Quem é o que habita o esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente?

Quem é o que diz: “Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu em quem confio”?

Somente aquele que DESPERTOU pode pronunciar corretamente estas palavras. Não basta lê-las em voz alta ou recitá-las como se recita o alcorão. Ao pronunciá-las o corpo deve assumir a postura correta, e ao inspirar e expirar deve existir uma cadência uniforme que ressoa e vibra por todo o corpo. É um cântico que envolve completamente, ficamos absortos e alma flutua em Essência e Luz.

Este cântico é o maior presente do Rei à raça humana. A promessa do Altíssimo ultrapassa todos os limites do imaginável, e sua misericórdia toma proporções infinitas.

Conhecemos a interpretação do Salmo 91, segundo a visão tradicional. Mas hoje, vamos visualizá-lo por outra ótica, ou seja, de acordo com o pensamento dos Feiticeiros Toltecas ou Magos Jaquis. Acredite, esta possibilidade de análise pode ser única em sua vida, portanto, peço que dedique a ela toda a sua atenção.

Iniciamos dizendo que este Salmo não se dirige a todos, como gostaríamos que fosse. Trata-se do Salmo do Homem Desperto ou Salmo do Homem de Conhecimento. A este o Senhor dirige as palavras inseridas no texto. Os chamados homens número 1, 2 e 3, ou seja, aqueles cujos centros estão parcialmente desenvolvidos, ou com uma conexão deturpada, não têm acesso às promessas contidas neste salmo, antes precisam despertar.

Existem, segundo a visão dos Feiticeiros Toltecas, quatro obstáculos a serem vencidos no caminho de um Homem de Conhecimento (art. 060). São eles: O medo, a clareza, o poder e a velhice. Uma vez ultrapassados, o Homem de Conhecimento estará frente a frente com a sua própria morte. É com relação a esses obstáculos que a promessa do Senhor faz menção. Portanto, vamos iniciar a análise a partir de cada um deles, e da forma como estão codificados no texto bíblico. Lembramos que a visão apresentada aqui é apenas uma possibilidade, sendo o seu alcance considerado só a partir de sua visão e aprovação pessoal. Não imputamos métodos nem processos a ninguém. Somos livres para escolher nosso próprio caminho.

Lembramos que ser um “Homem de Conhecimento” é um processo evolutivo, ou seja, não se trata de um conceito absoluto do tipo: tornei-me um Homem de Conhecimento, portanto, alcancei o meu objetivo. Não, não é assim. Podemos nos tornar um Homem de Conhecimento, depois de muitos anos de dedicação e esforços direcionados e contínuos somente por alguns dias, meses até, ou podemos ter apenas um vislumbre e cair novamente no universo limitado de nossas ações. Ser um Homem de Conhecimento é um processo sempre ativo e constante e só poderá ser alcançado após termos superado, ou vencido, todos os quatro obstáculos.

Quando iniciamos a nossa caminhada pela Senda do Conhecimento, o aprendizado real deixa de ser aquilo que inicialmente imaginávamos. Cada passo no caminho do aprendizado é uma nova tarefa, e com ela uma série ininterrupta e sempre crescente de dificuldades. Nunca imagine que o caminho do conhecimento é feito de calmaria e paz, pois não é. Ao contrário, o firme propósito da busca torna-se um verdadeiro campo de batalha, e com ele surge o medo que se manifesta diante das dificuldades. Sentimos então, como seria bom ter a vida normal como todos no seu dia-a-dia: nos seus afazeres domésticos, no seu trabalho, com os amigos, no churrasco, no futebol. É natural que o medo do desconhecido venha nos atormentar em determinados momentos, mas não devemos fugir, mas sim, desafiá-lo. O  Propósito inicial deve então tornar-se mais forte. Aprender deixa aos poucos de ser uma tarefa tão aterradora.

O MEDO

O Salmo 91, ou seja, o Salmo do Homem de Conhecimento nos diz:

        “Não te assustarás o terror noturno, nem a seta que voa de dia; nem a peste que se propaga nas trevas, nem a mortandade que assola ao meio-dia”.

Esta promessa é feita somente àquele que através do seu próprio esforço conseguiu vencer o primeiro obstáculo: O MEDO.

A partir desse momento, ou seja, quando aquele que se propôs a seguir os passos do Homem de Conhecimento, superou o primeiro obstáculo, mil podem cair ao seu lado e dez mil à sua direita, que não será mais atingido. Significa que todas as Fronteiras Imaginárias (art. 022) do medo, quer sejam mil ou dez mil, já não têm nenhum poder sobre ele.

