e direto.
Simplesmente não quero -enquanto estou comprando meias na Gap ou na fila para comprar um ingresso e me ocupando com meus pensamentos pessoais ou tentando ler um romance num avião quando o embarque ainda não foi encerrado- ser arrastado em minha imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo.
A própria essência do que é tão desagradável no celular como fenômeno social é que ele possibilita e incentiva o ato de impor o pessoal e individual ao público e comunal.
E não existe declaração de mais alto calibre que “eu te amo” -não há nada pior que um indivíduo possa impor a um espaço público comum. Mesmo “vá à merda, imbecil!” é menos invasivo, na medida em que é o tipo de coisa que pessoas iradas às vezes gritam em público e que pode igualmente bem ser dirigido a um estranho.
Minha amiga Elisabeth me assegura que a nova praga nacional do “amo você” é uma coisa boa -uma reação saudável contra a dinâmica familiar reprimida de nossas infâncias protestantes de algumas décadas atrás.
O que pode haver de errado, diz Elisabeth, em você dizer a sua mãe que a ama ou ouvir dela que o ama? E se um de vocês dois morrer antes que vocês possam voltar a se falar? Não é bom que possamos nos dizer essas coisas com tanta liberdade hoje em dia?
Vou admitir a possibilidade de que, comparado a todas as outras pessoas no aeroporto, eu seja uma pessoa extraordinariamente fria e pouco amorosa; que a sensação repentina e avassaladora de amar alguém (um amigo, cônjuge, pai, mãe ou irmão) -que para mim é uma sensação tão importante e única que faço questão de não desgastar pelo uso a frase que melhor a expressa- é para outras pessoas tão comum e corriqueira que pode ser revivida e reexpressa muitas vezes em um único dia sem perda significativa de seu poder.
Entretanto, também é possível que a repetição habitual e excessivamente freqüente esvazie frases de seu significado.
[A cantora canadense] Joni Mitchell, em “Both Sides Now”, falou do espanto solene de poder dizer “eu te amo” “em voz alta”: de dar à luz vocalmente uma intensidade tão grande de sentimento. Stevie Wonder, em letra escrita 17 anos depois, canta sobre telefonar a alguém numa tarde qualquer simplesmente para dizer “eu te amo”.

Confirmação
E, pelo fato de ser Stevie Wonder (que provavelmente, de fato, é uma pessoa mais amorosa que eu), mais ou menos consegue me fazer acreditar em sua sinceridade -pelo menos até o último verso do refrão, em que acha necessário acrescentar: “E digo isso do fundo do meu coração”.
Nenhuma confirmação desse tipo seria cogitada por alguém que realmente dissesse algo do fundo de seu coração.
E assim, quando estou comprando minhas meias na Gap e a mãe que está na fila atrás de mim berra “eu te amo!” em seu pequeno telefone, não posso deixar de sentir que algo está sendo representado, sobre-representado, representado publicamente, imposto em tom desafiador.
Sim, muitas coisas domésticas são gritadas em público que não se destinam realmente ao consumo público; sim, as pessoas se deixam levar. Mas a frase “eu te amo” é demasiado importante e carregada, e seu uso como despedida é demasiado consciente para que eu possa acreditar que estou sendo forçado a ouvi-la por acaso.
Se a declaração de amor da mãe tivesse peso genuíno, reservadamente emocional, ela não tomaria pelo menos um pouco de cuidado para protegê-la de ser ouvida publicamente?
Se estivesse de fato falando a sério, do fundo de seu coração, não seria obrigada a dizê-lo em voz baixa? Sendo um estranho que a ouve dizê-la por acaso, tenho a sensação de ser convertido em participante de uma afirmação agressiva de direitos.
Ou será que eu, em minha irritação, que, admito, já começa a soar lunática, estou simplesmente projetando tudo isso?
O telefone celular chegou à maioridade em 11 de setembro de 2001. Ficou gravada em nossa consciência coletiva naquele dia a imagem de celulares como canais de expressão de intimidade pelos desesperados.
Em cada “eu te amo” dito em voz demasiado alta hoje em dia, assim como na orgia nacional mais generalizada de conectividade -o imperativo de pais e filhos se comunicarem pelo telefone uma, duas, cinco ou dez vezes por dia-, é difícil não ouvir um eco daqueles “eu te amos” terríveis, dolorosos, de partir o coração, inteiramente apropriados, ditos nos quatro aviões e naquelas duas torres fadados à destruição. E é precisamente esse eco, o fato de ser um eco, o sentimentalismo dele, que tanto me irrita.

