Texto raro de Moustapha Safouan extraíso da também rara publicação “Ensaios de psicanálise para o desenvolvimento de uma prática editorial” nº 2 da Bahia. Este texto foi elaborado em ocasião da morte de Jacques Lacan em 1981. Tradução M.P. Silva

“Para o obreiro que segue Freud nos caminhos que ele abriu, as ‘teorias’ do Dr. Jacques Lacan são as consequências rigorosas de algumas constatações cuja evidência se impõe uma vez que sejam feitas.

Primeira constatação: a psicanálise é uma experiência do discurso. Segunda constatação, sem a qual a primeira seria trivial: o sonho (como o sintoma, ou qualquer outra formação do insconsciente) significa.

Ora, a menos que se imagine que o incosnciente sabe os pensamentos que assim se significam (o que retira todo o alcance da descoberta de Freud como conquista de um território até então reservado aos deuses), a segunda constatação é de fato a da autonomia do siginificante em relação a todo sujeito suposto saber.

Esta autonomia só causa espanto a um preconceito sem o qual, aliás, seria fácil perceber que a língua existe antes do sujeito, num discurso onde o sujeito já está preso, do qual recebe suas próprias mensagens e que lhe imprime as identificações primárias das quais seus próprios enunciados se sustentam ao nível da enunciação. A se levar em boa conta este aprisionamento do sujeito na cadeia significante, falar é estar dividido naquilo em relação a que o sujeito se constitui como corte; e o inconsciente é a cadeia onde Isso (Id) se articula no que Freud chama “representações do desejo”.

Sem as explicações que devemos ao Dr. Jacques Lacan da diferença entre o desejo e o pedido e da divisão do sujeito que daí decorre, a psicanálise é um delírio. Para se convencer disso basta que o leitor não prevenido se reporte à exposição, ponderada, aliás, que B. A. Farrell nos faz da ‘teoria psicanalítica’ nos primeiros capítulos de seu recentemente editado, ‘The Standing of Psychoanalysis’ (Oxford, 1981).

As teorias do Dr. Lacan se constituem numa relação à psicanálise, isto é, a sua prática. Que dizer de suas relações aos analistas?

Sabe-se que estão marcadas as cisões e exclusões. Mas o leitor talvez não saiba que os estatutos da IPA (International Psychoanalytic Association) definem a psicanálise em termos cujo ridículo salta aos olhos daqueles mesmos que são filiados a esta honorável casa: ‘o termo de psicanálise designa uma teoria da estrutura e da função da personalidade…’ Não sabe tampouco que o artigo 7 desses mesmo estatutos estipula o seguinte: ‘Os organismos oficiais reconhecidos pela Associação não aceitarão nenhum candidato à formação que não se comprometa a conduzir um tratamento psicanalítico nem a se apresentar como psicanalista enquanto não tiver sido autorizado a fazê-lo pelos comitês ou Institutos de formação responsáveis por sua formação’.

Que toda instituição implica, por definição, numa clivagem entre os ‘clientes’ e o ‘poder’, isso se admite. Mas é preciso que esta clivagem não se torne puro abuso. Ora, aqui o abuso é de princípio: pois como fazer do tornar-se analista um negócio de ‘formação’ (termo que Lacan recusava), um encargo da instituição, sem suprimir desde o começo a opção inicial cujo questionamento constitui justamente a razão de ser da análise?

O abuso de princípio se desdobra num abuso de fato. Pois o que Lacan etiquetou sob o termo de ‘cooptação de sábios’ constitui verdadeiramente o único método que regra o acesso ao poder, quer dizer, ao título de ‘titular’ e, mais além, ao de ‘didático’. Que este abuso se alimenta da obscuridade que reina sobre a análise dita ‘didática’, isto é, aquela em que se efetua o tornar-se analista, isso é agora evidente.

Todo o esforço de legislador de Lacan tinha por objetivo dispor alguns princípios (dos quais o primeiro é aquele segundo o qual o psicanalista não se autoriza senão por si mesmo) que põem cobro a esse abuso.

A aplicação desses princípios não foi apenas um fracasso: o fato é que no interior da ex-Escola Freudiana de Paris, fundada por Jacques Lacan, produziram-se alguns analistas que sabem trabalhar verdadeiramente com o insconsciente.

Em todo caso, a novidade essencial das idéias propostas por Lacan era a esperiência do passe: esperiência destinada a esclarecer a questão do tornar-se analista através de testemunhos que os analistas quisessem dar sobre suas próprias análises, e que se justifica pelo fato, demonstrável, que esta questão da passagem à posição de analista só poderia se esclarecer a posteriori (aprés-coup). Esta experiência destinada em suma a fundar a instituição psicanalítica sobre a estrutura mesma da análise didática, e não sobre a rotina, fracassou. Fracassou porque encerrava dificuldades que os analistas da ex-Escola estavam longe de poder dominar: pois que lhes faltava esta experiência mesma para descobrí-las. Em outros termos, deveu-se esse fracasso a razões de fato: não está votado á repetição; não refuta os princípios promovidos por Lacan; e muito menos prova a excelência das regras que estão em curso no establishment analítico, e cuja miséria, a julgar por seus resultados, é reconhecida pelas personalidades melhor colocadas no seio desse próprio establishment.

Além do mais, o fracasso da ex-Escola nos permite desde já tirar algumas conclusões cujo alcance de longe ultrapassa os percalços desta Escola e entre as quais a seguinte não é a menor: não está no poder de um chefe, qualquer que seja seu estilo e mesmo supondo que ele o queira, fazer com que as relações do resto do grupo à sua pessoa sejam diferentes daqueles descritas por Freud.

E Lacan ‘propriamente dito’? Que dizer? Direi isto, que não poderia dizer de um outro: ouvi da boca de Lacan mais palavras esclarecedoras, salubres e memso salutares do que palavras afáveis ou simplesmente inúteis.

‘É preciso suportar tudo!’ disse ele um dia. Agora que ele já não é, é tempo de o lembrarmos.”

Moustapha Safouan

Paris, setembro de 1981

“Em nenhum caso uma intervenção psicanalítica deve ser teórica, sugestiva, quer dizer, imperativa; ela deve ser equívoca.
A interpretação analítica não é feita para ser compreendida; ela é feita para produzir ondas”

Lacan

http://pontolacaniano.wordpress.com/

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