Este artigo tem como objetivo trazer ao leitor um maior esclarecimento sobre as questões de psicopatia voltada para o gênero feminino, que na maioria das vezes é visto na sociedade como um ser frágil e delicado, em que uma atitude de agressividade por parte destas seria classificada como atitude não feminina, estaria ligada a outros motivos.

Tomaremos como exemplo o filme atração fatal, no qual, através de uma análise da obra, destacaremos alguns pontos característicos de psicopatia.

Este artigo foi produzido a partir de uma pesquisa qualitativa, no qual foi tomado como referenciais teóricos alguns autores que falam sobre questões de psicopatia, gênero, e violência feminina: Ana Beatriz Barbosa Silva, Robert Stoller, Kátia Ovídia e José de Souza.

Sendo assim, devemos olhar a psicopatia não como algo que atinge apenas os homens, mas que existe também um lado feminino apagado e encoberto pela moral social. Conceito de Psicopatia

A psicopatia é um tipo de personalidade nociva, desprovida de sentimento e voltada totalmente para a razão. Está geralmente incluída no que chamamos de ‘Transtorno de Personalidade Anti-Social’.

A psicopatia está relacionada a disfunções cerebrais, sendo que o psicopata nasce psicopata e permanece assim, sem que haja possibilidade de cura.

O psicopata não se redime às regras sociais. É uma pessoa aparentemente sedutora e inteligente, embora seja internamente fria, aleivosa, manipuladora e egocêntrica. Está em busca de poder, status e prazer, através da maldade, tendo consciência absoluta do que está fazendo, sem sentimento algum. Silva (2008) em seu livro Mentes perigosas – O psicopata mora ao lado, fala sobre a questão da consciência genuína, que é a capacidade que temos de nos colocarmos no lugar do outro, de nos fazermos pedir desculpas quando erramos, de sentirmos felicidade com a alegria de outras pessoas, de nos entristecermos com tragédias, de protestarmos contra injustiças etc. Os psicopatas são desprovidos dessa consciência, não possuem a capacidade de empatia (se colocar no lugar do outro).

Possuem intolerância às frustrações, o que os fazem pessoas rancorosas, vingativas e incapazes de aceitar obstáculos comuns do cotidiano.

A psicopatia pode ser classificada em níveis: leve, moderado e grave. Cerca de 4% da população sofre algum tipo de psicopatia, destes, apenas 1% grave.

A psicopatia é mais evidente nos indivíduos do sexo masculino, sendo uma estimativa de três homens pra uma mulher, mas, evidentemente, a psicopatia também atinge as mulheres em vários níveis, embora com características diferentes e menos específicas quando comparadas às que atingem os homens.

Nos homens, o transtorno fica manifesto antes mesmo dos 15 anos de idade, contudo, nas mulheres pode passar despercebido um longo tempo, principalmente porque as mulheres psicopatas são visivelmente mais discretas e menos precipitadas que os homens. Filme Atração Fatal

Percebemos claramente a imagem de uma psicopata feminina no filme Atração Fatal.

O filme, lançado em 1987, conta a história de Dan Gallagher, um advogado bem-sucedido e feliz no casamento com Beth Gallagher. Alex Forrest é uma executiva solteira. Dan Gallagher conhece Alex Forrest em uma festa de trabalho e já neste encontro surge um desejo por parte dela em ficar com Dan Gallagher. O outro encontro dos dois acontece em uma reunião e no mesmo dia, Dan Gallagher dorme com Alex, enquanto sua esposa está visitando os pais.

Desde o inicio da relação, Dan Gallagher deixa bem claro que é casado, mas mesmo assim, Alex insiste em manter a relação. Ela demonstra seu primeiro sinal de obsessão quando Dan resolve ir embora após ter relação sexual e ela, de forma descontrolada, puxa Dan pela blusa até rasgá-la. Após esse episódio, Dan resolve romper com ela, mas ela fica ainda mais nervosa e acaba dando um chute nele, no entanto, numa tentativa de tentar mantê-lo ali, ela vai para cozinha, corta os dois pulsos e começa a chorar nos braços de Dan. Ele cuida dela e resolve não ir embora. Na manhã seguinte, Dan se despede de Alex e rompe com ela, desta vez ela não tem nenhuma atitude descontrolada, e se despede calmamente.

Dan volta para sua casa, Beth logo chega de viajem e estes ficam muito bem. Dan, numa tentativa de agradar a esposa, resolve ir comprar uma casa que sua esposa deseja. Logo depois vai para o trabalho, onde tem uma surpresa: Alex está esperando por ele. Desta vez, ela se mostra uma pessoa cordial e calma, convidando-o para sair e este se recusa. Alex se mantém calma e mais uma vez dá adeus a Dan, porém, ela volta a procurá-lo ligando em seu escritório e novamente ele deixa bem claro que não quer mais nenhum envolvimento.