Uma vez que tenha vencido o medo, estará livre dele pelo resto de sua vida. Não mais sucumbirá diante dos medos  imaginários, pois adquiriu a CLAREZA. Uma clareza de espírito que vence o medo, portanto, não terá mais medo de nada, pois conhece os seus desejos e sabe como lidar com eles. Quando se torna senhor do medo, também torna-se senhor de si mesmo. E assim ele encontra o seu segundo obstáculo: A CLAREZA.

A CLAREZA

Essa clareza de espírito que é tão difícil de obter elimina o medo, mas também cega, pois induz o homem que busca o conhecimento a nunca mais duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que pode “fazer”, e ele passa a creditar nisso e se sentir superior em relação aos demais. Mas “o homem não pode fazer absolutamente nada, na sua vida tudo simplesmente acontece”. O seu “fazer” será apenas efêmero e convencional e ele terá sucumbido ao seu segundo obstáculo. Vai precipitar-se quando deveria ser paciente, ou ser paciente demais quando deveria precipitar-se.

Terá que tomar a mesma atitude que tomou em relação ao medo, ou seja, terá de desafiar a sua clareza de espírito. Terá que usá-la somente para Observar a Si Mesmo. Terá que observar antes de tudo todas as formas de “Identificação” à sua volta, e não se permitir dominar pela Imaginação e pelas Emoções negativas. Diante do Verdadeiro Conhecimento e tendo o seu Ser (art. 072)  mais amadurecido, poderá Compreender (art. 073)  definitivamente que a clareza é apenas um minúsculo ponto diante dos seus olhos.

Somente a partir desse ponto, o Senhor enviará  seus anjos em sua ajuda, e não antes. Somente depois de vencer toda a magia inerente à clareza, lhe será permitido ver:

         “Com os teus próprios olhos VERÁS o castigo dos ímpios, pois disseste: O senhor é o meu refúgio, fizeste do Altíssimo a tua morada”.

Então, o Senhor lhe dirá:

            “Nenhum mal chegará à tua tenda, pois aos seus anjos dará ordens ao teu respeito para que te guardem em todos os teus caminhos”.

As promessas do Altíssimo são prêmios ao homem que se coloca em busca do Verdadeiro Conhecimento. Depois de ter vencido o medo e a clareza, o homem é capaz de ver tudo à sua volta, mas também encontrou o seu terceiro obstáculo: O PODER.

O PODER

O PODER é o mais cruel e sanguinário de todos os inimigos do homem.  O seu maior inimigo não é o Lobo, nem Satanás, nem Demônio, nem coisa nenhuma, é o PODER. Por ser frio e calculista, ele comanda de forma estratégica, expondo-se pouco ou quase nada, e termina por criar regras, dogmas, credos, hierarquias, doutrinas e outras coisas mais. Simplesmente, porque o poder é um algoz que assume o lugar do Eu Real no coração do homem. Volto a dizer, o poder não é o Lobo, é um artifício que atraímos ao subjugar o medo e a clareza. Ele torna-se o próprio homem, portanto, nem sequer é notado quando se aproxima. Tem um sabor especial, uma espécie de feitiço, e quando percebemos já nos transformou em seres cruéis, absolutos, donos da verdade e caprichosos, além de indulgentes, racionais e convencidos.

PASSAMOS A NADA VER ALÉM DO NOSSO PEQUENO MUNDO, NOS ATRELAMOS ÀS SUAS RÉDEAS DE PROTEÇÃO E BEM-ESTAR.

Quando estamos nesse estágio não temos nenhum domínio sobre nós mesmos, e não sabemos quando, nem como usar o poder. Um homem identificado com o poder está mil vezes morto, liquidado, sem nenhuma chance. É por isso que me refiro nestas páginas à “Procissão da Miséria Humana”, como “morta” cheirando a “carne fétida”. É duro dizer isso, mas é verdade, o poder tomou conta de nós como pessoas e como espécie, e está nos levando à extinção. É necessário entender uma coisa: o poder, que aparentemente é uma conquista nossa, não nos pertence. Por isso um Homem de Conhecimento, que depois de grandes esforços o adquiriu, precisa saber lidar com ele. Precisa ser paciente em todas as ocasiões, tratando com cuidado e lealdade tudo aquilo que aprendeu.