As duas torres
Minha própria experiência do 11 de Setembro foi anômala devido à ausência de televisão. Às 9h recebi um telefonema do editor de meus livros, que, da janela de seu escritório, acabara de ver o segundo avião chocar-se com as torres.
Fui imediatamente à TV mais próxima, na sala de conferências da imobiliária situada no térreo de meu edifício e, ao lado de um grupo de corretores, assisti à queda de primeiro uma das torres e depois da outra.
Mas, então, minha namorada voltou para casa e passamos o resto do dia ouvindo o rádio, acompanhando os fatos pela web, tranqüilizando nossas famílias e assistindo da cobertura de nosso prédio e do meio da avenida Lexington (que ficou repleta de pedestres), enquanto a poeira e a fumaça da parte baixa de Manhattan se espalharam, formando uma nuvem nauseante que cobriu tudo.
À noite, percorremos a rua 42, encontramos um amigo que mora fora da cidade e descobrimos um restaurante italiano na rua 40 que estava servindo jantar. As mesas estavam cheias de pessoas bebendo muito; o clima era de tempos de guerra.
Sentados num trem da estação Grand Central, esperando que partisse, observamos um passageiro nova-iorquino queixando-se com um cobrador, irado, sobre a falta dos trens expressos para o Bronx.
Três noites depois, das 23h até quase 3h, fiquei sentado numa sala gélida da ABC News, de onde podia ver o também nova-iorquino David Halberstam e falar por vídeo com Maya Angelou e alguns outros escritores de fora da cidade, enquanto aguardávamos para dar a Ted Koppel [então âncora no canal] uma perspectiva literária dos ataques da manhã da terça.
A espera não foi curta. Imagens dos ataques e cenas da queda das torres e dos incêndios subseqüentes foram exibidas repetidas vezes, intercaladas com longos segmentos sobre o preço emocional cobrado dos cidadãos comuns e de seus filhos impressionáveis.
De quando em quando, um ou dois de nós, escritores, tínhamos 60 segundos nos quais dizer algo em tom próprio de escritor, antes de a cobertura voltar a mostrar mais carnificina e entrevistas arrasadoras com amigos e familiares dos mortos e desaparecidos.

O não visto
Falei quatro vezes em três horas e meia. Na segunda vez, pediram-me para confirmar relatos segundo os quais os ataques da terça-feira teriam modificado profundamente a personalidade dos nova-iorquinos. Não pude confirmar os relatos.
Disse que as expressões que vi nos rostos das pessoas eram sombrias, não enfurecidas, e contei que vi pessoas fazendo compras nas lojas de meu bairro na tarde da quarta-feira, comprando roupas de outono.
Em sua resposta, Ted Koppel deixou claro que eu falhara na tarefa que passara metade da noite esperando para desempenhar. Franzindo o cenho, disse que sua própria impressão era muito diferente: que os ataques haviam de fato mudado profundamente a personalidade de Nova York.
Naturalmente, achei que estava falando a verdade e presumi que Koppel estivesse apenas retransmitindo opiniões recebidas de outros. Mas Koppel estivera assistindo à TV, e eu não.
Eu não entendera que o pior dano ao país estava sendo feito não pelo patógeno, mas pela maciça reação contrária exagerada do sistema imunológico, porque eu não tinha TV.
Eu estivera comparando mentalmente a contagem de mortos da terça-feira com outras contagens de mortes violentas -3.000 americanos mortos em acidentes de trânsito nos 30 dias que precederam o 11 de Setembro- porque, não tendo visto as imagens, eu pensara que os números eram importantes.
Eu dedicara energia a imaginar, ou resistir a imaginar, o horror de estar sentado ao lado da janela enquanto o avião em que você voava descia sobre a rodovia West Side, ou de estar preso no 95º andar e ouvir a estrutura de aço abaixo de você começar a gemer e ruir, enquanto o resto do país vivia o trauma real, em tempo real, assistindo às mesmas imagens inúmeras vezes repetidas.
Assim, eu não precisei da sessão televisionada nacional de terapia de grupo, a enorme “maratona de abraços” tecnológica que aconteceu nos dias, semanas e meses seguintes em resposta ao trauma da exposição às imagens televisionadas.
O que pude observar foi a repentina, misteriosa e desastrosa sentimentalização do discurso público americano.
E, assim como não posso deixar de colocar a culpa na tecnologia celular quando as pessoas despejam afeto parental ou filial em seus telefones e descortesia sobre todos os estranhos ao alcance de suas vozes, não posso deixar de colocar sobre a tecnologia da mídia a culpa do processo nacional de priorização do pessoal.
Diferentemente de 1941, por exemplo, quando os EUA responderam a um ataque terrível [em Pearl Harbor] com determinação, disciplina e sacrifício coletivos, em 2001 tivemos visuais fantásticos.