Ela continua a ligar para ele e em uma das ligações, a esposa de Dan atende, porém, Alex não fala nada. Por fim, Alex liga em uma madrugada e impõe que eles se encontrem pela manhã. Ao se encontrarem, Alex diz que o ama e que está grávida. Dan propõe que ela faça um aborto, porém, ela se recusa a fazer.

Neste ponto, Dan encontra-se entre a paz e o terror. Em uma tentativa de descobrir quem realmente era Alex, Dan invade o apartamento dela em busca de algo, porém nada encontra.

Dan começa a ficar angustiado e com medo de perder sua família. Após um dia de trabalho, ao chegar a sua casa, Dan fica surpreso ao ver Alex negociando o apartamento com Beth. Beth o apresenta a Alex e, ironicamente, Alex diz que seu rosto não lhe é estranho e que se lembra dele da festa a qual conversaram pela primeira vez. Dan se faz de desentendido e logo depois ela vai embora. Dan resolve ir até a casa de Alex e ao chegar lá, ela finge que está tudo bem, oferecendo-o bebida. De forma grosseira, ele diz que ela deve parar com tudo isso, ela responde dizendo que não irá parar, que não quer ser rejeitada e que ele deve assumir o filho. Mesmo assim, ele vai embora e ela o ameaça de contar tudo para a esposa dele. Dan diz que irá matá-la caso conte algo.

Dan passa a temer sempre quando o telefone toca em casa. Alex passa a persegui-lo, chegando a jogar ácido no carro de Dan prejudicando toda a parte elétrica. Outra vez, Alex o segue até em casa e lá fica observando pela janela a relação de Dan com sua família. Alex chega a ter náuseas e vomita.

Alex grava uma fita para Dan, dizendo que não adianta ele querer fugir, pois uma parte dele já está dentro dela e mais uma vez fala sobre ele assumi-la, ao mesmo tempo, ela diz que o odeia e que ele é um canalha.

Dan procura ajuda da policia, porém, não consegue nenhuma solução.

Alex invade a casa de Dan, mata o coelho de sua filha Ellen e o coloca numa panela com água fervendo, o que deixa Beth e a filha de Dan chocados. A única saída que Dan encontra é contar Beth que sabe quem fez isso. Ele conta que teve um caso com Alex e que ela está grávida. Beth fica completamente surpresa e descontrolada e pede que ele saia de casa. Dan liga para Alex, dizendo que sua esposa já sabe de tudo e Beth confirma, porém, isso não faz com que ela o queira de volta em casa.

Alex chega ao ponto de ir até a escola de Ellen, pegá-la e levá-la a um parque de diversão. Beth entra em desespero quando vai buscar a filha e percebe que ela já foi embora com outra pessoa, isto faz com que ela bata o carro. No fim do dia Alex deixa Ellen na casa deles. Sendo assim, Dan vai até a casa de Alex e lá eles começam uma briga física. Ele a enforca na intenção de matá-la, mas ele perde a coragem e solta Alex. Ela pega uma faca e tenta matá-lo, porém, não consegue. Ele vai até a polícia, mas a polícia não consegue encontrá-la.

Por fim, Alex invade a casa de Dan e tenta matar Beth com uma faca. Ele escuta a briga entre elas e vai até o local; Alex também tenta matar Dan, porém, ele a deixa desmaiada na banheira, pensando que ela está morta, mas, quando ele menos espera, ela se levanta, mas Beth pega a arma e mata Alex com um tiro no peito.

Apesar do trauma, o casal volta a viver suas vidas como antes. Sinais de psicopatia em Alex

A personagem Alex Forrest, no primeiro momento do filme, não nos passa nenhuma imagem de uma psicopata. A melhor cena para comprovar isto é a da festa onde Alex e todas as pessoas do local estão vestidas com cores escuras. Uma única mulher aparece de vermelho e imediatamente associamos a figura ao “fatal” do título, mas ela se revela em um figurino exatamente igual ao dos outros convidados, uma pessoa como qualquer outra ali. É ai onde está o fato em questão, pois os psicopatas são pessoas aparentemente sedutoras e inteligentes, e isto o diretor do filme deixa bem visível na imagem de Alex. O jogo entre preto e branco das cenas, acaba construindo a personalidade da vilã Alex que, por muitas vezes, é a única que usa a cor branca em cena e está sempre exposta. Outro ponto que vale a pena ressaltar, é que Alex não só possui características físicas e comportamentais de um psicopata, mas vemos no decorrer do filme que ela possui um caráter psicopata também.

