Não há dúvida de que a possibilidade de formar um casal sadio é algo que pode ser ensinado”

Hugo e Laís, casados há 15 anos e com dois filhos adolescentes, há muito tempo passaram do limite suportável de convivência. No início, as brigas entre eles eram mais espaçadas e menos violentas. Entretanto, de algum tempo pra cá nem os vizinhos estão mais aguentando os gritos e o barulho de móveis sendo derrubados no chão. Propuseram uma reunião de condomínio onde foi dada uma última advertência antes de entrarem com uma ação judicial para a expulsão do casal do prédio. Foi então que eles procuraram terapia de casal e numa sessão Laís me disse: “Não sei bem como a coisa começa. Às vezes estamos bem, conversando, mas de repente já estamos discutindo. O Hugo fala coisas que vão me tirando de mim… aí digo também o que ele não gosta de ouvir e quando vejo estamos nos agredindo de um jeito incontrolável. Acho que só conseguimos parar quando os meninos acordam, choram e se metem entre nós.”

É muito difícil saber em que momento duas pessoas que escolheram viver juntas começam a se estranhar. E na maior parte das vezes nem os envolvidos conseguem responder o porquê. Alguns chegam ao ponto de, após anos de vida em comum, ir deixando de falar com o outro – mas ficam ali, juntos. Um dado interessante vem dos EUA: estatísticas mostram que os casais conversam apenas meia hora por semana!

Isso não é difícil de entender. Desde criança todos aprendem que o casamento é o lugar onde uma pessoa pode realizar-se afetivamente. Dessa forma, desfazer a fantasia do par amoroso idealizado é doloroso. Entretanto, devido ao descompasso entre o que se esperava da vida a dois e a realidade, as frustrações vão se acumulando e, de forma inconsciente, gerando ódio. Por causa da sensação de fracasso, o que mais se vê no casamento são sentimentos de desprezo e de desvalorização, de um para o outro e de cada um por si. Eles se cobram, se criticam e se acusam.

Contudo, em algum momento o casal pode tomar consciência dos seus limites e desejar desfrutar uma vida mais satisfatória. A fantasia ideal do início dá lugar a uma versão mais realista. Cada um se torna mais autônomo, e abordar as desavenças de frente, em vez de ocultá-las, pode não parecer tão ameaçador. É então que pode surgir a ideia de procurar a terapia de casal. Afinal, a procura de autonomia não significa necessariamente incapacidade de permanecer numa relação a dois, mas sim a recusa de pagar qualquer preço por ela.

Há algumas décadas pensava-se no casal composto só por dois indivíduos, portanto, cada cônjuge era tratado individualmente, cada um com seu terapeuta. Com o tempo ficou claro que o casal se compõe de três partes, sendo dois indivíduos e uma relação: eu, você e nós. Cada parte deve ser igualmente observada, pois tem um significado na vida do casal. A terapeuta de casal americana Virginia Satir explica: “qualquer coisa que uma das pessoas faz requer que a outra responda, e essa resposta modela aquela pessoa. Paralelamente, a resposta do outro modela seu próprio eu. Essa sequência, repetida, dá origem a um modelo que se traduz em normas para a relação.”

Concordo também com sua afirmativa de que as dificuldades para enfrentar problemas em um casal sempre estão relacionadas à baixa autoestima dos parceiros. Outra complicação é representada pelo fato de que os membros de um casal podem ficar presos um ao outro, num encaixe psicológico que faz lembrar seus modelos infantis. Nesse caso, a terapia precisa estar atenta aos mecanismos de projeção. Quanto maior a necessidade de projeção, menor é a autoestima. Na projeção eu estou lidando com minha ideia de você, não com quem você é realmente. E é fundamental que os cônjuges desenvolvam a possibilidade de lidar com a pessoa real. Olhar juntos os membros de um casal permite que se observe a interação entre os dois e se compreenda como os parceiros se relacionam entre si ao desempenhar papéis.

Jürg Willi, professor de medicina psicossocial da Universidade de Zurique, Suíça, acredita que para duas pessoas elaborarem um mundo comum é preciso negociar juntas certas estruturas que dizem respeito ao sentido e objetivo da relação de casal. O desenvolvimento pessoal de cada um implica redefinir continuamente a distribuição de papéis, regras, funções e poder. Para que uma relação continue sendo funcional é importante que essas regras não sejam totalmente rígidas, nem modificáveis por um dos dois quando lhe aprouver e sem consultar o outro.

Não há dúvida de que a possibilidade de formar um casal sadio é algo que pode ser ensinado. Um casamento pode ser ótimo, mas para isso as pessoas precisam reformular as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois, como, por exemplo, a ideia de que os dois vão se completar, nada mais lhes faltando porque um vai ter todas as suas necessidades satisfeitas pelo outro, a crença de que não é possível sentir tesão por mais ninguém nem de ter algum interesse em que o amado não faça parte; o controle, que impedem a pessoa de se relacionar com alguém fora do casamento, etc.

Regina Navarro

 

 

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