Trauma exposto
Tínhamos imagens amadoras e pudemos decompô-las quadro a quadro.
Tínhamos telas com as quais pudemos levar a violência nua e crua para dentro de todos os quartos do país; tínhamos gravações de secretárias eletrônicas que deixaram registrados os telefonemas derradeiros e desesperados dos fadados a morrer; tínhamos psicologia de último tipo para explicar e sanar nosso trauma.
Mas, com relação ao que os ataques realmente significaram e a qual poderia ser uma reação sensata, as atitudes variaram. Esta é a coisa fantástica da tecnologia digital: acabou-se a censura dolorosa dos sentimentos de todo o mundo! Todos têm o direito de expressar suas opiniões!
Assim, a questão de se Saddam Hussein tinha ou não comprado pessoalmente as passagens aéreas dos seqüestradores continuou aberta a discussões acaloradas.
O que foi consenso geral, em lugar disso, foi que os familiares das vítimas do 11 de Setembro tinham o direito de aprovar ou vetar os planos para o memorial a ser erguido no Ponto Zero [onde ficavam as Torres Gêmeas].
E todo mundo pôde compartilhar a dor vivida pelas famílias dos policiais e bombeiros que tombaram. E todos concordaram que a ironia morrera. Depois do 11 de Setembro, a ironia vazia e maléfica dos anos 1990 simplesmente “não era mais possível”; tínhamos ingressado numa nova era da sinceridade.
O lado positivo disso é que os americanos, em 2001, passaram a dizer “eu te amo” a seus filhos com muito mais facilidade do que o haviam feito seus pais ou avós. Mas e no quesito da competição econômica? No esforço conjunto como nação? Em derrotar nossos inimigos? Em formar alianças internacionais fortes? Nesses quesitos, o balanço talvez pese um pouco para o negativo. Meus pais se conheceram dois anos depois de Pearl Harbor, no outono de 1943, e poucos meses depois já estavam trocando cartões e cartas.
Meu pai trabalhava para a ferrovia Grand Northern e com freqüência estava na estrada, em cidadezinhas pequenas, inspecionando pontes, enquanto minha mãe permanecia em Minneapolis, trabalhando como recepcionista. Das cartas dele a ela que tenho em minha posse, a mais antiga é do Dia dos Namorados em 1944. Ele estava em Fairview (Montana) e minha mãe lhe enviara um cartão de Dia dos Namorados no mesmo estilo de todos os seus cartões no ano que antecedeu o casamento deles: desenhos de bebês, criancinhas ou filhotes de animais expressando sentimentos doces.