Um ponto que vale a pena ser ressaltado é a atitude que Alex toma assim que percebe que está perdendo seu objeto de desejo, cortando os pulsos com o objetivo de conseguir manter Dan Gallagher junto dela.

Como vimos outrora, é característico dos psicopatas serem internamente frios, manipuladores e egocêntricos. Percebe-se que, para conseguir aquilo que queria, Alex foi capaz de tomar atitudes que vão muito além de um comportamento normal. Como por exemplo, quando ela invade a casa de Dan Gallagher pega o coelho da pequena Ellen, mata-o e deixa-o dentro de uma panela com água fervendo. Essa atitude deixa claro que Alex, naquele momento, só queria voltar a atenção de Dan para ela.

Por fim, quando percebeu que não conseguiria ficar com Dan, Alex tenta tirar do seu caminho aquilo que estava lhe impedindo, atitude de se esperar de uma psicopata, vai até a casa dos Gallagher e no banheiro da casa tenta matar a esposa de Dan, porém fracassa em sua tentativa.

Sendo assim, não nos resta dúvidas que, ao criar esta personagem, o diretor Adrian Lyne e os autores Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer e Ellen Hamilton Latzen, buscaram retratar nos anos 80 a imagem de uma psicopata feminina que até então era encoberta pela mídia. Quebra da Imagem Masculinizada da Psicopatia

Qual a primeira imagem que nos vem à cabeça quando pensamos em um psicopata?

Sem sombra de dúvidas, a psicopatia assume uma imagem masculinizada dentro de nossa sociedade, no entanto, devemos nos atentar que, apesar da pouca incidência de casos, a psicopatia feminina existe e não deve ser deixada de lado ou simplesmente reconfigurada dentro de um contexto social.

Há grupos de pesquisas compostos por psicólogos e psiquiatras que tem se dedicado ao estudo da psicopatia no sexo feminino. As conclusões atuais mostram que a psicopatia grave é encontrada com pouca freqüência nas mulheres.

As mulheres psicopatas possuem uma necessidade de demonstrar poder e controle sobre as pessoas. São sedutoras, vaidosas e sádicas. Possuem, assim como os homens psicopatas, uma facilidade em mentir de forma realista e não medem as conseqüências para atingirem seus objetivos.

A ausência dos estudos sobre violência feminina seria pelos seguintes motivos: a baixa incidência de crimes de autoras femininas, o encobrimento da violência feminina, baixa notificação de crimes femininos, o preconceito das pessoas que atribuem pouco ou até nenhum valor às manifestações da violência feminina e a falta de pressão da opinião pública sobre o assunto.

Alguns dados valem ser ressaltados sobre o numero de prisioneiras no Brasil em alguns anos: no ano 2001, tínhamos 5.465 Prisioneiras, três anos mais tarde, em 2004, esse número subiu para 16.473 e no ano de 2005 houve uma queda para 12.925 prisioneiras, sendo que só havia 7.836 vagas. Temos ai um déficit de 5.089 vagas. A partir desses dados não podemos deixar de levar em conta o caráter criminoso que uma mulher pode assumir, muito menos rotular a imagem de um psicopata a um homem.

Essa visão da mulher como ‘quem deve cuidar do lar’ é tão real que dentro das penitenciárias a forma de lidar com presos homens é diferente da que se lida com as mulheres; O trabalho com os presos é feito na intenção de recuperação voltada para serem “cidadãos” reintegrados na comunidade. No caso das mulheres, é resgatar a mulher do lar, recuperação da figura doméstica, restaurar a mulher para ocupar o espaço caseiro, privado.

Conforme afirma Souza (2009):

Tanto homens quanto mulheres podem ser vítimas e agressores, por isso é preciso, ao tratar o sujeito e a violência, evitar generalizações de espécie, colocando os homens como autores e as mulheres como vítimas da violência

Conclusão

Podemos concluir que a psicopatia feminina não se difere muito da psicopatia em si, e é algo que não existe apenas nos cinemas, mas, que também está presente em nossa realidade social. Devemos quebrar esse paradigma social sobre a visão da psicopatia.

Vimos no estudo de caso feito sobre o filme Atração Fatal, pontos característicos da psicopatia feminina.

“A atenção deve recair na desnaturalização da mulher como apenas vítima da violência, como coloca Gomes (2003), embasado nos estudos de Bourdieu, ao problematizar a posição de agressor e vítima na perspectiva de gênero, incluindo a situação do sujeito, seja ele homem ou mulher, inserido no discurso da violência.” SOUZA (2009).