A música, morada do gozo, se encontra no fundo, fundo do inconsciente, como a manifestação privilegiada da arte, que pulsa por todos nós, aliviando as tensões. Essa era a arte de Amy. Sua voz se calou e vimos sua escalada ao templo das divas ser interrompida. Como outros ícones, limitou-se a poucos 27 anos de vida. Acompanhamos os escândalos e a degradação, em todas as esferas, em sua relação com a sociedade. Por ironia ou consequência, Amy prenunciava no próprio nome familiar – Winehouse – sua saga com a substância entorpecente e com a vida. Nesse descaminho, refletiu na sua criação Rehab a inconsistência da reabilitação nos moldes em que vinha sendo realizada, apontando sua dor para a insuficiência paterna em não intervir tão efetivamente em sua vida como seus “pais musicais simbólicos” haviam feito – Ray Charles e Donny Hathaway.
They tried to make me go to rehab,
But I said ‘no, no, no’
Yes, I’ve been black, but when I come back
You’ll know-know-know
I ain’t got the time
And if my daddy thinks I’m fine
He’s tried to make me go to rehab
But I won’t go-go-go.
I’d rather be at home with Ray
I ain’t got seventy days
‘Cause there’s nothing
There’s nothing you can teach me
That I can’t learn from Mr. Hathaway
I didn’t get a lot in class
But I know it don’t come in a shot glass
Cada sujeito, na toxicomania, estabelece uma relação diferente com sua substância de escolha. Os movimentos compulsivos, repetitivos e progressivos, exigem cada vez mais o estado de prazer – o estado de Nirvana, capturado do budismo para simbolizar a libertação do sofrimento, a busca do êxtase máximo. E o caminho da pulsão, ensina Lacan, é transgressor, como diz Amy: não quero me perder do bebê(r), por isso deixo a garrafa por perto.
The man said “why do you think you’re here?”
I said “I got no idea.
I’m gonna, I’m gonna lose my baby,
So I always keep a bottle near.”
He said “I just think you’re depressed,

Kiss me here, baby, and go rest.”

Ceder à exigência de prazer ou atender à proibição de não beber novamente? A saída estratégica é recorrer a objetos (drogas) que, aparentando serem controlados inicialmente, satisfaçam à exigência pulsional. Ledo engano, uma vez que nenhum objeto ou substância pode cumprir essa missão, pois o princípio do prazer se caracteriza pela impossibilidade de satisfação. E o sujeito pede mais, mais, mais: a garrafa à mão é bem mais fácil do que encontrar um amigo.

Este é um convite a olharmos com mais atenção e respeito aos sujeitos da arte. Como qualquer um de nós, eles portam dificuldades e trazem apelos, difíceis de serem escutados, pois se travestem de personagens que nos deliciam e nos cegam.

It’s just ‘til these tears have driedI don’t ever want to drink again

I just, ooh, I just need a friend

I’m not going to spend ten weeks

And have everyone think I’m on the mend

It’s not just my pride.

http://psicanaliseearte-bethb.blogspot.com/

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