Correspondência
A parte dianteira do cartão (que meu pai também guardou) mostra uma menininha de maria-chiquinha e um menininho corado, cada um olhando para um lado, envergonhados, e com as mãos às costas. “Queria ser uma pedrinha,/ Porque assim, quando ficar velhinha/ Talvez me veja dengosa/ E um pouco mais “corrachosa”.” A resposta de meu pai traz o carimbo postal de Fairview de 14 de fevereiro e diz: “Terça-feira à noite.
Querida Irene, Sinto muito tê-la decepcionado no Dia dos Namorados; eu me lembrei, sim, mas, não tendo conseguido um cartão na farmácia, me senti um pouco tolo pedindo um na mercearia ou na loja de ferragens. Estou certo de que as pessoas aqui já ouviram falar do Dia dos Namorados.
Seu cartão correspondeu perfeitamente à situação aqui, e não sei se foi intencional ou acidental, mas acho que devo, sim, ter lhe falado de nossos problemas com as rochas. Hoje ficamos sem pedras para trabalhar, então meu desejo é de pedras pequenas, pedras grandes ou qualquer outro tipo de pedra, já que não há nada a fazer enquanto não conseguirmos pedras.
Já há pouco para eu fazer quando o empreiteiro está trabalhando, e agora não há absolutamente nada. Hoje caminhei até a ponte em que estamos trabalhando, apenas para matar tempo e fazer um pouco de exercício; é uma distância de seis quilômetros, longe o suficiente, com um vento forte me fustigando. Se não conseguirmos pedras pela manhã, ficarei sentado aqui mesmo, lendo filosofia; não me parece correto que eu seja pago por passar meu dia dessa maneira.
Mais ou menos o único outro passatempo que existe por aqui é ficar sentado no saguão do hotel ouvindo as fofocas da cidade, e os velhos que freqüentam o lugar não medem as palavras. Você acharia divertido, porque há uma amostra ampla da vida humana representada aqui, desde o médico local até o bêbado da cidade. E este último é provavelmente o mais interessante: ouvi dizer que ele chegou a lecionar na Universidade de N.D. no passado, e realmente parece ser uma pessoa bastante inteligente, mesmo quando está bêbado.
Normalmente as conversas são bastante grosseiras, mais ou menos como as que Steinbeck [escritor norte-americano, autor de “As Vinhas da Ira’] deve ter usado como ponto de partida, mas nesta noite entrou no saguão uma mulher muito grande que se colocou totalmente à vontade. Isso me faz perceber como é protegida a vida que vivemos, nós, moradores da cidade grande. Cresci numa cidade pequena e me sinto à vontade aqui, mas hoje parece que vejo as coisas sob uma óptica diferente. Escreverei mais sobre isso.
Espero estar de volta a St. Paul no sábado à noite, mas ainda não sei ao certo. Telefonarei a você quando voltar. Com todo meu amor Earl” Meu pai completara 29 anos pouco antes disso. É impossível saber como minha mãe, em sua inocência e em seu otimismo, recebeu a carta dele na época, mas, de modo geral, considerando a mulher que eu cresci conhecendo, posso afirmar que essa não era em absoluto a espécie de carta que ela teria gostado de receber de seu par romântico.
O trocadilho bonitinho de seu cartão de Dia dos Namorados interpretado literalmente como referência a lastro de ferrovia? E ela, que passara a vida inteira procurando distanciar-se do bar de hotel em que seu pai trabalhara como barman, poderia divertir-se ouvindo a “conversa grosseira” do bêbado da cidade? Onde estavam as expressões de ternura? As palavras sonhadoras de amor? Era evidente que meu pai ainda tinha muito a aprender sobre ela.
A mim, entretanto, a carta dele parece repleta de amor. Amor por minha mãe, com certeza; tentou encontrar um cartão de Dia dos Namorados para ela, leu sua carta com cuidado, deseja que estivesse a seu lado, tem idéias que quer dividir com ela, está lhe enviando todo seu amor e diz que lhe telefonará assim que retornar.
Mas também amor pelo mundo mais amplo: pelos diversos tipos de pessoas que o habitam, pelas cidades pequenas e grandes, por filosofia e literatura, pelo trabalho duro e o pagamento justo, pela conversa, pela reflexão, por longas caminhadas ao vento, por palavras escolhidas com cuidado e ortografia perfeita. A carta me lembra das muitas coisas que eu amava em meu pai -sua decência, sua inteligência, seu humor inesperado, sua curiosidade, sua probidade, sua reserva e dignidade.
Apenas quando a coloco ao lado do cartão de Dia dos Namorados de minha mãe, com suas criancinhas de olhos grandes e sua preocupação com o puro sentimento, é que minha atenção se volta às décadas de desapontamento mútuo que se seguiram aos primeiros anos de felicidade quase cega deles. Mais tarde, minha mãe se queixaria comigo, dizendo que meu pai nunca lhe dissera que a amava. E talvez seja verdade, literalmente, que ele nunca proferiu as três palavras grandes -eu, com certeza, nunca o ouvi fazendo isso.
Mas não é verdade, definitivamente, que nunca escreveu as palavras.