Quando conseguir observar que a clareza e o poder, sem o seu completo controle, são tão pecaminosos quanto os erros outrora cometidos, alcançará um limiar (art. 056) onde poderá reunir força suficiente para derrotar o seu terceiro e maior inimigo. Só então fará por merecer as promessas do Senhor:

“Pisarás o leão e a áspide; calcarás aos teus pés o leãozinho e a serpente”.

Somente aquele que superou todas as artimanhas do poder pode se fazer merecedor desta promessa de Deus, não antes. E o Senhor ainda dirá:

“Porque a mim se apegou com amor eu o livrarei, pô-lo-ei a salvo porque conhece o meu nome”.

O homem que busca o Verdadeiro Conhecimento estará, então, chegando ao fim da sua jornada do saber, e quase sem perceber, irá tropeçar no seu último obstáculo: A VELHICE.

A VELHICE

Este é o mais valoroso e cruel de todos os seus adversários: o precursor que anuncia a chegada de uma nova vida chamada MORTE. Este é o obstáculo que nunca poderá ser vencido, mas apenas afastado. É o momento em que o homem que busca o Verdadeiro Conhecimento sente um enorme desejo de descansar, esquecer e se afundar na fadiga. Mas se o fizer, terá sucumbido ao seu último adversário, que o reduzirá a uma criatura velha e débil. O seu desejo de retirar-se poderá reduzir a nada toda a sua clareza, poder e sabedoria. Mas, se sacode a fadiga , arregaça as mangas  e encara o seu destino, então, estará preparado para ouvir mais uma promessa do Senhor:

 “Na sua angústia eu estarei com ele, livrá-lo-ei e o glorificarei. Saciá-lo-ei com longevidade…”.

A partir desse momento, o Homem de Conhecimento povoa a terra com seu espírito e santifica cada lugar onde pisa. Não deixa pegadas atrás de si, nem almeja coisa nenhuma. Passa despercebido pela multidão e da sua boca somente se ouve o silêncio dos anjos. É como a brisa leve de uma manhã de outono. Deixou de preocupar-se com as coisas do mundo, apenas respeita o solo sagrado onde pisa. Tem como irmãos, além dos seus em espécie, as flores e os frutos, os regatos e a mansidão dos trigais ao entardecer. Agora este HOMEM DE CONHECIMENTO ou AQUELE QUE DESPERTOU, irá se encontrar com o seu último e mais valoroso adversário, além do mais fiel de toda uma vida: A MORTE.

A MORTE

O HOMEM DE CONHECIMENTO irá dançar com aquela que o acompanhou ao longo de toda uma vida, sempre ao seu lado esquerdo à distância de um braço. Mas este HOMEM MADURO E CONSCIENTE  não se sentirá amedrontado, pois VENCEU O MEDO. Não se mostrará arrogante, nem presunçoso, pois VENCEU A CLAREZA. Também sabe que o seu desejo é uma ordem, pois tornou-se SENHOR DO PODER AO VENCÊ-LO DENTRO DE SI MESMO. Não está assustado com o fim, pois, durante toda a sua VELHICE desenvolveu a paciência e soube como manejá-la.

O HOMEM QUE DESPERTOU É UM SÁBIO QUE VÊ.

Então, ele olha à sua volta e VÊ dois cálices do mais puro cristal. Convida a sua anfitriã para fazer um último brinde, antes de dançarem ao som de sua música preferida. Há sobre a mesa duas garrafas do mais puro vinho, então, ele eleva seus olhos ao infinito e agradece. Então, com o conteúdo de uma das garrafas enche a sua taça, enquanto abre a outra e dela serve a sua anfitriã. Ambos brindam e bebem sorridentes. Inicia-se a música. Um som magnífico se faz ouvir: a sua canção favorita. A MORTE flutua leve em seus braços como uma linda dançarina de um cabaré ao sopé da montanha. Aos poucos ele percebe que o  corpo de sua amante vai se tornando flácido até adormecer. Então, coloca-o com carinho por sobre a relva,  bebe o último gole que ainda resta de sua taça e, calmamente, sem nenhuma precipitação, rompe a Parede de Névoa e segue o seu destino.

Diante de si descortina-se um imenso jardim, então desperta, como se acordasse de um lindo sonho e lê:

  

“… e lhe mostrarei a minha salvação”.

Que assim seja!

Lázaro de Carvalho

Anúncios