O não dito
Uma razão pela qual levei anos para criar coragem de ler a correspondência antiga que trocaram é que a primeira carta de meu pai que li, após a morte de minha mãe, começava com uma expressão de carinho (“Irenie”) que eu nunca o ouvi pronunciar nos 35 anos durante os quais o conheci e terminava com uma declaração (“eu te amo, Irene”) que era mais do que eu pude suportar ver. Não soava nada como ele, e por isso guardei todas as cartas num baú no sótão da casa de meu irmão.
Recentemente, quando as recuperei e consegui lê-las, descobri que meu pai de fato declarou seu amor dúzias de vezes, usando as três palavras grandes, tanto antes quanto depois de casar-se com minha mãe. Mas é possível que, mesmo naquela época, tenha sido incapaz de pronunciar as palavras em voz alta e talvez tenha sido por isso que, na memória de minha mãe, ele nunca as “dissera”. Também é possível que suas declarações escritas tenham soado tão estranhas a sua personalidade nos anos 1940 como soam a mim, hoje, e que minha mãe, em suas queixas, se recordasse de uma verdade mais profunda oculta sob as palavras aparentemente afetuosas dele. “Both Sides Now”, na versão de Judy Collins, foi a primeira canção pop a ficar gravada em minha cabeça.
Era tocada constantemente no rádio quando eu tinha oito ou nove anos, e sua referência a declarar seu amor “em alto e bom som”, somada à paixonite que eu nutria por sua voz, ajudou a fazer com que, para mim, o sentido primeiro de “eu te amo” fosse sexual.
Acabei vivendo os anos 1970 e me tornando capaz de, em raros acessos de emoção, dizer a meus irmãos e melhores amigos homens que os amava. Mas, durante todo o ensino fundamental, essas palavras tiveram um sentido para mim, e um sentido apenas. “Eu te amo” era o que eu queria ver rabiscado num bilhetinho da garota mais bonita da classe ou ouvir sussurrado nos bosques no piquenique da escola. Naqueles anos, aconteceu apenas duas vezes de uma garota de que eu gostasse de fato me dizer ou escrever isso. Mas, quando aconteceu, foi uma injeção de pura adrenalina.
Mesmo depois de ir à faculdade e começar a ler [o poeta] Wallace Stevens, descobrindo-o zombando, em “Le Monocle de Mon Oncle”, de pessoas como eu, que procuravam o amor indiscriminadamente -“Se o sexo fosse tudo, então cada mão trêmula/ seria capaz de nos fazer gemer, como bonecos, as palavras tão ansiadas”-, aquelas palavras tão ansiadas continuaram a evocar o abrir de uma boca, a oferta de um corpo, a promessa de intimidade inebriante. Assim, era muito constrangedor pra mim que a pessoa de quem eu ouvia essas palavras constantemente fosse minha própria mãe.
Era a única mulher em uma casa de homens e vivia com um excesso tão grande de sentimentos sem reciprocidade que não podia deixar de buscar expressões românticas.
Eu também As cartas e as palavras de ternura que derramava sobre mim eram idênticas em espírito às que derramara sobre meu pai no passado. Muito tempo antes de eu nascer, meu pai já passara a enxergar suas expressões de sentimento como insuportavelmente infantis. Sobrevivi a muitos períodos de minha infância, as longas semanas durante as quais nós dois estávamos sozinhos em casa, me agarrando a distinções cruciais de intensidade entre as frases “eu te amo”, “também te amo” e “amo você”.
O crucial era nunca, jamais dizer “eu te amo” ou “eu te amo, mamãe”. A alternativa menos difícil era um “te amo” resmungado, quase inaudível. Mas “também te amo”, se pronunciado com rapidez suficiente e com ênfase suficiente no “também”, que deixava subentendida uma reciprocidade obrigatória, garantiu minha passagem por muitos momentos de constrangimento. Não me recordo se ela me repreendeu especificamente por eu resmungar ou me deu bronca quando (como às vezes acontecia) eu era incapaz de responder com qualquer coisa senão um grunhido evasivo.
Mas tampouco me disse, em momento nenhum, que dizer “eu te amo” era simplesmente algo que gostava de fazer porque seu coração estava cheio de sentimento e que eu não deveria me sentir obrigado a dizer “eu te amo” de volta a cada vez. E assim, até hoje, quando sou agredido por alguém gritando “eu te amo” no celular, ouço como coerção. Meu pai, apesar de escrever cartas repletas de vida e curiosidade, não viu nada de errado em relegar minha mãe a quatro décadas encerrada em casa, cozinhando e fazendo a faxina, enquanto curtia seu trabalho lá fora, no mundo dos homens.
Parece ser a regra, tanto no mundinho pequeno do casamento quanto no grande mundo da vida americana, que aqueles que não têm vida ativa no trabalho têm sentimentalismo -e vice-versa. As várias histerias do pós-11 de Setembro, tanto a praga dos “eu te amos” quanto os amplamente disseminados medo e ódio dos “cabeças de turbante”, foram histerias daqueles que não tinham poder, que se sentiam dominados. Se minha mãe tivesse desfrutado de mais possibilidades de auto-realização, talvez tivesse medido seus sentimentos de modo mais realista, adequando-os a seus objetos.

Respeito ao público
Por mais frio, reprimido ou sexista que meu pai possa parecer, pelos padrões contemporâneos, eu me sinto grato pelo fato de nunca ter me declarado abertamente que me amava. Meu pai amava a privacidade -ou seja, respeitava a esfera pública. Acreditava na contenção, no protocolo, na razão, porque, sem eles -acreditava- , seria impossível uma sociedade debater e tomar as decisões que melhor atendessem a seus interesses.
Talvez tivesse sido agradável, especialmente para mim, se ele tivesse aprendido a demonstrar mais seus sentimentos por minha mãe. Mas cada vez que ouço hoje em dia um daqueles “eu te amos” parentais berrados ao celular, me sinto um homem de sorte por ter tido o pai que tive. Ele amava seus filhos mais do que tudo.
E saber que ele sentia isso, mas não sabia declará-lo; saber que ele podia confiar que eu sabia disso e não esperava que ele o declarasse -esse era o próprio núcleo central do amor que eu sentia por ele. Amor esse que eu, por minha vez, tomei o cuidado de nunca declarar em voz alta a ele. Mas essa foi a parte fácil. Entre mim e a situação em que meu pai está agora -ou seja, morto-, nada pode ser transmitido, exceto o silêncio. Ninguém tem mais privacidade que os mortos.
Hoje meu pai e eu não nos dizemos muito menos do que nos dissemos em muitos dos anos em que ele viveu. A pessoa de quem eu me descubro sentindo saudades -discutindo mentalmente com ela, querendo mostrar coisas a ela, querendo que viesse conhecer meu apartamento, zombando dela, sentindo remorsos em relação a ela- é minha mãe. A parte de mim que se irrita com as intromissões dos celulares vem de meu pai. A parte de mim que ama meu BlackBerry e quer ficar mais leve e fazer parte do mundo vem de minha mãe. Era a mais moderna dos dois e, embora ele -e não ela- fosse a pessoa que trabalhava fora, ela acabou do lado vencedor.
Se ainda estivesse viva e vivendo em St. Louis e se você, por acaso, estivesse sentado ao meu lado no aeroporto, aguardando um vôo para Nova York, talvez fosse exposto à provação de me ouvir dizendo a ela que a amava.
Mas eu falaria em voz baixa.

JONATHAN FRANZEN é romancista norte-americano, autor de “As Correções” (Cia. das Letras), entre outros livros. A íntegra deste texto saiu na revista “Technology Review”.
Tradução de Clara Allain.

 

 

Contardo Calligaris

Em geral, a gente casa com a pessoa certa: com quem podemos culpar por nossos fracassos

UMA DAS boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.
O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: “Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer”.
Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas.
Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza -como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento.
As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar.
Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento.
Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.
Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho.
Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação (“É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos”), ouve-se: “Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos”.
Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa “certa”: a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.
Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados “por causa do outro”, mas pelas “cobranças”, que, elas sim, podem se revelar insuportáveis.
Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café – logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália.
Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência.
À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) “causa” de minha desistência e razão de meu “sacrifício”: “Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo.” Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma -nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.
O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil.

O problema é a rotina de quem trabalha e cria filhos ou o desejo louco de viver outra vida?

ÀS VEZES, conversava com meu pai sobre sonhos que eu acalentava e que implicariam mudanças grandes na minha vida.
Ele me escutava e, em geral, concluía: “Só que não basta sonhar, é preciso ter coragem”. Em suma, havia uma infelicidade específica que ele não queria para mim, a de quem cultiva seus desejos como se fossem “apenas um sonho”, sem ter a ousadia de tentar vivê-los. É por isso que não achei ruim o título em português que foi escolhido para o novo filme de Sam Mendes e para o grande romance que o inspira, de Richard Yates (de 1961, agora traduzido pela editora Alfaguara): “Foi Apenas um Sonho”.
O título original de ambos era “Revolutionary Road” (rua da revolução). Não é raro que, nos pacatos subúrbios americanos de classe média, o nome de uma rua lembre a revolução pela qual os EUA se constituíram independentes e republicanos. Por uma ideia e um futuro de liberdade, os revolucionários de 1776 arriscaram tudo, apostaram “sua vida, sua fortuna e sua honra sagrada”. E o título original de Yates perguntava (ironicamente) se algo daquela coragem sobraria num subúrbio dos anos 50, em que quase todos, como Frank e April, o casal do livro e do filme, vivem sorrindo ou fazendo de conta, embora convencidos de que a vida deveria trazer outras aventuras.
Poucos anos depois da história de April e Frank, aliás, uma nova geração fez outra revolução -desta vez, em nome dos desejos silenciados. Seu moto, inventado por Jerry Rubin (estranha cumplicidade entre ele e meu pai), foi “Do it!”, faça-o, ou seja: “Seja lá o que for, não deixe que fique apenas um sonho”. Mas voltemos ao tema central do livro e do filme, ou seja, digamos assim, à suposta covardia do desejo.
Para começar, uma curiosidade: eu tinha a sensação de já ter escrito sobre o romance de Yates, mas não sabia quando. Graças ao Google, descobri que, em 1999, na bibliografia de meu livro “Adolescência” (Publifolha), eu citava “Revolutionary Road”, de Richard Yates, como “um dos maiores romances americanos do pós-guerra”, “em que a monotonia da vida suburbana se torna intolerável por causa da urgência de interromper a rotina adulta para poder “se achar'”.
Na época, o livro não existia em português, e eu sugeria que quem não pudesse lê-lo em inglês recorresse ao filme “Beleza Americana”, de Sam Mendes, cuja “personagem principal é um herdeiro direto do herói de Yates”. Palavras proféticas: logo Sam Mendes acabou adaptando o romance de Yates.
Agora, a inspiração no romance de Yates torna “Foi Apenas um Sonho” um filme menos caricatural e mais tocante do que “Beleza Americana”.
De onde vem a infelicidade de Frank e April? Tudo bem, April esperava ser atriz e não é (talvez por falta de talento). Quanto a Frank, ele não tem nenhuma aspiração concreta. Por que razão, então, viver numa casa agradável, trabalhando e criando os filhos, levaria a um “vazio sem esperança”? Sem esperança de quê?
Claro, na saída do cinema, parece óbvio o destino de quem habita o estereótipo de um cartão-postal: apenas seria possível escolher entre a insatisfação existencial e o kitsch melado no qual vive “feliz”, no filme e no livro, a corretora de imóveis.
Mas paira no ar uma pergunta: e se o problema não fosse o sossego da Revolutionary Road, mas o próprio desejo insano de viver outra vida? A insatisfação abstrata que assombra April e Frank é o cemitério do amor. A escolha de DiCaprio e Winslet (excelentes) parece querer nos contar o que teria acontecido se DiCaprio tivesse sobrevivido ao naufrágio do Titanic: a vida do casal se tornaria uma misteriosa prisão, em que o cotidiano imporia renúncias covardes a sonhos e desejos “livres”.
Mas a qual liberdade eles renunciariam? Nada a ver com a que preocupava os revolucionários de 76: é a liberdade de ir viver em Paris. Sarcasmo: a “loucura” é tão enlatada quanto a realidade. Mais um detalhe. É April que exige de Frank uma coragem sem a qual talvez ela deixe de amá-lo e de reconhecê-lo como (seu) homem. A “trivialidade” das conquistas profissionais não basta; Frank deve inventar outros desejos (que, na verdade, ele mal tem). April se torna assim uma representante feroz daquelas expectativas monstruosas com as quais qualquer homem lida como pode -as expectativas maternas: “Seja extraordinário, meu filho”.
Tudo bem, serei extraordinário, mas como? Pois é, caro Frank, ser homem não é mole.

 

JERUSALÉM – O Estado de S.Paulo

Dois mil anos após terem sido escritos e décadas após terem sido encontrados por beduínos em cavernas no Deserto da Judeia, trechos dos célebres Manuscritos do Mar Morto foram publicados ontem na internet pela primeira vez, em uma parceria do Museu de Israel e do Google.

No endereço dss.collections.imj.org.il, pode-se observar cinco manuscritos diferentes. Ao clicar nos versículos, uma pequena janela se abre com a tradução para o inglês. Até 2016, todos os fragmentos conhecidos devem estar online.

Os manuscritos originais estão guardados em um cofre, dentro de um edifício construído especificamente para abrigá-los. O acesso depende de três chaves, um cartão magnético e uma senha secreta.

Especula-se que eles foram escritos por uma seita judaica ascética que se estabeleceu em Qumran, nas margens do Mar Morto. As centenas de manuscritos que sobreviveram, parcialmente ou na íntegra, jogam luz sobre o desenvolvimento da bíblia hebraica e as origens da cristandade. Os cinco exemplares publicados no site estão entre os mais bem conservados. 

A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir

DURANTE TODA minha infância, eu dizia “não” mesmo quando queria dizer “sim”.
Usava o não como uma palavra de apoio, uma maneira de começar a falar. Minha mãe: “Vou sair para fazer compras; algo que você gostaria para o jantar?”. Eu, enérgico: “Não”, acrescentando imediatamente: “Sim, estou a fim de ovos fritos (ou sei lá o quê)”.
Os adultos tentavam me corrigir: “Então, é sim ou não?”. “Não, é sim”, eu respondia.
Entendi esse meu hábito muito mais tarde, quando li “O Não e o Sim”, de René Spitz (ed. Martins Fontes). No fim da faculdade, Spitz era um dos meus autores preferidos, o único, ao meu ver, que conciliava a psicanálise com o estudo experimental do desenvolvimento infantil. No livro, pequeno e crucial, Spitz nota que, nas crianças, o uso do “não” aparece por volta do décimo oitavo mês de vida, logo quando elas costumam falar de si na terceira pessoa, como se precisassem (e conseguissem, enfim) se enxergar como seres distintos dos outros.
Para Spitz, a aquisição da capacidade de dizer “não” é um grande evento da primeira época da vida: a conquista da primeira palavra que serve para dialogar e não só para designar um objeto. Mas, cuidado, especialmente no segundo ano de vida, o “não” teimoso da criança não significa que ela discorde do que está lhe sendo proposto ou imposto: a criança diz “não” para afirmar que, mesmo ao concordar ou obedecer, ela está exercendo sua própria vontade, a qual não se confunde com a do adulto.
Em suma, durante muito tempo, eu persisti na atitude de meus dois anos. Mais tarde, consegui me corrigir. Mas em termos; sobrou-me uma paixão pelas adversativas: mal consigo dizer “sim” sem acrescentar um “mas” que limita meu consentimento. É um jeito de dizer que aceito, mas minha aceitação não é incondicional. “Vamos ao cinema?”. “Sim, mas à noite, não agora.”
O uso do sim e do não, no discurso de cada um de nós, pode ser um indicador psicológico valioso. Mas, para isso, é preciso distinguir entre “sim” e “não” “objetivos”, que têm a ver com a questão da qual se trata (quero ou não tomar café ou votar nas próximas eleições), e “sim” e “não” “subjetivos”, que são abstratos, ou seja, que expressam uma disposição de quem fala, quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado.
Se o “não” subjetivo é um grito de independência, o “sim” subjetivo é uma covardia, consiste em concordar para evitar os inconvenientes de uma negativa que aborreceria nosso interlocutor.
Alguns exemplos desse “sim” covarde (e, em geral, objetivamente mentiroso). “Respondeu à minha carta?” “Sim, já mandei.” “Gostou de minha performance?” “Sim, adorei.” “Quer me ver de novo?” “Sim, te ligo amanhã.” Mas também: “Você vai assinar a petição para expulsar os judeus do ensino público?” “Claro, claro, estou assinando.”
Acontece que dizer “não” é arriscado. A confusão com o outro, aquela confusão que ameaça a primeira infância e contra a qual se erguia nosso “não” abstrato e rebelde, é substituída, com o passar do tempo, por mil dependências afetivas: “Desde os meus dois anos, não sou você, não me confundo com você, existo separadamente, mas, se eu perder seu amor (sua amizade, sua simpatia, sua benevolência), quem reconhecerá que existo? Será que posso existir sem a aprovação dos outros?”.
Em suma, o sim subjetivo é um consentimento abstrato (o objeto de consenso é indiferente e pode ser monstruoso), pois o que importa é agradar ao outro, não perder sua consideração. A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir.
Por sua vez, nossa covardia fomenta explosões negativas, tanto mais violentas quanto mais nossa concordância foi preguiçosa. À força de dizer “sim” para que o outro goste de mim, eu corro o perigo de me perder e, de repente, posso apelar à negação abstrata, espalhafatosa e violenta, só para mostrar que não me confundo com o outro, penso com a minha cabeça.
Bom, Spitz tinha razão, o uso do não e do sim permitem o diálogo humano. Mas é um diálogo que (sejamos otimistas) nem sempre tem a ver com as questões que estão sendo discutidas; ele tem mais a ver com uma necessidade subjetiva: digo “não” para me separar do outro ou digo “sim” para obter dele um olhar agradecido. Nos dois casos, tento apenas alimentar a ilusão de que existo.

Contardo Calligaris